Ponto de vista do narrador
Quando a última aula terminou, Natália juntou seus materiais com pressa, como se fugir antes que algo a alcançasse pudesse impedir que seus pensamentos se fragmentassem ainda mais. Mas o coração estava inquieto demais para obedecer.
O campus à noite tinha um brilho diferente: os postes antigos lançavam luz amarelada, criando sombras longas pelo chão. Grupos de estudantes conversavam animados, planejando festas, rindo alto. Outros corriam para os ônibus como se competissem com o relógio.
Natália estava no segundo grupo.
— Natália!
Ela se virou apesar de não querer. O nome dito na voz dele sempre carregava uma força estranha, como se puxasse algo dentro dela.
Carlos corria até ela, o sorriso suave iluminado pela luz dos postes.
— Por que saiu tão rápido? — perguntou, ainda recuperando o fôlego.
Natália deu de ombros.
— Estava cansada. — Era verdade, mas também era uma armadura.
Carlos franziu o cenho, duvidoso.
— Posso te acompanhar até o ponto? Tá tarde.
Ela hesitou. Queria dizer não. Seria mais seguro, mais lógico, mais prudente.
Mas a imagem de Bia — aquele sorriso venenoso, aquela certeza arrogante, aquela beleza impecável — despertou algo em Natália que ela mesma não reconheceu. Algo ferido. Algo orgulhoso.
— Pode — respondeu. — Obrigada.
Caminharam em silêncio por alguns instantes. Ele chutava pedrinhas no caminho, como quem organizava pensamentos.
— Eu não quero que pense que menti pra você — disse de repente, e tomou a mão dela com cuidado.
Natália olhou para as mãos unidas, depois para ele. Não puxou a sua de volta.
— Eu não acho que você mentiu — admitiu. — Mas eu não gostei da posição em que me encontrei.
— Eu não posso controlar o que os outros fazem — Carlos disse, com sinceridade pesada na voz. — Mas peço que confie em mim. Eu estou completamente apaixonado por você.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Eu também não posso controlar certas coisas… mas posso me manter longe. Bem longe.
— Você faria isso? Mesmo que significasse ficar longe de mim? — Ele a encarou com expectativa real.
— Talvez… — respondeu, e até ela ouviu a dúvida na própria voz.
O ônibus se aproximou, o motor vibrando pela calçada. Era o dela.
— Acho que é o meu — murmurou.
— Eu te vejo amanhã? — perguntou ele, com medo de que ela realmente mantivesse distância.
Natália sorriu de leve, arqueando a sobrancelha.
— Bom… agora vamos nos ver bem mais. Afinal, eu vou trabalhar na sua casa.
Subiu no ônibus sorrindo, balançando a cabeça de forma divertida — mas sem olhar para trás.
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A noite caiu como um cobertor pesado sobre a cidade. Natália ainda sentia, na pele, o eco da cena na faculdade, a voz de Beatriz acusando traição.
Chegou em casa exausta. Jantou pouco, respondeu mecanicamente às perguntas do pai e dos irmãos e se trancou no quarto falando que precisava estudar. Mas não estudou. Ficou encarando o teto, ouvindo o coração bater onde não devia — na lembrança deles.
Então o celular vibrou.
Mensagem de Carlos Eduardo:
“Chegou bem?”
Natália piscou, surpresa com o impacto que duas palavras tão simples causaram.
Largou o celular na cama como se estivesse quente demais para segurar. Não respondeu. Não ainda.
Precisava desligar a mente. Respirar. Resetar.
Depois de alguns minutos, decidiu caminhar até a padaria da esquina. Ar fresco. Movimento. Pessoas que não faziam perguntas. Era tudo o que ela precisava.
A rua estava silenciosa. As vitrines já se preparando para fechar. O vento carregava cheiro de chuva. Natália caminhava com as mãos nos bolsos do casaco, perdida em pensamentos, quando ouviu alguém chamá-la:
— Natália?
Ela virou, surpresa.
Carlos Alberto estava do outro lado da rua, saindo de um enorme carro prẹto. Vestia um terno elegante grafite, camisa cinza clara sem gravata. O sorriso era meio culpado.
