memórias

878 Palavras
Cada célula do meu corpo estava relutante quanto aceitar aquela proposta indecente. Mas eu pensei que, um dia a mais ou dia a menos não iria me m***r. Bem, foi o que eu achei no início. Eu só queria encerrar os pesadelos e as memórias que me atormentavam de uma vez por todas, me sinto assombrada por elas como um veterano de guerra, o que em parte, é exatamente o que eu sou. "Laços de sangue", a primeira vez que ouvi esse termo sair dos lábios de Drácula eu duvidei, achei uma bobagem supersticiosa sem tamanho. Mas não era, e eu descobri isso da pior forma possível. Um "laço de sangue" é o elo que une a pupila a seu mestre, é uma espécie de barreira invisível que mantém uma jovem vampira sob a tutela de seu criador. Uma maldição que faz com que você seja obrigada a servir única e exclusivamente ao seu mestre. Sendo assim, não posso iniciar um humano, por exemplo. Não posso me apaixonar por outro vampiro, pois uma relação assim seria inviável já que meu sangue se tornou um veneno para qualquer um que não seja Drácula. No entanto, diferente de uma escrava de sangue, que, como o próprio nome evidencia, torna uma humana submissa e sem vontade própria, apenas com o intuito de satisfazer um vampiro, eu posso perfeitamente, escolher não me deitar com meu criador, posso escolher não alimenta-lo, posso escolher... Me tornar uma non-personne. Caso um dos lados queira romper esse laço, existem apenas duas opções possíveis: a primeira é que criador rompa os laços de sangue em um ritual por livre e espontânea vontade. A segunda é se tornar uma non-personne. Tem duas maneiras de se tornar uma non-personne, uma me obrigaria a m***r meu criador, a outra é continuar sendo atormentada por essa maldição. Ambas alternativas me levariam à loucura. Eu tentei. Os céus sabem que eu tentei! Continuei tentando ser uma pessoa normal, ou pelo menos parecer uma. Continuei ignorando e adiando a situação até que se tornou insustentável. Começou me tirando o sono, e aos poucos foi me impedindo de trabalhar, consequentemente me impedindo de me alimentar. Lydia, minha amiga íntima e secretária acreditou que eu estava num estado profundo de depressão. Eu sabia que era pior, mas eu não podia contar nada a ela, não conseguiria. ☽〄☾ Aquela situação trouxe a tona mais uma memória... Na Itália, depois que despertei de meu estado de inconsciência na praia, eu estava numa cama quente, coberta por lençóis macios. Minha cabeça ainda girava, mas aos poucos eu lembrei do que havia acontecido. O quarto parecia ser o de uma princesa, era grande e decorado com enorme delicadeza, os papéis de parede eram rosa bebê e possuía um tom escuro de dourado nas bordas, parecido com ouro velho. Era muito bem iluminado apesar de ser noite, percebi que eu usava uma camisola de seda longa de cor pérolada. Eu deslizei para fora da cama e decidi explorar o quarto, encontrei um closet cheio de vestido de tafetá, em uma infinita variedade de cores e formatos, a moda da época. Escolhi um e vesti-me, depois sai daquele quarto. Uma música baixa me guiou pelos corredores daquilo que parecia ser um casarão, finalmente encontrei a fonte do som agradável, em um dos salões havia um piano n***o com cauda, no qual uma moça ruiva tocava despreocupadamente. Ela parou assim que me viu. ─ Entre. ─ Disse ela em tom suave. ─ Vejo que experimentou um dos vestido, ficaste linda. ─ Muito obrigada, devolverei assim que partir. ─ Ora! ─ Ela ficou pensativa por alguns instantes. ─ Já tens lugar para ir? ─ Não, mas não pretendo abusar de sua generosidade, senhora. ─ Oh não! Não tens que me agradecer, deve agradecer a meu irmão, Gustave. ─ Ela fez um gesto com a mão indicando o homem sentado em uma das poltronas, que até então, eu não havia notado. ─ Olá! ─ Disse ele em um leve sotaque francês. ─ Olá! ─ Digo me aproximando dele. ─ Me chamo Anna, Anna Eriksdotter. Ele sorriu, seus lábios se curvaram em um sorriso singelo. Seus cabelos formavam ondas loiras desconexas e algumas mechas repousavam levemente sobre sua testa. Ele tinha uma voz grave e máscula que condizia com seu porte físico. Ele era alto, não tanto quanto Drácula, mas era o bastante para eu ter que inclinar minha cabeça levemente para cima para observa-lo. ─ Muito prazer Anna. Se sente bem? ─ Muitíssimo melhor! Como ia dizendo a sua irmã, eu agradeço grandemente o que fizeram por mim. Não tenho nem forma de pagar por sua benfeitoria. ─ Tens algum lugar para ir esta noite? Eu abaixei a visão e fiz uma negativa com a cabeça. ─ Fique conosco então. Conte-nos o que houve, porque estava naquela praia. Eu disse apenas que estava em um barco de pequeno porte, ele naufragou e quando acordei estava na praia. Nunca soube se eles acreditaram ou não. Mas foi o que eu consegui pensar naquele momento. Gustave, em pouquíssimo tempo criou grande afeição por mim, hoje me arrependo de tê-lo posto em minha vida naquela época. Me culpo, mesmo sabendo que o que se sucederia apartir dali estava fora do meu controle. ☽〄☾
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