Capítulo 2 - Ana

1078 Palavras
Ana Passei a noite inteira no hospital ao lado da minha mãe. Dormi sentada, com o corpo dolorido e a mente em colapso. Quando chegou o horário de trabalho, levantei-me. Passei em casa apenas para tomar um banho rápido e segui direto para a cafeteria. Cheguei atrasada. Sabia que Dona Olga reclamaria, mas minha cabeça estava tão cheia que eu já não me importava com o que ela diria. Talvez, inclusive, eu precisasse da ajuda dela. Meus chefes eram as únicas pessoas que eu conhecia com dinheiro suficiente para salvar a vida da minha mãe. Como eu já havia percebido, eles eram pessoas cruéis, mas talvez servissem para alguma coisa. Se não servissem, eu teria que encontrar outro caminho. — Anastácia, você está atrasada — disse Dona Olga assim que me viu. — Você sabe que precisa chegar às seis e trinta em ponto. Não posso continuar encobrindo seus atrasos. Vou descontar do seu salário. — Tudo bem, Dona Olga — respondi com a voz cansada. — Faça como achar melhor. Estou com muitos problemas e não quero discutir. Posso começar a trabalhar? — Deve — respondeu, seca. O dia passou rápido, embora minha cabeça doesse de forma constante. Pela primeira vez, não respondi às provocações dos clientes. Apenas fingia não ouvir. Trabalhei no automático, porque meus pensamentos estavam todos na minha mãe. No horário do almoço, Dona Olga estava sentada à mesa com o marido e o filho. Criei coragem e perguntei se poderia falar com ela em particular. Ela assentiu. — Eu sei que cheguei atrasada hoje e sei que este é seu horário de descanso — comecei —, mas é o único momento que temos para conversar. — Fale logo, menina — disse ela. — Hoje você está distraída, chegou atrasada e claramente não está bem. — Não estou bem — admiti. — Minha mãe passou m*l ontem. Eu a encontrei caída no quintal. Ela se esforçou além do que podia e, com o frio, não deveria ter saído de casa. Agora ela precisa passar por uma cirurgia urgente. Eu preciso de ajuda financeira. Dona Olga arqueou as sobrancelhas. — Cirurgia? Que tipo de cirurgia? Você vai faltar ao trabalho por causa disso? Porque, se faltar, precisa avisar. Já deixei claro que não posso cobrir atrasos, imagine faltas. E todos os dias serão descontados. Aqui não é uma instituição de caridade. — Ela tem uma doença pulmonar grave — expliquei. — A cirurgia custa cento e oitenta mil rublos. Eu trabalho aqui o tempo que for necessário para devolver esse valor. Por favor, me ajude. Ela soltou uma risada curta e sem humor. — Querida, eu já tive a sua idade e nunca fui ingênua. É claro que não vou te dar esse dinheiro. É muito alto. Você nunca conseguiria me pagar. Acha mesmo que eu teria um prejuízo desse tamanho para salvar a sua mãe? Como eu disse, aqui não existe caridade. Levantou-se da cadeira. — Vou voltar para o meu almoço. Pensei que fosse algo realmente importante. E mais uma coisa: se você faltar, vou descontar seu salário. Não aceito atestado de acompanhante. Pense bem no que vai fazer da sua vida. Em situações como a da sua mãe, qualquer centavo faz falta. Ela saiu, passando por mim sem olhar para trás. Fechei a mão e acertei a parede com força. Depois, fui para o banheiro feminino e me sentei em uma das cabines, finalmente deixando as lágrimas caírem. A porta se abriu. Quando ergui o olhar, vi Roman Orlov. O herdeiro desse inferno. O homem mais insuportável que eu conhecia. Ou melhor, o segundo mais insuportável. O primeiro era o pai dele. Ele me encarou por alguns segundos, aproximou-se e sentou-se ao meu lado. — Minha mãe acabou de me contar o que está acontecendo com a sua — disse. — Acredito que ela tenha sido extremamente insensível com você. Isso não me surpreende. Ela nunca foi conhecida por empatia. Ela comentou que a cirurgia custa cento e oitenta mil rublos. Olhei para ele, por um instante acreditando que talvez houvesse algum traço de humanidade naquela família. Seu tom era mais suave do que o da mãe. — Sim — respondi. — Infelizmente, eu não tenho esse dinheiro. — Acho que posso te ajudar a conseguir — disse ele, inclinando-se levemente. — Você lembra que venho te convidando para sair há meses e você sempre recusa. Talvez, se fosse mais receptiva, algumas portas financeiras se abrissem para você. Talvez tudo o que precise seja jantar comigo… e ser carinhosa depois. Meu corpo inteiro se enrijeceu. — Eu não sou garota de programa — respondi, firme. — Já disse que não vou sair com você. Não me envolvo com homens do seu tipo. Você saiu com todas as mulheres desta cafeteria e está ofendido porque eu não quis. Preciso do dinheiro para salvar minha mãe, mas meu corpo não está à venda. Levantei-me para ir embora, mas ele segurou meu braço com força e me encarou nos olhos. — Acho admirável o seu orgulho, Anastácia — disse em tom baixo. — Mas estamos falando de cento e oitenta mil rublos. Você não vai conseguir esse dinheiro em banco algum. Nem mesmo se vendendo nas ruas da cidade. Por isso estou dizendo que posso te emprestar. Por algumas noites, eu até te dou esse dinheiro. Você é bonita. Deveria usar isso a seu favor. Estou disposto a pagar. E seu preço está alto. Nunca paguei tanto para ficar com uma mulher. Aquela última frase foi o suficiente. Ergui a mão e o acertei no rosto com força. Puxei meu braço e me afastei. Ele apenas sorriu de lado. Saí andando, mas ele veio atrás de mim, segurou meu braço novamente e me encurralou contra a parede. — Nunca — disse, com a voz trêmula de raiva. — Eu nunca vou ficar com você por causa do seu dinheiro sujo. — Vou te dar alguns dias para pensar — respondeu ele, frio. — Quando você quiser o meu dinheiro, vai vir até mim. E eu vou fazer você se ajoelhar e implorar. Você ainda vai entender que a vida não é fácil. Pode ser bonita, Anastácia, mas vai precisar se humilhar. Ele me soltou e saiu andando. Eu fiquei ali, chorando, sentindo o peso daquela humilhação esmagar meu peito. Não conseguia acreditar que alguém tivesse colocado um preço em mim. Mas, no fundo, eu sabia: o desespero ainda podia me empurrar para escolhas piores.
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