Capítulo 09: Observada.

1326 Palavras
Anelise Narrando: Boston, Mansão Maddox. Faz três dias que deixei meu apartamento. Três dias desde que empacotei minhas roupas, livros, perfumes e pendurei meu último vestido no closet da ala leste da mansão de Sthefano. Ele me deu um espaço inteiro só meu. Um andar com paredes bege-claro, janelas amplas com vista para o jardim, cortinas de linho e um closet de vidro iluminado por dentro. Havia até um pequeno estúdio de maquiagem, com espelhos que pareciam saídos direto de um editorial. — Quero que se sinta em casa. — Ele disse, quando me entregou a chave em forma de pingente. — Porque agora... você é o coração dela. E eu quis acreditar. Abracei aquele luxo, aquele silêncio elegante, aquele aroma de incenso amadeirado que flutuava pelos corredores. Aos poucos, comecei a chamar o quarto de "meu", a biblioteca de "nossa", e até o jardim de "o nosso refúgio". Era reconfortante, sedutor e imenso. Mas, às vezes, o silêncio ecoava mais alto do que deveria. — O que vai fazer hoje? — Ele perguntou naquela manhã, enquanto tomávamos café na varanda. Estava de camisa azul escura, mangas dobradas, o relógio caro no pulso e o olhar focado apenas em mim. — Pensei em visitar a Claire. Faz tempo que não nos falamos. — Claire... — Ele repetiu, como se saboreasse o nome com desconfiança. — Aquela que sempre tem algo a opinar sobre nós? Franzi os lábios. Ele sorriu, cortando um pedaço da fruta com precisão. — Amor, você não precisa dessas vozes antigas agora, seu momento está mudando, está crescendo e a vida fora daqui já não te veste mais. — Mas ela é minha amiga. — E você tem a mim, a Angel’s, o mundo. — Ele pegou minha mão, acariciando meus dedos. — Só estou dizendo que talvez... seja a hora de parar de olhar para trás. Fiquei em silêncio. Parte de mim queria contestar. A outra… só queria agradá-lo. — Está bem — Murmurei. — Posso mandar uma mensagem outro dia. Ele sorriu, satisfeito, e me recompensou com um beijo na mão. Como se cada pequena renúncia minha fosse uma prova de amor que ele sabia reconhecer. Durante aquela semana, recebi mais presentes do que em toda a minha vida. Um piano de cauda branco, que ele mandou instalar na sala de leitura “para quando você quiser compor sentimentos”, como disse. Um colar com um pingente de rubi, “para que ninguém esqueça de onde vem o fogo”. E um cartão, colocado discretamente na penteadeira: “Cada passo seu é parte da construção do nosso império. E eu não deixarei que nada tire você de mim.” Na primeira leitura, soou poético. Na segunda… quase como um voto silencioso de posse. Mas balancei a cabeça, ignorando a pontada estranha que surgiu no peito. Talvez fosse só o eco da Claire ainda em mim. Uma tarde, peguei o celular e abri o chat com ela. As mensagens estavam ali, lidas, não respondidas. A última havia sido: "Se quiser conversar, não precisa explicar nada. Eu tô aqui. Sempre." Meus dedos pairaram sobre a tela, mas… não digitei nada. Porque, no fundo, algo em mim começava a pensar que “sempre” talvez não combinasse mais com o agora. Naquela noite, jantamos apenas nós dois, à luz de velas no terraço dos fundos. O jardim estava iluminado por pequenas lâmpadas entre as roseiras. O vinho era francês, a comida italiana. E a conversa… doce. Quente. Envolvente. — Você está mais minha a cada dia. — Ele sussurrou, traçando a ponta dos dedos no meu ombro nu. — Você está moldando meu mundo. — Respondi. — Não. Eu só estou revelando quem você sempre foi. Uma mulher que nasceu para ser vista... e protegida. — E você quer ser meu guardião? — Quero ser tudo. Seu espelho, sua sombra, sua casa. Abracei aquela frase com a força de quem queria acreditar em eternidades. Naquela noite, dormi