DULCE
Ele caminhava de um lado para o outro enquanto falava como se estivesse me dando uma palestra. Eu confesso que me distraí e não dei a mínima atenção ao que ele dizia. Como me concentrar com aquele homem lindo na minha frente? Era fato que ele era idêntico ao Nathan e isso me fez sentir coisas desabrochando em meu peito, coisas que eu não sentia há décadas.
Eu estava levemente boquiaberta enquanto reparava no modo como seus lábios se moviam e nas vezes em que ele passou a língua entre eles nas pausas de suas frases. Também soltei alguns suspiros e o olhei de cima a baixo. Caramba, o homem sabia como se vestir e o perfume dele impregnava o ambiente. Anjos não costumavam ter essas reações, mas agora que voltei a ser humana deduzi que a pressão nas minhas partes baixas era t***o.
Ele parou em pé ao lado de sua cadeira e ajeitou a única mecha rebelde em sua testa, a afastando para se unir ao resto do cabelo bem penteado.
Outro suspiro involuntário.
— Senhorita Saviñon!? — chamou o meu nome de forma impaciente, o que me fez despertar do meu transe.
— Ah... o que? — pisquei, voltando à realidade.
— Perguntei se você aceita. — franziu a testa.
— Eu tenho algumas dúvidas.
— Quais?
— O que o senhor quer que eu aceite? — perguntei sem jeito.
Christopher respirou fundo e esfregou a própria testa. Ele iria ter que se acostumar a ficar irritado comigo muitas vezes por dia.
— Você é sempre avoada desse jeito? — foi grosso. — Se for, eu nem vou perder o meu tempo repetindo alguma coisa.
— Não, eu não sou avoada. É só que... — você é gostoso demais e eu me desconcentrei. — Eu estava pensando sobre o trabalho como secretária e acabei não ouvindo.
— Sua função como minha secretária começa na semana que vem, você pensa sobre isso depois. — continuou sério. — Vou repetir. — revirou os olhos. — Eu quero que você seja minha assistente pessoal. Vai trabalhar para mim fora da empresa.
— Sim. — assenti sem pensar duas vezes. — Sim, eu aceito.
— Está tão desesperada assim por dinheiro? — arqueou a sobrancelha. — Bem, não importa. Eu estava dizendo que você terá que estar disponível para mim vinte e quatro horas por dia. Deve fazer o que eu quiser que você faça, independente de que horas sejam ou de onde você esteja.
— Tudo bem.
— Vai aceitar assim tão fácil? Não quer nem perguntar quanto você vai ganhar a mais? — ele parecia chocado com a facilidade em que eu disse sim.
— Ah, claro. — pigarreei. — Quanto eu vou ganhar a mais? — eu não dava a mínima para o salário, faria de graça se ele quisesse.
— O triplo do seu salário como secretária.
Eu poderia ficar feliz se eu ao menos tivesse pesquisado sobre quanto uma secretária dele ganhava.
— Eu aceito. — fui direta.
— Isso não vai ser fácil. — advertiu.
— Eu já disse que aceito. — eu já estava começando a me irritar, mas forcei um sorriso.
Ele assentiu, abriu uma das gavetas de sua mesa e tirou de lá uma caixa de celular, um documento contratual e um chaveiro com três chaves, sendo uma delas a de um carro.
— Aqui está o seu contrato. — ofereceu-me o documento. — Você pode levar o tempo que precisar para le... — antes que ele terminasse a frase, eu já tinha assinado. — É sério, você está desesperada por dinheiro, não está? — perguntou incrédulo.
— Não deve ser tão r**m assim ser a sua assistente pessoal. — dei de ombros e devolvi o contrato para ele.
— Não é o que dizem. — apesar do tom de piada, ele não sorriu ou demonstrou qualquer expressão de diversão. — Esse é o seu celular de trabalho. — arrastou a caixinha para mim. — Aí tem todos os meus contatos incluindo os contatos de emergência. Esse celular é exclusivamente para me atender, então não o passe para ninguém, não o deixe descarregado e lembre-se de mantê-lo sempre perto.
— Ok. — assenti.
Ele ergueu o chaveiro e indicou uma chave por vez enquanto dizia a função de cada uma:
— Esta é a chave do meu escritório. Você tem que chegar antes de mim todos os dias, deve abrir as cortinas, ligar o meu computador e arrumar a minha mesa. Eu gosto de agilidade, então tudo tem que estar pronto.
Mesmo que ele fosse lindo e estivesse me atraindo como um maldito ímã, eu quis rolar os olhos. Ele era mesmo um filho da p**a mimado.
— Esta é a chave da minha casa. Eu faço muitas viagens e preciso que alguém mantenha tudo em ordem e cheque se meus empregados estão fazendo suas funções corretamente. E, claro, preciso de alguém para cuidar do Thor.
— Quem é Thor?
— O meu cachorro.
O rottweiler enorme? Ótimo...
— Adoro cães. — sorri. — Mas por que não contrata um cuidador?
— Porque eu prefiro manter por perto a pessoa que vai cuidar dele enquanto eu estiver fora. Não posso deixá-lo com quem não conheço.
