2- Nova assistente

1953 Palavras
Maia Quando abri os olhos percebi que tinha passado a noite sozinha, quem me fez companhia foi o vestido vermelho que ele deve ter odiado. Quando olhei para a poltrona onde o havia colocado, quem estava lá era ele, dormindo todo torto. Vai acordar com torcicolo e eu vou rir da cara dele, escondida é claro, mas que vou rir, vou. Nunca vi isso, o homem me contrata e nem do meu lado deita, será que se decepcionou? Será que ele achou que eu era muito mais bonita por foto que presencialmente? E se ele pedisse pra trocar de acompanhante, que vergonha seria. Eu tinha que descobrir do que esse russo gosta e investir. Ele disse que sairíamos cedo, mas acho que acordei cedo demais. O céu ainda estava escuro, a noite estava muito fria e a roupa fina não estava me ajudando a me esquentar. Resolvi cochilar por mais alguns minutos ou horas, nem sei que horas são, então puxei a colcha da cama e me aconcheguei embaixo dela. Mal eu havia deitado e me senti como se estivesse na máquina de lavar sendo chacoalhada de um lado para outro. Abri meus olhos e percebi que não tinha dormido muito pouco, pois a luz clara do sol da manhã invadia o quarto, iluminando-o fortemente e isso não aconteceria em poucos minutos pois quando me deitei novamente, o céu ainda estava escuro. — Levanta! – Disse ele naquele sotaque gostoso. Esfreguei os olhos e eles focaram-se à figura masculina mais imponente que já vi na minha vida. Ele ainda estava molhado do banho recente, a barba e cabelos úmidos. — Para onde vamos? – Perguntei. — Devo informar cada passo que daremos? – Hoje ele acordou de mau humor, ontem ele parecia tão gentil. — Se quiser que me vista adequadamente, sim. – Ele me analisou com aqueles olhos azuis que esquentava cada centímetro do meu corpo. — Reunião de negócios. – Ele disse e se virou vestindo uma camisa. Já que ele quer jogar, é isso que farei. — Ok! – Puxei a camisola e andei apenas de calcinha até minha mala que havia sido colocada sobre uma cômoda do quarto. Eu sabia que ele estava olhando. Fio dental não tem como os homens ignorarem, e ainda abaixava um pouco mais que o necessário. Escolhi uma saia lápis preta e uma blusa azul clara de mangas, a bela executiva. Escutei a porta do banheiro bater com força. Um sorriso escapou de meus lábios, ponto pra mim. Fui até o banheiro e bati na porta. — Vai demorar, querido, preciso tomar um banho. Escutei um rosnado no interior do banheiro. — Já vou sair. – Disse em um tom seco. Me afastei da porta e esperei. Alguns minutos e ele sai mais bonito de que quando entrou. Os cabelos arrumados, seus olhos azuis pareciam mais intensos, o terno azul marinho sobre a camisa branca o deixava ainda mais imponente e com pinta de CEO irresistível. — Uau, que gato. – Falei, e ele nem um sorriso me deu. — Vá se arrumar, não demore muito. Temos poucos minutos. — Vou demorar o que achar necessário, não mandei entrar no banheiro e me atrasar. O que fez aí dentro podia muito bem fazer aqui fora e não me atrasaria. Entrei no banheiro e fechei a porta atrás de mim, novamente ouvi um rosnado. Me arrumei o mais rápido que pude sem deixar de fazer tudo o que precisava para sair o mais bela possível daquele banheiro. Dmitry não é o único, os homens tem essa mania de pedir que me arrume rápido, então já estou acostumada com isso. Sério, ele abriu a porta do quarto para que eu passasse primeiro, nossas malas não estavam mais no quarto. Como ele disse, de lá viajaríamos para São Paulo. Ele me seguiu sem dizer uma única palavra e assim entramos no carro seguimos todo o percurso e entramos no elevador que, ainda bem, só tinha nós dois. — O que está acontecendo aqui? – Perguntei já não aguentando aquele clima. – Trabalho há anos como acompanhante e nunca tive um cliente como você. Você não fala comigo, nem olha pra mim e me tocar então, nem se fala. O que estou fazendo de errado? – Eu tinha que saber. — Não há nada de errado com você, o problema é comigo. Quero apenas sua companhia, só isso e mais nada. Não toquei em você e nem vou tocar. Suas palavras me chocaram, mas saber que sua intenção sempre foi apenas minha companhia fez um sentimento estranho tomar conta de mim, não sei explicar o que sentia, mas não era um sentimento agradável. O elevador se abriu, saímos e ele pegou minha mão. E aquela de que não me tocaria? Um sorriso amplo tomou seu rosto, foi como ver o mesmo Dmitry do Aeroporto novamente. — Dmitry. – Um senhor disse ao lhe apertar a mão assim que adentramos o escritório. — Vargas. – Respondeu ele correspondendo ao aperto de mão. — Sempre bem acompanhado, Dmitry. – O homem falou e o olhar de Dmitry ficou estranho, era como se ele não tivesse gostado de algo. — Deixe-me apresenta-la, Vargas. Essa é minha assistente, Maiara Medeiros, ela irá me ajudar enquanto estiver aqui no Brasil. — Ah, Claro. Desculpe-me. – Ele estendeu a mão para mim e eu a segurei não entendendo o que estava acontecendo ali. – Me chamo Gustavo Vargas, prazer em conhecer a senhorita. — O prazer é meu. – Respondi educadamente. — Há uma sala onde eu e minha assistente possamos usar enquanto não começa a reunião? – Ele perguntou. — Claro. Use a sala de reuniões, ainda está vazia. — Obrigado. – Ele disse me guiando até a sala. Ao que parece ele conhece bem o lugar e o homem que nos recebeu. *** Dmitry O dia já começou uma bosta. A noite m*l dormida na poltrona me rendeu uma dor infernal no pescoço, e