CAPÍTULO 5 - ENTRE O FOGO E A VERDADE

1354 Palavras
O silêncio dentro da sala parecia mais pesado do que o chumbo. Luca estava de pé diante da mesa de reuniões, os dedos batendo no tampo de madeira escura num ritmo lento, quase ameaçador. Aquele tipo de silêncio fazia parte dele — controlado, calculado, perigoso. Mara permaneceu parada à porta, o coração acelerado. Não sabia se entrar significava segurança ou ruína. Ele levantou o olhar. — Fecha a porta, Mara. A voz não era um pedido. Era um comando. Ela obedeceu, mesmo sabendo que qualquer movimento ali poderia costurar seu destino ao dele de um jeito irreversível. Quando se virou, Luca a observava com uma intensidade que a fez parar no meio do caminho. Não era luxúria, nem raiva. Era outra coisa. Algo que ela não conseguia nomear, mas que vibrava no ar como eletricidade antes de uma tempestade. — Quer me dizer por que está andando pela cidade como se não tivesse ideia do que está acontecendo? — Luca perguntou, finalmente quebrando o silêncio. — Não sei do que está a falar — respondeu ela, erguendo o queixo num desafio involuntário. — Não sabes? — Luca soltou uma risada baixa, sem humor. — Porque hoje à tarde alguém tentou te seguir. Dois caras da família DeLuca. E não era para te convidarem para jantar. O chão pareceu desaparecer debaixo dos pés de Mara. — Eu… pensei que fosse paranoia minha — ela confessou, a voz quase um sussurro. — Paranoia? — Luca caminhou até ela, lento, como um predador aproximando-se de sua presa. — Mara, quando um DeLuca te segue, nunca é paranoia. Ela recuou até encostar as costas na parede, mas Luca não estava ali para assustá-la. Pelo contrário. Ele ergueu uma mão e tocou de leve o rosto dela, o polegar roçando contra a pele como se testasse sua vulnerabilidade… ou sua força. — Preciso que confies em mim — disse ele, agora baixo, quase um pedido. — E como posso confiar em alguém que não me diz nada? — Mara rebateu, sua respiração falhando. — Tu fechas a porta, dás ordens, falas em perigo, mas não explicas nada. Como vou confiar no que não compreendo? Luca fechou os olhos por um segundo — coisa rara. Quando os abriu, havia mais verdade neles do que ela esperava ver. — Porque se eu te contar tudo… — ele respirou fundo — talvez te afaste para sempre. Uma dor inesperada atravessou o peito dela. Ele estava com medo — medo dela, do que ela representava, do que poderia perder. — Luca… — ela começou, mas ele apertou de leve sua cintura, aproximando-se mais. — O que aconteceu hoje não foi casual. E não foi coincidência. Tu estás envolvida nisso por minha causa. — Ele passou a língua pelos lábios, como se a verdade tivesse gosto amargo. — E porque, infelizmente, não consigo ficar longe de ti. Aquelas palavras atingiram Mara como um soco suave mas devastador. Ela sentiu a boca ficar seca e o coração acelerar violentamente. — Eu não deveria estar aqui — ela murmurou. — Eu sei — Luca respondeu, aproximando a testa da dela. — Mas também sei que não quero que vás embora. Mara estava dividida entre o impulso de fugir e a vontade de se perder nos braços dele. A pele de ambos parecia arder onde se tocavam. — Luca, eu… — ela começou, mas alguém bateu na porta, arrancando-os daquele instante suspenso. Luca se afastou imediatamente, recuperando sua postura impenetrável. — Entre — ordenou. Era Matteo. O rosto do amigo dizia tudo antes de abrir a boca. — Chefe… é grave. Muito grave. Recebemos informação confirmada. Os DeLuca querem raptar a Mara. Hoje. Agora. Mara sentiu o corpo congelar. Luca virou-se para ela tão rápido que ela quase recuou. — Vais ficar comigo. — A voz dele era definitiva, dura, sem espaço para discussão. — Matteo, prepara o carro. Vamos levá-la para a casa segura. — A casa segura? — Matteo ergueu as sobrancelhas. — A do Porto Velho? — Sim — Luca respondeu. Depois lançou a Matteo um olhar que não deixava margem