com ele de novo e outra vez, e de novo. Já não fazia sentido dormir longe. A mansão já era o único lugar onde meu corpo descansava. E onde meu coração batia com força, ainda sem saber se era por amor ou por rendição. Um mês depois. As luzes da sala de prova eram suaves, mas meu coração batia como se estivesse sob holofotes desde o momento em que acordei. Era o dia. A noite. O grande desfile da Angel’s Company. O momento em que o mundo veria, oficialmente, quem era Anelise Dupont. Ou melhor, quem eu havia me tornado. Vestida para ser lenda e modelada para ser inesquecível. O vestido era uma obra de arte. Branco-pérola, com bordados de cristais que desciam como filetes d’água e mangas longas feitas de tule invisível. Tinha uma leve cauda e um decote nas costas que deixava a pele respirar sob as luzes. — Parece que nasceu pra isso. — Disse o estilista, enquanto ajustava o último botão. — Talvez eu tenha mesmo. — Respondi com um meio sorriso, encarando meu reflexo. Mas, lá no fundo, uma pergunta ecoava: nasci pra isso ou fui moldada pra caber aqui? Antes que pudesse pensar mais, a porta se abriu e ele entrou. Sthefano. Terno preto, impecável, abotoado apenas até o meio. O cabelo penteado para trás, olhos ainda mais escuros do que o normal. Ele parou quando me viu vestida e por um momento, tudo silenciou. Até a música ambiente pareceu se curvar ao olhar dele. — Meu Deus. — Ele murmurou. — Você é... tudo. — Gosta? — Gosto não. Te consagro. Ele caminhou até mim e segurou meu rosto com firmeza, como se quisesse gravar aquele momento na pele. Seus olhos procuraram os meus. — Hoje à noite, você vai se tornar uma estrela. Mas não qualquer estrela. A minha estrela. Senti o estômago revirar com uma mistura de nervosismo e excitação. — Eu estou pronta? — Está perfeita. Porque foi criada pra isso, porque eu te preparei pra isso. Essa frase me fez engolir em seco. Mas no segundo seguinte, ele sorriu e me beijou a testa. E, como sempre, qualquer sombra de dúvida se dissolveu no calor do toque dele. O camarim estava lotado de modelos, maquiadores, stylists, flashes e celulares. Mas tudo ao meu redor parecia girar devagar, como em câmera lenta. Porque no centro da minha atenção estava ele. Sthefano não saiu do meu campo de visão. Nem uma vez. Meus passos, minhas respirações, minha ansiedade, tudo era observado, admirado e guiado. Quando anunciaram que era hora de entrar na fila final antes do desfile, ele se aproximou uma última vez. — Quando pisar naquela passarela, não pense no público. Nem nas câmeras. Pense em mim. — Em você? — No que você representa pra mim, você não está vendendo uma roupa, Anelise, você está entregando um legado. Ele segurou minha mão e a beijou devagar, como se selasse um pacto. — E eu sou o único que entende o valor disso. As luzes se apagaram, a música subiu e quando chegou minha vez, caminhei. Não com medo, não com hesitação, apenas com poder. Senti cada passo ecoar não só na madeira da passarela, mas dentro do meu peito. Era como se todo o mundo estivesse olhando e, pela primeira vez, eu não queria me esconder. Queria ser vista, celebrada e queria ser dele. E quando cheguei ao fim do trajeto, sob os flashes explosivos das câmeras, olhei para o único ponto fixo na multidão. Ele. Sthefano, em pé, com um sorriso orgulhoso, quase possessivo e naquele instante, tive certeza: Eu havia sido feita para aquilo, para aquela noite e para aquele homem. Mesmo que… mesmo que, lá no fundo, uma voz silenciosa tentasse me dizer que talvez eu estivesse perdendo algo de mim para brilhar tanto por ele. Mas a verdade é que eu já não queria ouvir essa voz. A única voz que eu queria ouvir… era a dele.
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