O coração dela deu um salto ridículo.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntou, incrédula e nervosa.
— Eu passo aqui às vezes pra comprar o cupcake da Moranguinho pra minha filha. — Ele coçou a nuca, tentando parecer casual.
Natália soltou um riso curto, tenso.
— Carlos… você mora do outro lado da cidade. Nem vem com essa de cupcake.
Ele ergueu as mãos, rendido.
— Certo! Eu vi seu endereço no currículo e… achei uma coincidência incrível. Resolvi passar aqui. Sabe como é… unir o útil ao agradável.
Não era toda a verdade — ela sabia. O cupcake realmente existia, mas ele nunca apareceria ali naquele horário por causa disso.
E mesmo assim… algo dentro dela se aqueceu perigosamente.
— Entendo — murmurou. — Eu também estava indo à padaria.
Ela voltou a andar. Ele caminhou ao lado dela e, ao chegarem, abriu a porta com a gentileza impecável que parecia natural para ele.
Quando Natália passou, Carlos Alberto inclinou-se levemente — o suficiente para aspirar o perfume dela, quase tocando seu pescoço.
O gesto a desestabilizou completamente.
E ele notou.
E, por um segundo, sorriu — como se tivesse encontrado exatamente o que procurava.
Natália se aproximou do balcão da padaria iluminada por luzes quentes e cheiro de pão recém-saído do forno. Já era noite, quase onze horas, e ela só queria uns pães para o café da manhã e aquela rosca de chocolate que sempre a salvava nos dias difíceis. Não esperava encontrar Carlos Alberto ali, muito menos tão perto.
Ele estava ao lado dela, ocupando o espaço com uma presença que parecia sugar o ar. O cotovelo dele encostava de leve no dela — de propósito, ela sabia. Quando ela virou o rosto, ele sustentou o olhar com aquele sorriso discreto e perigoso.
Ela pegou os pães, a rosca, tentou manter a calma. Ele não disse nada, apenas acompanhava cada gesto dela com os olhos.
No caixa, antes que ela pudesse abrir a bolsa, ele já estava atrás, com um pacotinho de cupcakes na mão como mera desculpa. Num movimento rápido e natural, juntou as compras dela às dele e passou o cartão.
— Não precisava… — murmurou ela, sentindo o rosto esquentar.
— Eu quis — respondeu ele, baixo, a voz rouca de quem não estava falando só dos pães.
Do lado de fora, a noite estava fresca. A rua quase vazia, luzes dos postes refletindo no asfalto úmido. Ele abriu a porta do passageiro do carro prẹto e fez sinal para ela entrar. Natália hesitou um segundo, o coração disparado. A mão grande dele pousou suavemente na curva das costas dela, guiando-a para dentro com uma pressão sutil, mas impossível de ignorar.
A porta fechou. O silêncio do carro engoliu o mundo.
No instante seguinte, ele a puxou com força. O beijo veio sem aviso, sem delicadeza dessa vez — profundo, urgente, cheio de fome acumulada. A boca dele tomou a dela com vontade, a língua invadindo, dominando. Uma mão subiu direto para o sẹio, apertando com firmeza por cima da blusa fina. A outra desceu, agarrou a buṅda dela com força, erguendo-a quase do banco, puxando-a para o colo como se ela pertencesse ali.
Natália perdeu o chão. As mãos grandes dele pareciam estar em todos os lugares ao mesmo tempo: no pescoço, na nuca, nos sẹios, nas coxas. Ela se agarrou aos ombros largos, aos cabelos crespos dele, o corpo inteiro se rendendo àquela onda de calor que não era mais desejo — era desespero.
Entre um beijo e outro, a voz grave dele cortou o ar abafado do carro:
— Motel Le Rêve.
O motorista, sem virar o rosto, assentiu. O vidro de separação subiu lentamente, isolando-os por completo.
O trajeto foi uma sequência febril de beijos molhados, amassos, roupas sendo puxadas, respirações pesadas. Mãos que já não sabiam mais o limite. Olhares que diziam, sem palavras, que aquela noite estava apenas começando.