A porta de vidro do “Sabor da Vila”, um restaurante chique onde o silêncio era tão caro quanto o vinho, abriu-se com uma violência que fez os talheres tilintarem. Uma mulher baixa e gorda irrompeu como um furacão, a expressão severa rasgando o ambiente. Não eram as roupas gastas e o chinelo de dedo que denunciavam que aquele ali não era seu lugar, e sim a falta de educação.
“Celine! Sua vagabunda! Eu te avisei! Se não me pagasse até hoje, eu viria pessoalmente pegar meu dinheiro!”
Os clientes, abismados, entreolhavam-se, sussurrando, perguntando-se quem seria a tal “pobre Celine”.
Na cozinha, o cheiro de alho dourando na manteiga parou de ser um bálsamo. Celine, jovem, simples e bonita, que até então movia as mãos com a precisão de uma artista, congelou. O rosto dela foi tomado por puro horror. Isso deve ser um pesadelo, pensou, o coração batendo descompassado. Não pode estar acontecendo.
A assistente de cozinha ao seu lado a cutucou, a voz baixa e urgente:
“Celine, corre! Não deixe isso ficar pior!”
Celine largou a panela fumegante e correu para o salão. Um sorriso forçado, uma calma que não sentia, enquanto tentava em vão convencer a mulher, sua senhoria, a ir com ela para fora. “Dona Odete, por favor, podemos conversar lá fora…”
Mas a mulher era um vulcão. “Conversar o quê, sua ingrata? Não vai dormir de graça em um dos meus quartos! Ou paga, ou sai!”
Na tentativa desesperada de levá-la para a calçada, Celine esbarrou na senhoria. Dona Odete, desequilibrada, caiu com um baque seco. O caos explodiu.
“Violência! Ela me agrediu! Socorro!”
A gerente do restaurante, uma mulher impecável, surgiu como um raio. Sem hesitar, enfiou uma nota de cem dólares na mão de Dona Odete. “Por favor, senhora. Pelo transtorno.”
Os clientes, de boca aberta, assistiam a tudo como a um drama mexicano. Dona Odete, com o dinheiro na mão, levantou-se, o olhar de ódio fixo em Celine. “Pode ficar com seu dinheiro sujo! Mas se voltar à pensão, meus filhos vão te espancar! E suas coisas? Ficam como compensação pela agressão!” E, com um último olhar fulminante, foi embora.
Celine suspirou, um alívio momentâneo que durou menos que um piscar de olhos.
“Celine, pegue suas coisas.” A voz da gerente era fria, profissional, sem um pingo de emoção. “Você está demitida. Vou ligar para o RH e pedir que acertem com você seus direitos trabalhistas e um bônus pelo bom serviço prestado.” Sem dizer mais nada, a gerente virou as costas e saiu.
Ali, no meio do salão ainda em choque, Celine viu seu sonho de ser subchefe, de salvar a mãe, de ter um futuro, desvanecer-se em fumaça.
A vergonha era um nó na garganta de Celine. Ela virou as costas para o salão, os ombros tensos, e voltou para a cozinha. O silêncio ali era pesado, carregado de olhares de pena que a seguiam. Ela forçou um sorriso, um músculo dolorido no rosto, e seguiu para os fundos, para o seu armário minúsculo. Abriu a porta. Vazio. Suas poucas roupas, seus objetos de pouco valor – tudo sumira. Dona Odete havia cumprido a ameaça.
Uma lágrima solitária escorreu, quente, pelo rosto. Não podia voltar à pensão. A imagem dos filhos de Dona Odete, brutamontes com punhos pesados, fez seu estômago revirar. Não valia a pena ser espancada por umas trocas de roupas.
O pagamento, pensou, uma âncora frágil na tempestade. Teria como pagar um mês de tratamento da mãe. E talvez uma espelunca para dormir até começar tudo de novo. A mãe. A promessa. "Vou vencer, mãe. Vou mostrar a todos a cozinheira que sou. Vou ganhar o suficiente para o seu tratamento." As palavras ecoaram, um juramento feito na pequena cidade do interior, agora um fardo pesado na cidade grande.
Um barulho. Patrícia, a subchefe, surgiu ao lado dela. O sorriso habitual de Patrícia parecia um pouco mais largo, um pouco mais falso.
“Celine, você não pode ficar aqui”, Patrícia disse, a voz suave demais. “O pessoal do RH já está com tudo pronto. Pode passar lá se é que tem algo para receber.”
Celine, ingênua, agarrou-se à migalha de esperança. “Graças a Deus! Eu tenho sim! A gerente disse que vai me dar um bônus.”
O olhar de Patrícia mudou. Um brilho calculista acendeu-se nos olhos dela. “É uma pena. Você é realmente uma ótima cozinheira.” A frase, um elogio inédito, fez o coração de Celine inflar. Patrícia a abraçou, um aperto rápido, quase mecânico. “Eu ia fazer essa proposta para Gerardine, pois ela tem o que é necessário, mas você cozinha muito melhor que ela.”
“Proposta?” Celine perguntou, a curiosidade vencendo o desespero.