Que frescura, é só um cachorro!
— Entendo perfeitamente. — eu deveria fazer um teste para um filme pois estava sendo uma ótima atriz.
— E essa outra chave é do seu carro, para facilitar sua locomoção. Você vai receber um auxílio para mantê-lo com o tanque cheio e com a manutenção em dia. Não gosto de imprevistos no meu caminho, senhorita Saviñon. Não importa o que vai fazer e como vai fazer, quando eu te pedir alguma coisa quero que seja rápida e eficiente. — falou a última parte me encarando com advertência.
Engoli em seco, não por medo ou nervosismo do seu tom autoritário, mas porque aquele jeito de me olhar me deixou muito excitada. De repente o ambiente ficou mais quente e eu tive que me controlar para não me abanar diante dele.
— Ok. — consegui responder. — Quando eu começo?
— Agora.
— Agora? — sem nenhuma preparação? Ok...
— Busque o Thor no petshop. — começou a anotar o endereço em uma folha de papel e depois me entregou. — O endereço da minha casa está na agenda do seu celular.
— Certo. — recolhi as coisas que ele me deu e fiquei de pé.
— Confira se o pote de água dele está cheio e encha de ração o que fica ao lado. Vai encontrar a ração na despensa.
— Certo. — virei-me, começando a andar até a porta.
— Senhorita Saviñon. — me chamou novamente.
— Sim?
— Quando voltar, passe no andar de baixo e tire uma cópia do seu contrato para que fique com ela. — ergueu o documento para mim.
Eu assenti, fui até ele e peguei o contrato. Esperei que ele se despedisse de mim, dissesse mesmo um simples "até logo", mas ele só ficou me encarando com uma das sobrancelhas erguidas como se me perguntasse silenciosamente o que diabos eu ainda estava fazendo dentro de sua sala.
Recado dado e recebido com sucesso, senh... doutor Uckermann.
Eu não era muito boa em ler as pessoas, mas com certeza esse homem tinha uma casca grossa e seria difícil entrar na cabeça dele e fazê-lo se apaixonar por mim. Mesmo assim, era o meu plano inicial e minha única chance de ser feliz no amor pela primeira vez nessa minha existência como Dulce Maria Saviñon.
Fui até o petshop e quase saí correndo quando me trouxeram aquela fera enorme. Thor rosnou para mim assim que me viu e eu senti minhas mãos ficarem geladas. Agora eu só tinha que arrasta-lo até o carro e levá-lo para casa. Por sorte, o recepcionista foi muito gentil e se dispôs a colocá-lo no banco de trás do carro.
Dirigi intercalando meu olhar entre a pista e o retrovisor, por onde eu podia ver se o cachorro estava com um olhar sanguinário pra cima de mim e, sim, ele estava.
— Olha, Thor, eu sei que você não me conhece, mas eu vou estar muito presente na sua vida daqui pra frente. E tem mais, eu sou um anjo, mas no momento não sou imortal. Por favor, fique quietinho ou eu juro que bato em um maldito poste!
O resto do caminho foi tenso e pareceu ser mais longo do que realmente era. Respirei aliviada ao parar em frente à casa de Christopher sem ter sido atacada por seu cachorro assustador.
Quando desliguei o carro, o cachorro resolveu que era a hora de dificultar a minha vida. Ele começou a latir e rosnar para mim, fazendo posição de ataque. Eu corri para fora do veículo e fechei a porta, o deixando sozinho lá dentro. Atrás do vidro, ele continuou a latir na minha direção enquanto eu ofegava pelo susto.
— Cala a boca! — bati na janela. — Cala a boca! Cala a boca! — gritei repetindo o gesto.
Deixei ele lá mesmo e entrei na casa. O lugar era ainda maior visto pessoalmente. Fui até a cozinha e coloquei a comida para Thor, agora eu só tinha que voltar para o lado de fora, abrir a porta e torcer para ele correr para dentro. Bom, ele correu, mas foi atrás de mim. Fugi desesperadamente pelo jardim da frente, mas acabei caindo ao pisar em um daqueles brinquedos de borracha.
O cachorro pulou sobre mim, latindo e babando em meu rosto enquanto eu tentava me proteger com os braços, que agora estavam sendo arranhados pelas garras do animal.
Em um momento de adrenalina, eu segurei o cachorro e o girei para o lado, o imobilizando abaixo de mim com mais facilidade do que deveria ser considerado natural para uma humana magra e assustada lutando contra um cachorro daquele porte. Aos poucos, como se estivesse se dando conta de que não era o dominador ali, Thor foi parando de rosnar até não parecer nada mais do que um cãozinho dócil e medroso.
— Que diabos? — franzi a testa, sem entender de onde veio aquela força. — Klaus... — murmurei, tocando o colar em meu pescoço. Talvez aquela peça servisse para mais coisas do que imaginei. — Salvou minha vida. — sorri de canto. — E aí, Thor? Pronto pra colaborar?
Saí de cima do cachorro e ele continuou quieto, sem aquela posição de ameaça de antes. Soltei o fôlego satisfeita, mas depois fiz uma careta ao notar o estado deplorável das minhas roupas agora sujas de terra e grama.
Antes de voltar para a empresa, eu passei em uma confeitaria e comprei uma caixa com três cupcakes. Do céu, eu assisti Christopher comprando aqueles bolinhos todos os dias ao sair do trabalho e aparentemente era uma coisa que ninguém imaginava que ele gostasse tanto. Levar os doces para ele iria surpreendê-lo de maneira positiva.
Antes de ir até a sua sala, eu fui até o andar de baixo tirar uma cópia do meu contrato, como ele havia dito para eu fazer. E claro que eu não fazia ideia de como usar uma impressora. Mas tudo bem, eu podia perguntar para a Siri, mas fiquei com vergonha de fazer aquilo no meio de toda aquela gente trabalhando, andando de um lado para o outro, tirando cópias e usando computadores com muita facilidade.
— Dulce! — ouvi a voz de Anahi e fiquei aliviada por ter alguém ali que pudesse me ajudar sem me julgar. — Soube que o Christopher te contratou como assistente pessoal. — ela parou diante de mim e me olhou de cima a baixo. — O que aconteceu? — franziu o cenho.
— O Thor não foi com a minha cara. — sorri sem jeito.
— Sinto muito. — mordeu os lábios, tentando segurar o riso.
— Pode rir. — rolei os olhos.
— A sua aparência está impagável! — gargalhou. — Pense pelo lado positivo, você tem um emprego.
— E é só o primeiro dia. — ironizei. — Pode me ajudar a tirar uma cópia disso aqui? — indiquei o contrato em minha mão.
— Você não sabe usar uma impressora? — perguntou com estranheza.
— Não me dou muito bem com a tecnologia. — dei de ombros.
— É simples. Eu te ensino.
[•••]
Cópia em mãos, eu só tinha que devolver o original para o meu lindo e nada amável chefe. Quando entrei em sua sala, ele franziu a testa, me olhando de cima a baixo. Essa não era a expressão que eu esperava ver em seu rosto caso um dia ele me secasse com o olhar.
— Rolou por uma ribanceira? — foi sarcástico.
— Foi o seu querido cachorro. — forcei um sorriso.
— Ah. — assentiu. — Ele vai se acostumar com o tempo.
— Ele vai se acostumar? — ergui a sobrancelha.
— Você tirou a cópia do contrato? — ignorou minha última frase.
— Aqui está. — coloquei em sua mesa. — E eu comprei cupcakes para o senhor. — sorri satisfeita, colocando a caixa em sua mesa.
Ele olhou da caixa para mim algumas vezes e diferente do que eu imaginei, Christopher não pareceu contente com a minha surpresinha. Na verdade ele parecia irritado.
— Eu não pedi pra comprar isso pra mim. — e cá estava a sua aspereza.
— Considere um presente de agradecimento pelo emprego.
— Eu não gosto de doces.
— Isso não é verdade. — falei com convicção, já que o vi se encher com aqueles doces todos os dias desde que ele se tornou minha tarefa.
— Como você poderia saber se é verdade ou não? — seu tom de voz ficou ainda mais irritado, como se isso fosse possível.
Quando eu estava na Terra há mais de quarenta anos atrás, eu respondia cada grosseria dirigida a mim com mais grosseria. E eu sabia que agora eu deveria me controlar para não afastar aquele homem, mas se todo mundo beijava os pés dele, eu não seria assim. Além de ser uma forma de me destacar, iria manter o meu ego intacto.
— Doutor Uckermann, eu passei a maior parte da manhã tentando não ser morta pelo seu cachorro assustador que me perseguiu pelo seu jardim e babou no meu rosto. — eu estava forçando um sorriso irônico. — Eu nunca, em nenhum trabalho que já tive, precisei lidar com esse tipo de situação desconfortável e humilhante. As pessoas não paravam de olhar para mim como se eu fosse doida quando entrei na empresa. Então eu acho melhor o senhor engolir cada pedacinho dos cupcakes que eu trouxe e que fique agradecido enquanto seu estômago os digere.
Quando parei de falar, o silêncio pesou no ambiente. Christopher continuava sério, mas sem aquele ar de irritação de antes. Ele me encarava quase sem piscar e eu já estava a ponto de ir até ele e sacudi-lo.
— Ok. — foi tudo o que ele disse.
Fiquei surpresa com a sua reação, mas feliz em constatar que havia descoberto um jeito de lidar com seu lado grosseiro. Bastava não abaixar a cabeça e ele saberia ter respeito.
— Em sua mesa tem uma lista com as suas principais funções semanais. — foi dizendo. — Tem o endereço e contato de um hotel que eu sempre frequento. Faça uma reserva para esta noite.
— Vai levar alguém? — só percebi que não deveria perguntar isso depois que a pergunta já tinha sido feita.
— Isso obviamente não é da sua conta. Agora saia e me traga um café puro e sem açúcar.
Apenas assenti e saí de sua sala. Peguei a tal lista que estava sobre a minha mesa e a analisei. Diversas coisas listadas e muito bem detalhadas em incríveis cinco páginas. Minhas semanas seriam bem cansativas.