para argumentação. — E ninguém além de nós dois fica sabendo. Matteo assentiu e saiu. Mara sentiu a garganta secar. — Eu não posso simplesmente desaparecer — ela protestou, a voz trêmula. — Tenho uma vida, Luca. Tenho um emprego, amigos… — Tens inimigos agora — ele a interrompeu. — E esses inimigos são meus. A vida que tinhas antes já não existe. Ele se aproximou, segurando seu rosto com ambas as mãos, forçando-a a encará-lo. — Quero que entendas isto: se algo te acontecer… eu destruo tudo. Eu destruo todos. — A voz dele quebrou, num tom quase imperceptível. — Inclusive a mim mesmo. O choque daquela intensidade fez Mara perder o fôlego. Ela sentiu o mundo girar, mas também sentiu algo novo surgindo dentro dela — algo quente, perigoso… inevitável. — Luca… o que é que somos? — ela perguntou, quase sem voz. Ele demorou alguns segundos antes de responder. — Somos o que não devia acontecer, mas aconteceu. — A mão dele deslizou para a nuca dela, segurando-a com delicadeza. — E agora eu mato ou morro por isso. As palavras dele incendiaram tudo dentro dela. Mas antes que pudesse responder, Matteo gritou do corredor: — Luca! Temos problema! Eles já estão aqui! O som de passos correndo ecoou pelo prédio. Luca agarrou a mão de Mara e puxou-a com força. — Fica atrás de mim — ele ordenou, sacando a arma escondida na cintura. O caos estourou no corredor. Gritos. Degraus corridos. Portas batendo. Mara sentiu o coração no estômago enquanto Luca a arrastava pela saída lateral. — Luca, estou com medo! — ela gritou, a voz falhando. — Eu sei, amor — ele respondeu, sem olhar para trás. — Mas enquanto eu respirar, ninguém vai te tocar. Amor. Ele tinha dito amor. Eles correram escada abaixo, com Matteo cobrindo a retaguarda. O barulho de tiros ecoou no edifício. Mara caiu, mas Luca a ergueu num só movimento e continuou avançando. Quando chegaram ao piso inferior, Matteo abriu a porta traseira do prédio. — O carro está logo ali! Mara viu o veículo preto estacionado a poucos metros. A rua estava deserta, mas a tensão no ar era palpável. — Corre, Mara! — Luca ordenou. Ela correu. Luca correu atrás dela. Matteo virou-se para cobrir a entrada. Mas antes que alcançassem o carro, uma caminhonete preta surgiu na esquina, rodando a toda velocidade. — Droga! — Matteo gritou. A caminhonete parou com um solavanco. Quatro homens saltaram dela, armados. Luca empurrou Mara para trás de um carro estacionado e se colocou na frente dela, como um escudo humano. — Fica abaixada! — ele rugiu. Ela obedecia porque o corpo simplesmente recusava fazer outra coisa. A troca de tiros começou — rápida, violenta, brutal. Mara tapou os ouvidos, tremendo, mas manteve os olhos fixos em Luca, que parecia lutar com a fúria de dez homens. Um dos atacantes avançou pelo lado esquerdo. Luca viu tarde demais. — MARA! — Matteo gritou. Ela se virou — e tudo pareceu acontecer em câmera lenta. O homem levantou a arma. O cano apontado diretamente para ela. Luca disparou. Matteo disparou. O corpo do atacante caiu no chão com um baque surdo. Mara soluçou, o coração fora de controle. Luca a puxou pelos ombros, segurando seu rosto com desespero. — Estás bem? — Ele respirava rápido, o olhar selvagem de preocupação. — Estás ferida?! — N-não… acho que não… — ela gaguejou. Ele a puxou para um abraço tão forte que a deixou sem ar. — Tu quase morreste — ele murmurou, a voz quebrada. — Isso nunca mais vai acontecer. Eu juro. Antes que ela pudesse responder, Matteo gritou: — Precisamos sair daqui AGORA! Luca agarrou a mão dela e correu. Eles alcançaram o carro, entraram, e Matteo arrancou a toda velocidade. Só quando estavam longe, muito longe, Mara percebeu que estava com lágrimas nos olhos — e que a mão de Luca, apertando a dela, tremia. Não de medo. De amor. De fúria. De promessa. E de tudo o que viria depois.
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