Celine acordou antes do despertador que não tinha. O corpo ainda doía em lugares que ela já começava a reconhecer como “Adrian”, mas o incômodo maior era outro: a lembrança dele olhando pra ela depois, como se nada tivesse acontecido, como se o que tinham feito fosse só mais um item de agenda.
Virou na cama, encarando o teto. Ficou assim por alguns minutos, ouvindo o silêncio da casa quebrado, lá longe, por algum barulho de louça na cozinha. Quando o nó na garganta ameaçou virar choro, ela levantou.
Não ia chorar por ele. Não de manhã. Não ainda.
Prendeu o cabelo num coque rápido, vestiu a primeira roupa simples que achou no armário e desceu. O cheiro de café fresco se misturava ao de alho fritando quando ela entrou na cozinha.
Rosa já estava de avental, mexendo em panelas.
— Bom dia — Celine falou, forçando um sorriso.
— Bom dia, menina — Rosa respondeu, com aquele jeito meio sério, meio carinhoso. — Dormiu?
Celine deu de ombros.
— Mais ou menos.
Foi até a pia, lavou as mãos, pegou uma tábua e uma faca sem pedir. Rosa não reclamou. Ali, já sabiam dividir espaço.
— O senhor Adrian pediu café da manhã diferente hoje — Rosa comentou, como quem fala do tempo. — Disse que era pra você preparar.
Celine parou com a mão no ar.
— Pra mim?
— Disse seu nome. — Rosa a encarou por um segundo. — Vai ser a primeira vez que ele come de manhã o que alguém faz nessa casa, além do meu café preto.
O coração dela fez um estrago no peito. Ela engoliu e virou de costas, indo buscar os ingredientes.
— Tá bom. Eu faço.
Enquanto cortava pão, ovos, cebola, tentando controlar o tremor das mãos, a mente rodava. Ele queria o quê, afinal? Ela na cama, na cozinha, em todos os cômodos? Ou era só mais um jogo de poder?
Quando terminou, arrumou a bandeja com os pratos, café, um pouco de fruta cortada. Ficou encarando por um instante.
— Vai, menina — Rosa falou, empurrando de leve seu ombro. — Antes que esfrie.
Celine respirou fundo, pegou a bandeja e subiu.
Cada degrau parecia mais alto que o anterior. Quando chegou na porta do escritório, bateu com o pé, porque as mãos estavam ocupadas.
— Entra — a voz dele veio de dentro, firme, sem paciência.
Ela empurrou a porta com o quadril e entrou. Adrian estava atrás da mesa, camisa branca, mangas dobradas, um copo de café pela metade ao lado do notebook. Ele ergueu os olhos para a bandeja, depois pra ela.
— Disse pra Rosa que você ia fazer — falou, sem preliminares. — Vamos ver se você presta melhor pra isso do que pra negociar sua própria vida.
Ela engoliu a vontade de revirar os olhos e colocou a bandeja sobre a mesa lateral.
— Não sou empregada — respondeu, baixo, mas audível.
— Não — ele concordou, seco. — Empregadas não custam tão caro.
Ela respirou fundo, segurando o impulso de tacar o café quente na cara dele.
— Quer que eu saia? — perguntou, ajeitando os talheres, mais pra ter o que fazer com as mãos do que por necessidade.
— Não — ele disse, e essa resposta veio rápido demais. — Senta.
Ela hesitou um segundo, mas puxou a cadeira em frente à mesa e se sentou, sem saber exatamente por que ainda obedecia tão automaticamente.
Ele serviu o próprio prato, experimentou a primeira garfada em silêncio. Mastigou devagar. Não fez careta.
— Melhor do que eu esperava — disse, por fim.
Celine ergueu uma sobrancelha.
— Obrigada, eu acho.
Ele bebeu um gole de café, sem tirar os olhos dela.
— Você cozinhava muito no restaurante? — perguntou, como se estivessem em uma entrevista de emprego e não em uma relação de contrato s****l.
A pergunta pegou ela desprevenida.
— Às vezes. — Pousou as mãos no colo, entrelaçando os dedos. — Era mais a minha mãe no fogão. Mas quando ela cansava, eu assumia. Ela dizia que eu tinha a mão certa pra tempero.
— E o lugar era dela? — Ele inclinou um pouco a cabeça. — O restaurante.
— Era… tudo o que a gente tinha — respondeu, e a voz já veio mais suave. — Meu pai morreu cedo. Ela juntou dinheiro por anos pra abrir aquele buraco com duas mesas e uma placa torta. Eu cresci ali. Fazendo lição de casa em cima do freezer, dormindo em cadeira encostada na parede quando ficava tarde demais.
Um meio sorriso fugiu dela, como se a lembrança doesse e confortasse ao mesmo tempo.