Senhor

760 Palavras
Ele levantou tão rápido que a cadeira arrastou no chão. Deu a volta na mesa, parou ao lado dela, uma mão na madeira, a outra na lateral da cadeira, prendendo-a ali sem encostar. — Eu te chamei porque eu quis — disse, baixo. — E nada aqui acontece se eu não quiser. Grava isso. Ela ergueu o rosto, engolindo o medo, deixando só a teimosia aparecer. — Então responde — insistiu. — Se eu sou só uma p**a interesseira, por que você se importa com o que eu cozinho? Ele sentiu o impulso de mandar ela calar a boca, de jogar na cara o contrato, o dinheiro, a arma que ela tinha visto. Ao invés disso, a mão subiu quase sozinha até o queixo dela. Segurou. O rosto de Celine era menor do que ele lembrava. Os olhos, mais grandes. E vivos demais. Ele odiou o fato de notar isso. — Não confunda as coisas — murmurou. — Você está aqui por um motivo, e não é pra ser chef de cozinha. É o seu corpo que me interessa. Ela sorriu de lado, um sorriso triste e curto. — Eu sei — respondeu. — Mas se eu vou ser usada, pelo menos que você não coma porcaria. Ele soltou o queixo dela como quem solta algo quente demais, deu um passo pra trás e apontou com a cabeça em direção à porta. — Volta pra cozinha. E continua cozinhando. Não estraga o que você sabe fazer certo. Celine se levantou, ajeitou o avental como se vestisse uma armadura e atravessou o escritório. Na porta, porém, parou, a mão já na maçaneta. — Você não é obrigado a ser igual ao seu pai — disse, sem olhar pra trás. — Pode ser pior. Ou pode ser melhor. Mas, no fim, é você que escolhe. Ele gelou. — Quem te falou do meu pai? — a pergunta saiu dura, instintiva. Ela virou o rosto, encarando-o por cima do ombro. — Ninguém. Dá pra ver na forma como você fala de mulher e de dinheiro. Abriu a porta e saiu, deixando a frase pendurada no ar como corda de forca. Adrian ficou um tempo a mais no escritório, fingindo revisar contratos enquanto os olhos escorriam pra tela desligada do notebook. No fundo, ouvia outro som tentando furar o bloqueio: um riso que não combinava com aquelas paredes. Quando se deu conta de que estava apenas sentado ali, irritado consigo mesmo por estar ouvindo o que acontecia no resto da casa, levantou. Precisava de café, ou de qualquer desculpa que o tirasse daquele cômodo. No corredor, o som ficou mais claro. A voz de Rosa, uma risada mais alta do que o normal, e por baixo dela, a risada de Celine, cristalina e leve, cortando o ar pesado como se aquele lugar nunca tivesse sido tão sério. Ele desacelerou os passos sem perceber e parou à entrada da cozinha. Rosa ria com a mão na barriga, Marco estava encostado no balcão com cara de quem fingia reprovar, mas se divertia, e no meio, de costas pra ele, Celine mexia uma panela, contando alguma história com gestos largos. — …aí ele olhou pro prato e perguntou se aquilo era mesmo comida — ela dizia, rindo. — Eu falei: “Não, senhor, é vingança.” Ele repetiu três vezes. A cozinha explodiu em gargalhada. O som bateu em Adrian como um tapa diferente dos que conhecia, um que não vinha de violência, mas de algo pior: uma vontade absurda de ouvir de novo. Marco foi o primeiro a vê-lo parado na porta. A risada morreu no rosto dele, que endireitou a postura na mesma hora. — Senhor — murmurou. Os outros seguiram o olhar. O riso sumiu como se alguém tivesse desligado um interruptor. Celine ainda tinha o sorriso no rosto, mas ele foi murchando conforme os olhos dela encontravam os dele. Ele entrou, deixando a presença encher o espaço. — Já é tarde — falou, sem elevar a voz, mas com a mesma autoridade que punha medo em homens armados. — Não pago vocês pra fazer sarau. Rosa abaixou o olhar, fingindo arrumar o que já estava arrumado. Marco pegou um pano qualquer só pra ter o que fazer. O clima leve se desfez num segundo. Adrian não tirou os olhos de Celine. — Você. Vem comigo. Ela tirou o avental devagar, sem discutir, e o deixou sobre o balcão. Passou por ele em silêncio, o cheiro de tempero e sabonete simples ficando no ar quando os dois atravessaram o corredor em direção às escadas.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR