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3106 Palavras
DULCE Não dormi bem à noite, então o meu humor matinal não estava dos melhores. Se tem uma coisa que me deixava p**a era não conseguir dormir direito. Eu estava preocupada com a descoberta recente de que eu teria um prazo de cem dias para fazer Christopher encontrar o amor da sua vida, sendo eu ou qualquer outra. Pensar sobre isso me fez perder o sono e iria me desconcentrar pelo resto do dia, o que era péssimo para mim que já era avoada de natureza. Cheguei à empresa antes do meu chefe, como era o esperado, e depois de deixar sua sala como ele queria, eu fiquei em minha mesa e passei os primeiros minutos tentando usar o meu novo celular, descobrindo como ele funcionava. Parecia coisa demais para a minha cabeça e estava me deixando ainda mais irritada, então eu simplesmente bloqueei a tela e larguei o aparelho sobre a mesa.  — Que se f**a. — bufei.  — Saviñon. — a voz grave e inconfundível de Christopher me fez ficar em alerta.  — O-oi. — me ajeitei na cadeira e sorri nervosa.  Eu ia dar bom dia, mas depois de olhar para ele e notar sua cara de poucos amigos eu lembrei do conselho de Anahi sobre não usar aquele cumprimento.  Christopher caminhou até mim e parou em pé do outro lado da mesa.  — Não quero ver ou falar com ninguém até as dez da manhã. Não importa se é o presidente ou o papa, anote o recado ou diga para me procurarem mais tarde.  — Sim, senhor.  — Doutor. — cerrou os dentes, irritado.  — Doutor. — repeti, tentando conter o meu espírito debochado. — O doutor deseja mais alguma coisa? Um café ou talvez um cupcake bem doce? — sorri inocentemente, tentando provocá-lo.  Os lábios dele tremeluziram por uma fração de segundos e eu até pensei que ele iria abrir um sorriso de canto, mas seu rosto se manteve neutro.  — Café.  — Com um creminho pra deixar mais leve? Talvez algumas colheres de açúcar? — se Anahi me visse agora diria que eu estava doida para perder o emprego.  — Puro. Sem açúcar. — pressionou o maxilar, mostrando que eu estava esgotando sua paciência. — Eu sempre bebo o meu café assim, então acho melhor que não se esqueça porque será a última vez que eu explicarei como gosto do meu café. — após esse sermão rude, ele deu as costas e caminhou em direção à porta de sua sala.  Aproveitei para dar uma boa analisada em como ele ficava bonito até de costas. Ele com certeza malhava pesado, pois não era qualquer um que ficava tão gostoso em tantos ângulos. Depois que o meu chefe saiu do meu campo de visão eu fui pegar o seu café. No dia anterior, eu pedi para alguém da cantina mexer na cafeteira para mim, mas naquela manhã o lugar estava vazio. Ótimo, eu vou ter que lidar com a tecnologia do século XXI sem ninguém para me ensinar a fazer isso.  Como estava fazendo com qualquer coisa nova, eu vi alguns vídeos no YouTube, mas não adiantou de muita coisa, eu ainda não entendia como aqueles botões poderiam me dar um café exatamente como eu queria.  — Não deve ser tão diferente do bebedouro. — falei para mim mesma.  Peguei uma cápsula de expresso e depois de muito tentar, eu a encaixei na parte de cima. Posicionei a xícara e apertei um dos botões, mas nada aconteceu. Então eu apertei outro, depois outro, mais outro e por fim eu estava apertando vários de uma vez. Péssima ideia, porque o café quente jorrou em mim, molhando a minha blusa.  — p**a que pariu! Mas que c*****o! — berrei furiosa, vendo a minha blusa social branquinha ficar transparente e manchada. Pelo menos meu sutiã era bonito.  Só então eu notei um outro botão que ficava atrás da máquina. Eu tinha que aperta-lo primeiro antes de acionar o botão do café. Mais uma cápsula e eu finalmente tinha a xícara cheia.  Retornei para a sala da presidência pisando firme, ainda mais p**a e com mais vontade de mandar alguém ir fazer coisas sexuais consigo mesmo – leia-se "se f***r" na linguagem politicamente correta da Blanca. Eu estava torcendo pra que Christopher não olhasse para mim e não dissesse nada quando eu entrasse, pois eu não estava com cabeça para ter papas na língua.  — Aqui está o seu café, doutor Uckermann. — falei ao entrar na sala. Diferente do que eu pensei que ele faria, Christopher ergueu o olhar para mim. Talvez Anahi não estivesse tão certa ao dizer que ele não olhava nos olhos das pessoas quando chegava pela manhã. Nos meus ele olhava o tempo todo. Deixei o café sobre sua mesa e seu olhar caiu para os meus s***s quando eu me curvei. Meu rosto esquentou no mesmo instante e eu tive vontade de sair correndo, morrendo de vergonha por estar toda suja de café e mostrando o sutiã preto de renda sexy demais para um dia de trabalho.  — Saviñon. — ele me chamou antes que eu alcançasse a porta.  — Sim? — girei em meus calcanhares para olhá-lo.  — Toda vez que eu for te pedir alguma coisa você vai voltar suja? — ele intercalava o olhar do meu rosto para os meus s***s e usou o hábito de passar a língua entre os lábios quando seus olhos estavam embaixo. Aquilo foi uma pontada de desejo ou eu estava me iludindo demais?  — Eu não sei usar a cafeteira direito. Não lido bem com a tecnologia. — eu não lidava bem com a tecnologia dos anos 1970, que dirá a tecnologia atual.  Sua testa franziu em uma expressão curiosa. — Você vivia no meio do mato lá no Nebraska?  Respirei fundo e pressionei meus dentes para não abrir a minha boca e dizer algo comprometedor. Forcei um sorriso claramente falso e coloquei a mão sobre a maçaneta da porta.  — Vou deixar o senhor, desculpe, doutor trabalhar agora.  Ele sorriu, mas foi um sorriso cínico e bem m*****o, mas... p***a, que sexy! Saí de lá antes que os suspiros involuntários começassem.  Atendi algumas ligações e passei as próximas horas anotando recados. Já que meu trabalho como secretária não havia começado definitivamente, o dia seria mais fácil, contanto que Christopher continuasse a não me pedir nada.  — Presidência Uckermann, bom dia. — falei ao atender a mais uma chamada.  — Oi, aqui é Victor Uckermann, eu gostaria de falar com o meu filho.  Meu sorriso se abriu no mesmo momento. Eu adoraria fazer várias perguntas sobre sua vida, mas sabia que aquilo seria indevido naquele momento, ainda mais estando na empresa.  — Desculpe, senhor Uckermann, o seu filho não quer falar com ninguém antes das dez da manhã. — mantive o profissionalismo.  — Típico. — riu. — São nove e cinquenta e oito. — Victor não me corrigiu por eu tê-lo chamado de "senhor" ao invés de "doutor", mesmo ele também tendo um PHD. Aquilo era curioso.  — Ele chegou de m*l humor hoje. — expliquei.  — Ele está sempre de m*l humor. — falou de forma divertida. Victor parecia ter uma energia muito diferente. — Você é a nova assistente e secretária, certo?  — Sim. Eu me chamo Dulce.  — Muito prazer, Dulce. Antes de mais nada, quero me desculpar pelas coisas que o Christopher já fez e também pelas que ele vai fazer pra tornar a sua vida mais difícil.  — Imagina, está tudo muito bem. — falei sorrindo.  — Não precisa ser modesta, eu não conto pra ele se você disser que ele é um pé no saco. — sussurrou como se fosse um segredo.  — Se ele se tornar um pé no saco, o senhor será o primeiro a saber. — ri.  — Victor. Pode me chamar de Victor.  — Ok, Victor. Bom, acho que já são dez horas, vou passar a ligação.  — Obrigado, Dulce, tenha um bom dia.  — Igualmente. — interfonei para a sala de Christopher e ele atendeu no primeiro toque.  — Eu não disse para não me incomodar antes das dez? — a discrepância em seu tom de voz comparado ao de seu pai era impressionante.  Rolei meus olhos em resposta, aproveitando que ele não podia me ver.  — São dez em ponto.  — Precisava ser tão pontual?  — Só estou cumprindo ordens, doutor Uckermann. Seu pai está na linha, vou passar agora, ok? — não esperei resposta e apenas passei a ligação, colocando meu telefone de volta no gancho depois.  Alguns minutos depois e ele me chamou em sua sala. Agora ele iria me advertir por seguir uma ordem à risca? Só me faltava essa! Entrei em sua sala já com os argumentos na ponta da língua e parei em pé na frente de sua mesa. O safado ainda não conseguia ignorar a minha blusa molhada e nem se preocupava em disfarçar. Mesmo achando aquilo divertido, não era assim que eu pensava em conquista-lo. Meu corpo poderia despertar interesse em seu p*u, mas isso qualquer mulher bonita fazia.  Cruzei meus braços, escondendo o meu corpo e mantive o semblante sério para que ele achasse que eu estava desconfortável. Christopher pigarreou e parou de me encarar.  — Você vai almoçar com a minha avó no L'amour Parisien hoje.  — O que? Eu? Por que? — fiquei nervosa.  Com qual das avós?  — Ela está se sentindo solitária ultimamente, coisa de gente idosa, não importa. — deu de ombros.  — E não seria mais correto que ela almoçasse com o neto ao invés de almoçar com a assistente dele? — o que eu estava dizendo era óbvio, mas eu também queria fugir desse almoço.  — Diferente do que você pensa, Saviñon, a minha vózinha não se importa se vai almoçar comigo ou com uma desconhecida, ela só quer alguém que concorde com tudo o que ela diz durante uma conversa.  — Ainda assim... — fui interrompida.  — Pare de contestar! — aumentou o tom de voz. — Você faz o que eu quero e quando eu quero, ok!?  — Ok. — assenti devagar, prestes a ter um ataque e explodir de raiva. Eu detestava quando gritavam comigo.  — O nome dela é Amelia.  Assenti novamente. Ok, eu iria ver a Lia de novo, mas tudo bem. Se eu consegui ir morar com a minha irmã mais nova e falar ao telefone com o Victor, eu conseguiria almoçar com a Lia sem ficar toda emotiva.  — Espero que ela fale m*l do senhor. — usei o termo "senhor" propositalmente. — Eu vou adorar concordar com ela. — sorri sarcasticamente.  Christopher cerrou os olhos para mim, voltando a me encarar. Ele não estava acreditando que eu falei daquela forma, mas ao mesmo tempo não foi capaz de reclamar sobre isso. Era surpresa pela minha audácia ou ele havia gostado? De uma forma ou de outra, eu estava me destacando.  — Passe em casa antes de ir ao restaurante e troque de roupa. Não vai querer ir a um lugar chique mostrando demais. — e lá estava seu sorriso cínico outra vez. [•••] Minhas mãos estavam suando quando eu cheguei ao restaurante. Era estranho eu estar ainda mais nervosa por revê-la do que estive em rever a Blanca. Talvez seja porque eu ainda tinha uma questão moral m*l resolvida em relação à Lia. Ignorei por anos o pensamento de que eu fui um parasita em sua vida, mas cá estava esse sentimento de novo. Como antes, eu me enfiava na família Uckermann sem ter sido devidamente convidada, esperando tirar uma casquinha de um deles. Mesmo me sentindo culpada, essa não era a hora de contestar a moralidade daquilo, porque eu só tinha cem dias para não cair no esquecimento do limbo.  Depois de dar o meu nome na recepção, me avisaram em que mesa a Lia estaria me esperando. Entrei no lugar e olhei diretamente para a mesa indicada. Era ela, com toda certeza era ela. Lia tinha os cabelos parcialmente grisalhos, usava roupas chiques e joias aparentemente caras. Sua postura era de uma mulher de pulso firme e elegante ao extremo, dessas que vai te olhar de cima a baixo com desdém se você usar um modelito errado em determinado ambiente.  Ela estava olhando o cardápio e não me notou até que eu chegasse perto o suficiente, sendo barrada por um homem enorme vestindo um terno preto e usando um fone em um dos ouvidos. Ele parecia ser um guarda-costas.  — Identifique-se, por favor. — ele pediu.  — Eu sou a Dulce, a assistente do doutor Uckermann. — expliquei.  — Está tudo bem, Ramiro. — Lia disse com uma voz de tédio, ainda sem tirar seus olhos do cardápio. — Sente-se, querida. — indicou a cadeira da frente.  O guarda-costas deixou que eu passasse e eu me acomodei na cadeira, mantendo uma postura ereta e dizendo mentalmente a mim mesma para não falar alguma besteira.  — Dá para acreditar? Christopher não tem tempo para sair comigo, mas coloca um guarda-costas grudado em mim toda vez que eu saio de casa. Ele acha que eu vou ser sequestrada? Eu acabaria com qualquer valentão. — riu, finalmente abaixando o cardápio e olhando para mim.  — Eu tenho certeza que ele só está tentando cuidar da senhora. — sorri.  Ela estreitou os olhos e ajeitou seus óculos para me olhar direito. E ela não estava me olhando com desdém, era como se me reconhecesse. Eu já estava prevendo que ela me perguntasse se já nos conhecíamos.  — Você é a cara da Dulce. — foi direto ao ponto, erguendo as sobrancelhas em surpresa. — Não é só parecida, é idêntica.  — A Blanca disse o mesmo. Parece que eu sou uma sósia da irmã dela. — continuei sorrindo para fingir naturalidade.  — Você conhece a Blanca?  — Eu aluguei um quarto na casa dela. — expliquei.  — Ok... — sorriu de canto, ainda me olhando com curiosidade. — É estranho porque seu nome também é Dulce, certo? Dulce Saviñon. — agora ela parecia desconfiada.  — Sim, senhora.  — Não me chame de senhora, não sou tão velha. — brincou. — Você está com os cartões do Christopher aí, não está?  — Sim, mas são só para quando ele precisa que eu faça alguma coisa.  — Bom, hoje ele precisou que você saísse comigo no lugar dele, então prepare-se para comer a coisa mais cara que já viu na vida. — ergueu a mão, chamando um dos garçons.  Apesar das roupas mais finas e a postura claramente mais sofisticada, Lia ainda parecia ter a mesma personalidade descontraída e eu fiquei confortável em segundos, esquecendo de todas as coisas que estavam martelando em minha cabeça. Nós fizemos nossos pedidos e conversamos o tempo todo. Ela fez várias perguntas sobre mim, indo totalmente ao contrário da imagem que Christopher disse que ela teria. Me saí bem mentindo sobre a minha vivência no Nebraska e fui tão convincente que até mesmo eu estava começando a acreditar. Também fiz perguntas, algo que eu estava me coçando para fazer. Lia contou sobre sua vida com Nathan, os lugares que conheceram juntos, coisas malucas que viveram e também me deu algumas dicas em relação ao Christopher.  — Não deixe ele te fazer de capacho, mantenha-se firme. Ele não sabe lidar com pessoas teimosas, fica todo irritadinho quando alguém não faz o que ele quer. Eu culpo a mãe dele, o mimou demais. Eu o colocava nas rédeas quando ele tentava espernear para conseguir as coisas. Eu não nasci rica, criei meu filho para dar valor a cada centavo que tem e lutei para que meu neto fizesse o mesmo.  — Ele adora o trabalho, é muito profissional e se enfia de cabeça em tudo, então eu acho que você fez um ótimo trabalho, Lia. Quer dizer... A-Amelia. Me desculpe. — engoli em seco. Agora bastava eu me sentir confortável e já errava os nomes das pessoas! E claro, o champanhe não estava colaborando para que eu mantivesse as estribeiras.  Lia sorriu para mim como se tivesse acabado de conseguir alguma coisa, depois chamou o garçom e pediu duas cervejas, sem copos, apenas as garrafas. Fiquei surpresa com o pedido, pois não imaginei que uma mulher tão fina bebesse cerveja.  O garçom voltou com duas garrafas e depois se retirou.  — Ele esqueceu o abridor. — comentei.  — Alguma coisa me diz que você não precisa de abridor. — sorriu divertida.  O que ela estava tentando fazer?  Eu olhei para a tampinha e me dando por vencida, levei o gargalo até a minha boca e abri a cerveja usando os dentes. Agora alguma coisa estava brilhando nos olhos de Lia.  — Uma coisa que você não sabe sobre o século XXI... — colocou a mão sobre o gargalho e abriu a cerveja apenas girando a tampa. — Agora as cervejas são de rosca. — piscou.  — Ah... eu... sabia disso. — ri nervosa, sentindo minhas bochechas corarem. — É que faz muito tempo que eu não bebo cerveja, então... — fui parando de falar ao notar que ela me olhava com desdém.  Nós bebemos as cervejas em silêncio e depois de ela insistir que eu pagasse a conta com um dos cartões de Christopher, saímos do restaurante sendo seguidas pelo guarda-costas. Quando o motorista dela parou o carro, eu vi que era a hora de me despedir.  — O almoço foi ótimo, eu adorei acompanhar a senho... você. — sorri. — Tenha uma boa tarde.  Ela ficou em silêncio apenas me encarando, até chegar perto de mim como se fosse me contar algum segredo.  — Eu vivi tempo o suficiente para acreditar em muitas coisas. E eu não sei por que você está aqui ou como você está aqui, mas estou feliz por te ver de novo, Dul.  Foi impossível evitar que meus olhos lacrimejassem. Eu tentei pensar em alguma coisa que desviasse o assunto porque eu não deveria revelar minha identidade para ninguém, mas eu não consegui. A única coisa que eu fiz foi soltar um soluço seguido de lágrimas grossas e pesadas.  — Como você... como... — gaguejei.  — A gente conversa depois. — segurou meu rosto e limpou minhas lágrimas com os polegares. — Me dá um abraço, v***a. — sorriu.  Eu ri e a envolvi em meus braços bem forte, chorando um pouco em seu ombro. Mesmo sabendo que eu não deveria deixar isso acontecer, eu fiquei feliz de poder ser eu mesma com a Lia.  Quando voltei para o trabalho eu estava com o coração mais aquecido e levemente mais calmo do que quando acordei naquela manhã.
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