só para tornar meu dia ainda pior, aquela mulher infernal resolveu me provocar, tive que voltar para o banheiro e tomar outro banho gelado. Decidido a não tornar aquela situação ainda mais complicada para mim, decido que falaria apenas o necessário. Ela era minha acompanhante e só isso. Mas seus questionamentos no elevador mexeram comigo, o que podia haver de errado com ela? Ela era perfeita. Ela não entendia meu comportamento, era de se esperar isso, e sem nenhuma explicação de minha parte, ela se sentia frustrada, talvez até amedrontada em não estar agradando um cliente. Por isso decido que deixaria de ser um i****a com ela, tentaria a linha da amizade. E quando Vargas a olhou de modo sugestivo, já entendo o que ela era, me senti m*l em permitir que os outros a vejam daquela forma. Agora eu estava na sala de reuniões, explicando o básico a ela, os meus negócios aqui no Brasil envolvem basicamente a área de produção, agropecuária e afins. O que ela deveria fazer era apenas entender, prestar atenção na reunião, anotar ou fingir anotar coisas importantes, e me entregar documentos específicos que mostrei a ela quando solicitados. Tudo o que uma assistente faria. Não queria aquele tipo de olhar sobre ela, eu ainda não entendi o que sentia perto dela, mas a proteger daquele tipo de olhar se tornou uma prioridade. — Estou nervosa. – Ela disse quando outros executivos começaram a entrar na sala. — Não fique, é tudo muito simples. — Pra você que já está acostumado. – Murmurou ela. Sorri com seu jeito de falar. Os homens estraram na sala e ocuparam seus lugares. Maia fez tudo o que ensinei corretamente, vi a folha ser preenchida por sua letra bonita e imaginei se ela estava escrevendo qualquer coisa para que acreditassem em seu papel. Seus olhos atentos me faziam me questionar se aquele não seria o trabalho no qual ela gostaria de atuar. Mas eu não a conhecia, não sabia da sua vida, de seus gostos e não me meteria em nada. Em algumas semanas voltaria para a Rússia e não veria mais Maia. Ao fim da reunião, que me rendeu mais algumas reuniões futuras, olhei para Maia e a vi guardando os documentos e as folhas que ela usou para fazer anotações na pasta, parecia uma executiva de verdade. — O que achou da experiência? – Perguntei, tentando ser agradável. — Sabe que gostei! Não esperava fazer algo assim um dia, mas achei interessante. — O que escreveu? – Já tínhamos deixado o escritório e caminhávamos para o elevador. — Tudo o que achei importante, como disse. Talvez tenha escrito coisas demais. — Depois quero ver. — Ah, deixa pra lá, Dmitry. Deve estar uma porcaria, joga aquilo no lixo. Ela estava insegura, e era engraçado ver aquilo nela, porque a mulher parecia uma muralha de segurança e autoestima. Apesar de termos retornado em silêncio, não foi um silêncio estranho como foi na ida para o escritório. Agora estávamos indo para o jatinho que aluguei para que fique à minha disposição enquanto estiver aqui no Brasil. Ela subiu as escadas à minha frente e era impossível não olhar seu rebolado, aquela mulher era uma provocadora, mesmo quando ela não está querendo ser. Ela se sentou e eu me sentei a seu lado. — Deixe-me ver. – Falei. — O quê? – Ela se fez de desentendida. — Suas anotações. Ela revirou os olhos e abriu a pasta que ela ainda carregava como se fosse realmente sua função. Retirou o papel de dentro e me entregou. — Se rir da minha cara, vou embora e te deixo sem acompanhante e sem assistente. – Decreta e acho graça. Abri os papéis e passei a analisar o que escreveu. Ela realmente anotou coisas demais, mas tudo o que era importante estava ali. Todos os detalhes dos contratos, as datas e horários das reuniões, quem estaria presente e o assunto de cada uma, tudo muito bem detalhado. — Tem certeza que foi sua primeira vez? — Uma das poucas que me restavam. – Respondeu e não fiquei assustado com a forma direta da mulher. — Então fiquei feliz em ser aquele que a tirou. – Respondi na mesma provocação. O que eu estava fazendo? Se minha intenção era manter as coisas no profissional, não poderia ter respondido daquela forma. Ah, f**a-se. Ela sorriu. Um sorriso muito bonito. — Falando profissionalmente... – Comecei. – Está perfeito, considerando que é sua primeira vez. Já cogitou em trabalhar nessa área? — O que eu quero não conta, Dmitry. – Não gostei do jeito que o seu sorriso sumiu. — Por que não? — Porque não. – E eu sabia que o assunto tinha acabado ali, mas eu não estava a fim de permanecer em um silêncio puro até São Paulo. A aeromoça veio até nós e pediu para que nos preparássemos para o voo. Colocamos o sinto e assim que a turbulência passou voltei a falar. — Quer continuar sendo minha assistente enquanto estiver aqui? — Por que não trouxe sua própria? – Perguntou e eu não entendi o porquê da pergunta, se ela aparentemente tinha gostado da experiência. — Porque sempre fiz tudo sozinho. — Então por que precisa de mim agora? — Não preciso. – Disse sério, já estava me irritando esse joguinho dela, essa mudança de humor. – Pode ficar esperando do lado de fora se quiser, e parecer ser exatamente o que é aos olhos daqueles homens. Seus olhos mostraram-se tristes, mas logo a tristeza passou a raiva e ela se levantou calada, indo até o último banco da aeronave. Colocou o protetor nos olhos, o tampão nos ouvidos e dormiu, ou pelo menos pareceu dormir. Que merda eu falei!
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