CAPÍTULO 3 — ENTRE PORTAS FECHADAS

1272 Palavras
A fachada do edifício Moretti dominava a rua como um gigante silencioso: vidro espelhado, colunas de aço escuro e a sensação incômoda de que cada centímetro estava sendo observado por olhos invisíveis. Naomi respirou fundo antes de atravessar as portas giratórias, seu salto ecoando no mármore polido do saguão. Nada ali parecia esconder o que eram. Mas também não revelava. Era esse o jogo dos Moretti: mostrar poder, nunca intenção. A recepcionista a observou com cortesia profissional — não o tipo comum, mas aquela polida demais, treinada, que não se surpreende com nada. — Bom dia. Em que posso ajudar? — Naomi Carter. Estou aqui para falar com Luca Moretti. A recepcionista não fez perguntas, não pediu detalhes, não checou agenda. Apenas pegou o telefone e murm urou algo rápido. Segundos depois, ela sorria. — Ele está esperando. O elevador privado ali à direita. Esperando? Ele sabia. Ou antecipou. Naomi não permitiu que sua expressão vacilasse. Caminhou até o elevador indicado e a porta se abriu automaticamente, como se tivesse sido ativada por sensores invisíveis. O elevador subiu sem que ela tocasse em botão algum. A sensação era inquietante. E previsível. Naomi ajustou a postura, o semblante sério, a pasta de couro nas mãos. Não permitiria que Luca confundisse sua intenção. Quando as portas se abriram, ela encontrou uma entrada ampla, marcada por paredes de vidro e arte moderna. E, no centro, Luca. De costas, uma das mãos no bolso, observando a vista da cidade como se fosse dono de cada prédio iluminado. Ele se virou devagar, como se já soubesse o exato momento em que ela chegaria. E quando seus olhos se encontraram, Naomi sentiu algo elétrico percorrendo sua pele — algo que ela queria ignorar, mas não podia negar. — Sr. Moretti — começou ela, firme. — Luca — corrigiu ele, com um meio sorriso. — Eu estava esperando você. A frase atingiu Naomi como uma provocação calculada. — Eu vim devolver isso — disse ela, estendendo a pasta. Luca desviou o olhar para o objeto e depois voltou a encará-la. — Não aceitei seu presente. E não aceito nada que possa comprometer meu trabalho ou minha integridade. Ele deu alguns passos, cada movimento lento, controlado, como se ainda analisasse a melhor forma de lidar com ela. — Naomi… — disse, pegando a pasta, porém sem desviar os olhos. — Esse não era um presente. Era um agradecimento. — Agradecimento pressupõe permissão. E eu não dei nenhuma. Luca soltou um leve suspiro. — É verdade. — Ele pousou a pasta em uma mesa próxima. — Não deveria ter enviado. Surpresa tomou Naomi por um instante. Ela esperava resistência, provocação, não… concordância. — Mas entenda — continuou ele —, não pretendia ofender. Apenas demonstrar respeito pelo seu trabalho. Não costumo admirar facilmente. — E eu não costumo aceitar admiração de homens envolvidos… — ela parou, escolhendo a palavra. — …em coisas que prefiro não me envolver. Luca sorriu de canto — aquele sorriso perigoso, controlado, que parecia carregar segredos. — Entendo a reputação da minha família — disse ele. — Mas você não está falando com eles. Está falando comigo. — Seu sobrenome fala por você, Sr. Moretti. — Naomi cruzou os braços. — E eu o conheço. Ele deu mais um passo. Agora estava perto o suficiente para que Naomi sentisse a presença dele como calor. — Então me diga — respondeu ele suavemente. — O que exatamente você acha que sabe sobre mim? Naomi engoliu seco. Não porque tinha medo. Mas porque ele a desafiava de forma diferente. — Sei que homens com seu poder não se aproximam sem querer algo. Sei que nenhum Moretti dá um passo sem intenção. E sei que qualquer envolvimento entre nós — profissional, pessoal, acidental, o que for — traria consequências que não estou disposta a aceitar. O silêncio entre os dois pareceu se expandir. Luca a estudou por longo tempo — não como um predador estuda uma presa, mas como alguém que tenta entender a estrutura de algo precioso, delicado e perigoso ao mesmo tempo. — Naomi — disse ele, finalmente. — Eu não vim atrás de você para envolver sua carreira ou sua segurança. Não quero nada que possa prejudicá-la. — Então o que você quer? — ela devolveu, direta. Ele poderia ter mentido. Poderia ter desviado. Poderia ter dado uma resposta genérica. Mas não deu. — Quero entender o que senti quando te vi. O ar entre eles pareceu vibrar. Naomi sentiu a espinha se eriçar, os músculos tensos, o coração acelerado de forma involuntária. Mas manteve o rosto impassível. — O que você sentiu não me diz respeito — respondeu ela, com esforço. — E não muda o fato de que você é um homem que eu não posso… — sua voz falhou um pouco. — …não posso permitir que se aproxime. Luca se aproximou mais um passo. Agora faltavam centímetros. — E você quer que eu me afaste? — perguntou ele, não com arrogância, mas com sinceridade. Ela abriu a boca para responder, mas nada saiu. Ele percebeu. Os olhos de Luca baixaram por um segundo para os lábios dela — um gesto pequeno, rápido, mas capaz de acender uma centelha dentro dela — antes de retornar ao olhar firme. — Naomi… — a voz dele era grave, baixa demais, quente demais. — Se você disser que quer que eu vá, eu vou. Ela inspirou, o peito apertado. Queria dizer sim. Precisava dizer sim. Mas a palavra não vinha. Porque parte dela — a parte que ela tentava calar desde o tribunal — queria vê-lo de novo. Queria entendê-lo. Queria saber por que olhar para ele a fazia sentir como se estivesse pisando em um limite perigoso e irresistível. Luca notou a hesitação. E não sorriu. Não avançou. Não celebrou. Ele simplesmente entendeu. — Você tem medo que minha presença complique sua vida. E você está certa — disse ele, com honestidade rara. — Mas eu não vou forçar nada. Só preciso que você saiba que não vim aqui para arrastá-la para a escuridão, Naomi. Eu não sou meu irmão. Sou eu. Essa frase bateu forte. Naomi se viu recuando um passo, não por medo dele, mas por medo de si mesma — do que aquela conversa significava, do que aquele homem representava. — Eu vim aqui para deixar claro que não quero envolvimento, Luca. Nenhum tipo. Luca assentiu. — E eu ouvi. — Então… — ela engoliu — isso termina aqui. — Se for o que você verdadeiramente quer… sim. Silêncio. O tipo de silêncio que diz que nada acabou de verdade. Naomi pegou a bolsa, girou nos calcanhares e caminhou até o elevador. Não olhou para trás. Não queria ver a expressão dele, não queria se contradizer, não queria admitir que parte dela queria ficar. Mas antes que a porta se fechasse, ela ouviu: — Naomi… Ela parou. — Não importa o que aconteça, você sempre pode falar comigo diretamente. Sem intermediários. Sem medo. Ela fechou os olhos um instante. Inspirou fundo. E deixou o elevador a engolir. Assim que as portas se fecharam, seu coração disparou. Ela não estava com medo de Luca. Nem da família dele. Nem das consequências. Ela estava com medo daquilo que sentira. Porque naquela sala envidraçada… num único olhar…algo dentro dela mudou. No último andar, após o elevador descer, Luca permaneceu imóvel, a mente fervendo. Ele sabia desde o início que Naomi Carter não seria alguém fácil de se aproximar. Mas agora ele sabia algo novo: Ela era perigosa. Não porque pudesse destruí-lo. Mas porque podia mudá-lo. E isso, para um Moretti, era a forma mais profunda de perigo.
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