CAPÍTULO 9

774 Palavras
Lorenzo A chuva castigava os vitrais da villa quando liguei o laptop pela centésima vez. Os rostos nos arquivos antigos passavam rápido na tela mafiosos, traidores, aliados mortos. Mas foi quando o nome Amara Diagne surgiu no centro de um relatório secreto que o tempo pareceu parar. Ela não era uma funcionária qualquer. Não era uma infiltrada enviada por um inimigo. Ela era filha de uma mulher que havia trabalhado para o meu pai uma mulher que, segundo as lendas da família, havia morrido por causa de um segredo que nunca deveria ser revelado. O sangue gelou nas minhas veias. O arquivo dizia que a mãe dela, Celina, havia sido acusada de trair a família De Santis. Mas as datas, as datas não batiam. Se aquilo fosse verdade, ela teria sido executada antes do crime que a acusaram de cometer. Ou seja: alguém apagou a verdade. Fechei o laptop com força. Havia algo muito maior por trás daquela mulher. E se ela estivesse aqui por vingança, De repente, tudo fazia sentido. Saí do escritório e caminhei pelos corredores escuros da villa. O som da chuva se misturava ao eco dos meus próprios passos. As paredes pareciam observar. Ela estava em algum lugar ali dentro e, de alguma forma, eu sabia que não dormiria até encontrá-la. — Isabella? — chamei, a voz ecoando na penumbra. Nenhuma resposta. Subi as escadas. O quarto dela estava vazio. A cama desfeita. A janela entreaberta. O vento frio me atingiu, e um detalhe chamou minha atenção, uma pulseira de prata caída no chão. A mesma que ela usava desde o primeiro dia. — Maldita seja — murmurei, a fúria misturada com algo que eu não queria admitir. Ela havia fugido. Peguei o telefone. — Matteo, ela saiu da villa, Quero todos os acessos bloqueados. Nenhum carro sai. — Entendido, senhor. Desci apressado até a garagem. O cheiro de gasolina e metal se misturava ao som da tempestade. Um dos portões laterais estava aberto. E lá estava ela , encapuzada, molhada, tentando atravessar o jardim em direção à estrada. — Isabella! — gritei. Ela parou. Virou-se lentamente, e mesmo à distância pude ver o brilho dos olhos dela sob a chuva. — Não me chame assim! — respondeu, a voz quebrando. — Esse nome não é meu! Comecei a andar na direção dela, cada passo marcado pela raiva e pelo desejo reprimido. — Então me diga quem diabos você é de verdade! Ela respirou fundo, tremendo, mas não recuou. — Eu sou a mulher que sua família destruiu. O trovão estourou, e o som ecoou entre nós como uma sentença. A chuva descia pesada, colando o tecido da roupa ao corpo dela, o cabelo molhado caindo sobre o rosto. Mesmo assim, ela me olhava com uma mistura de dor e desafio. — A família De Santis tirou tudo de mim — continuou. — E agora você quer tirar o que sobrou? — Não! — avancei um passo. — Eu quero a verdade. — A verdade não te convém, Lorenzo. — A voz dela era um sussurro amargo. — Porque, no fundo, você já sabe. Fiquei imóvel. As palavras dela cortaram mais fundo do que eu esperava. E então percebi, ela não estava mentindo. Ela sabia algo que eu ainda não sabia. Dei mais um passo. Ela deu dois para trás. — Se continuar me perseguindo, vai acabar se queimando — avisou. Sorri, sem humor. — Talvez eu já esteja queimando há muito tempo. Por um momento, o mundo pareceu se reduzir a nós dois chuva, respiração e o peso daquilo que não se podia dizer. E quando cheguei perto o suficiente para tocar o braço dela, senti o tremor. Ela podia odiar meu nome, mas não conseguia esconder o efeito que eu causava. — Fica — pedi, a voz rouca. — Me deixa entender. Ela me olhou, os lábios entreabertos, o olhar dividido entre raiva e rendição. — Se eu ficar, você vai me destruir. — E se você for, vai me destruir do mesmo jeito. A chuva continuava caindo, impiedosa. Ela deu um passo à frente. Os dedos dela tocaram meu peito leve, incerto. E naquele toque havia mais verdade do que em qualquer palavra. Mas, no instante seguinte, ela se afastou. — Adeus, Lorenzo. Antes que eu pudesse impedir, ela correu para o portão lateral e desapareceu na noite. Fiquei ali, sob a tempestade, o corpo ardendo de raiva, confusão e algo que se parecia demais com perda. E pela primeira vez em anos, percebi que não tinha o controle. Nem dela. Nem de mim. Amara Diagne havia se tornado minha obsessão. E eu não descansaria até encontrá-la.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR