A Linha Tênue

785 Palavras
Quando Celine acordou, ele já não estava ali. Só o lado da cama ainda morno e o amassado no travesseiro diziam que Adrian tinha dormido ao lado dela mais do que estava disposto a admitir. Ela passou a mão devagar pelo lençol, como se pudesse guardar aquele traço de presença por mais alguns segundos, depois se obrigou a levantar. Se começasse o dia caçando sinal de afeto em dobra de lençol, ia enlouquecer. Prendeu o cabelo, vestiu uma roupa confortável e desceu. O som que vinha da cozinha era diferente do silêncio habitual: panela batendo, vozes, um riso curto de Rosa, que já era um milagre por si só. Quando entrou, encontrou a cena que, algumas semanas antes, jamais teria imaginado. Rosa estava de avental, suando sobre o fogão, mas com uma expressão concentrada curiosa, quase de aluna. Celine estava ao lado, mexendo uma panela menor, com uma colher de p*u na mão e os olhos brilhando de empolgação. — Não coloca tudo de uma vez — Celine dizia, gesticulando com a colher. — Primeiro deixa o alho dourar, depois entra com o tomate, depois o feijão. Senão vira sopa triste. — Eu cozinho isso há trinta anos, menina — Rosa resmungou, mas não afastou a panela. — Vai me ensinar agora? — A diferença é que o meu é melhor — Celine retrucou, rindo. — Minha mãe dizia que feijão sem carinho é castigo, não comida. Rosa bufou, mas havia um sorriso puxando o canto dos lábios. — Sua mãe devia ser uma encrenqueira. — Era. — Celine mexeu a panela, riu sozinha. — Por isso deu certo. Ela provou um pouco do caldo, fez uma cara pensativa. — Falta sal — murmurou. — E falta história. — História? — Rosa ergueu a sobrancelha. — Minha mãe falava que toda panela boa tem que ter uma história enquanto cozinha. — Celine deu de ombros. — Senão o gosto não pega. — Então conta, ué. — Rosa mexeu a panela maior, curiosa apesar de si mesma. — A gente tem cinco quilos de feijão pra ouvir. Celine pensou por um segundo, depois começou a falar, a voz se misturando ao cheiro de alho e cebola. — Teve um dia em que a gente não tinha nada em casa. Nada mesmo. Só um saco de feijão, meia cebola e um restinho de óleo. Eu devia ter uns doze anos. Minha mãe olhou pra panela, olhou pra mim e disse: “Hoje é banquete de rei”. — Ela imitava o tom divertido da mãe. — Eu acreditei. Passei a manhã inteira arrumando as duas mesas do restaurante como se fossem mesa de castelo. Rosa ria, balançando a cabeça. — E tinha rei pra comer? — Tinha é vizinho com fome — ela respondeu. — Mas a gente comia rindo. E minha mãe dizia que, enquanto tivesse panela e coragem, não tinha miséria que vencesse. Rosa ficou um pouco em silêncio, mexendo o feijão, talvez colocando essa história na própria receita. — Sua mãe devia ser boa gente — murmurou. — Era o melhor tipo de gente — Celine disse, sem drama, só certeza. Não perceberam que havia alguém parado na porta. Adrian encostou no batente, sem fazer barulho, assistindo. Não sabia ao certo quanto tempo estava ali, mas longa o bastante pra ouvir a palavra “banquete de rei” e sentir algo apertar por dentro de um jeito quase infantil. Viu Rosa rindo, viu Celine gesticulando com a colher, viu o jeito como a cozinha, antes um lugar só funcional, parecia agora um pedaço de casa. E odiou o fato de que, por um segundo, aquilo pareceu… certo. Marco surgiu ao lado dele do nada, como sempre. — Senhor — cumprimentou, em voz baixa. Adrian deu um meio passo pra fora da visão delas, como se não quisesse ser pego assistindo aquela cena. — O carro está pronto. — Marco continuou. — E o doutor Henrique está na biblioteca, como o senhor pediu. Adrian assentiu, mas ainda olhou mais uma vez para dentro da cozinha. Celine ria de alguma besteira de Rosa, que fingia impaciência. — Manda servirem esse feijão no almoço — falou, seco. — O dela. Marco seguiu o olhar do patrão até as duas mulheres. Não comentou nada, mas reparou na suavidade quase imperceptível na voz de Adrian quando disse “o dela”. — Sim, senhor. Henrique já o esperava na biblioteca, mexendo no celular, terno alinhado demais para um advogado que sabia tanto de negócios limpos quanto de sujos. Levantou assim que Adrian entrou. — Moretti. — Estendeu a mão. — Você sumiu. — Gente ocupada não some, trabalha — Adrian respondeu, apertando a mão dele. — Senta.
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