Ele levantou tão rápido que a cadeira arrastou no chão. Deu a volta na mesa, parou ao lado dela, uma mão na madeira, a outra na lateral da cadeira, prendendo-a ali sem encostar.
— Eu te chamei porque eu quis — disse, baixo. — E nada aqui acontece se eu não quiser. Grava isso.
Ela ergueu o rosto, engolindo o medo, deixando só a teimosia aparecer.
— Então responde — insistiu. — Se eu sou só uma p**a interesseira, por que você se importa com o que eu cozinho?
Ele sentiu o impulso de mandar ela calar a boca, de jogar na cara o contrato, o dinheiro, a arma que ela tinha visto. Ao invés disso, a mão subiu quase sozinha até o queixo dela. Segurou.
O rosto de Celine era menor do que ele lembrava. Os olhos, mais grandes. E vivos demais.
Ele odiou o fato de notar isso.
— Não confunda as coisas — murmurou. — Você está aqui por um motivo, e não é pra ser chef de cozinha. É o seu corpo que me interessa.
Ela sorriu de lado, um sorriso triste e curto.
— Eu sei — respondeu. — Mas se eu vou ser usada, pelo menos que você não coma porcaria.
Ele soltou o queixo dela como quem solta algo quente demais, deu um passo pra trás e apontou com a cabeça em direção à porta.
— Volta pra cozinha. E continua cozinhando. Não estraga o que você sabe fazer certo.
Celine se levantou, ajeitou o avental como se vestisse uma armadura e atravessou o escritório. Na porta, porém, parou, a mão já na maçaneta.
— Você não é obrigado a ser igual ao seu pai — disse, sem olhar pra trás. — Pode ser pior. Ou pode ser melhor. Mas, no fim, é você que escolhe.
Ele gelou.
— Quem te falou do meu pai? — a pergunta saiu dura, instintiva.
Ela virou o rosto, encarando-o por cima do ombro.
— Ninguém. Dá pra ver na forma como você fala de mulher e de dinheiro.
Abriu a porta e saiu, deixando a frase pendurada no ar como corda de forca.
Adrian ficou um tempo a mais no escritório, fingindo revisar contratos enquanto os olhos escorriam pra tela desligada do notebook. No fundo, ouvia outro som tentando furar o bloqueio: um riso que não combinava com aquelas paredes.
Quando se deu conta de que estava apenas sentado ali, irritado consigo mesmo por estar ouvindo o que acontecia no resto da casa, levantou. Precisava de café, ou de qualquer desculpa que o tirasse daquele cômodo.
No corredor, o som ficou mais claro. A voz de Rosa, uma risada mais alta do que o normal, e por baixo dela, a risada de Celine, cristalina e leve, cortando o ar pesado como se aquele lugar nunca tivesse sido tão sério.
Ele desacelerou os passos sem perceber e parou à entrada da cozinha.
Rosa ria com a mão na barriga, Marco estava encostado no balcão com cara de quem fingia reprovar, mas se divertia, e no meio, de costas pra ele, Celine mexia uma panela, contando alguma história com gestos largos.
— …aí ele olhou pro prato e perguntou se aquilo era mesmo comida — ela dizia, rindo. — Eu falei: “Não, senhor, é vingança.” Ele repetiu três vezes.
A cozinha explodiu em gargalhada. O som bateu em Adrian como um tapa diferente dos que conhecia, um que não vinha de violência, mas de algo pior: uma vontade absurda de ouvir de novo.
Marco foi o primeiro a vê-lo parado na porta. A risada morreu no rosto dele, que endireitou a postura na mesma hora.
— Senhor — murmurou.
Os outros seguiram o olhar. O riso sumiu como se alguém tivesse desligado um interruptor. Celine ainda tinha o sorriso no rosto, mas ele foi murchando conforme os olhos dela encontravam os dele.
Ele entrou, deixando a presença encher o espaço.
— Já é tarde — falou, sem elevar a voz, mas com a mesma autoridade que punha medo em homens armados. — Não pago vocês pra fazer sarau.
Rosa abaixou o olhar, fingindo arrumar o que já estava arrumado. Marco pegou um pano qualquer só pra ter o que fazer. O clima leve se desfez num segundo.
Adrian não tirou os olhos de Celine.
— Você. Vem comigo.
Ela tirou o avental devagar, sem discutir, e o deixou sobre o balcão. Passou por ele em silêncio, o cheiro de tempero e sabonete simples ficando no ar quando os dois atravessaram o corredor em direção às escadas.