Novamente, um silêncio entre nós. Ele me perturbava.Eu sabia exatamente o que desejava dizer, porém esse não era um ponto que me incomodava.Muitas vezes percebia que Samantha não se sentia bem com o mundo em que eu vivia, pois o dela era simples e calmo.Algo com que ela já era acostumada. Era um dos pontos que me botava medo também.
— Quer saber?Não é nada. Às vezes penso demais nas coisas e acabo colocando problema onde não tem. —Deu um falso sorriso, desconfortável.
Fuga. Sempre que estávamos em uma conversa séria como essa, ela fugia. Foi assim que cresceu: fugindo de problemas dos quais achava que sairia ferida.
— Se houver algo que lhe incomoda, deve dizer. — Peguei em sua mão com carinho. Eu sabia o que sentiria com esse gesto, e esse foi meu segundo alerta.
— Não é nada, Joseph. Na verdade, minha cabeça não para de pensar na coisa estranha que está acontecendo no trabalho, e acabo levando isso muito a sério. —Afastou sua mão de mim.
— Você disse que não tinha um problema no trabalho. —Franzi o cenho.
— Esse é o problema. —apontou com surpresa. — Não está r**m, não tenho que lidar mais com Sebastian e ainda não tive que ouvir o quanto sou boa, mas não tão boa quanto os outros engenheiros.
Era interessante assistir às suas reações.Ela levava mesmo tudo muito a sério. Estava acostumada a uma coisa e, quando tudo mudava, achava mais que estranho, ficando bastante confusa.
— Achei que fosse isso que você queria.
— É.Mas não sabia que aconteceria de verdade.Agora estou achando que é um sonho maluco. —Eu ri e ela tomou um pouco da sua bebida antes de continuar a história. — Sebastian está sendo... gentil. O quão isso é bizarro?
— Estão se tornando amigos? —eu falei com ironia eela me olhou com reprovação. — Posso acabar tendo ciúme.
— Deus me livre! — Ela estava tão ofendida, que quase dei uma gargalhada. — Deus faz milagres, mas até ele tem seus limites.
— Qual o limite de Deus!?
— Tornar Sebastian descente o suficiente para que eu seja “amiga” dele. —Fez aspas com os dedos. — Acho melhor mudarmos de assunto. Estou ficando irritada.
— Sabe, Samantha?Você é uma caixinha de surpresas. — Encarei seu rosto confuso. — Talvez esteja tão acostumada a não receber atenção, que se assusta com coisas assim.E isso me deixa triste.
— Se sente triste por mim?Isso quer dizer que...?
— A única coisa que quero dizer, Samantha, é que odeio quando alguém a menospreza ou a maltrata.É por esse motivo que tento sempre fazer com que você seja a minha prioridade.
— Sente pena de mim?
O quê?!— Não! — Até fiquei irritado e ofendido. — Você não é alguém que me gere pena.Eu gosto de você.Sei que não está acostumada a lidar com essas coisas, porém me irrita que penseassim de mim.
—Me desculpe.— Ela me encarou como se estivesse em um conflito, e eu entendia. — Não quero te irritar, mas...
— Eu sei. — Peguei em sua mão novamente e, dessa vez, houve alguma coisa a mais que o normal: era um apego, uma necessidade. Eu queria dizê-la o quanto gostava dela.Mais que gostar.Era algo que nunca imaginei sentir. —Te entendo.É por isso que sempre estarei aqui, por você.
Fomos interrompidos pelo garçom com as entradas eusamos esse momento para mudar de assunto.
O resto do jantar foi alegre e animado.Gostava de vê-la sorrir, então me esforçava ao máximo para ser engraçado. Geralmente, eu não era, e todos tinham essa compreensão,todavia, com Samantha, as coisas eram diferentes; eu não mentia, nem fingia.
Apesar de tentar, a todo custo, perdurar nosso tempo juntos, uma hora ele teve que acabar. O caminho de volta foi mais animado que a vinda.Ela estava tão linda, que pensei em jogar tudo para o ar e a dizer o que realmente queria.
Ao fim do trajeto, nós sentíamos o mesmo e eu não queria que acabasse. Algo dentro de mim dizia que ela sentia o mesmo que eu e que, se fosse verdade, negaria até o fim.
Abri a porta do carro para ela.Os segundos tão perto do seu corpo fizeram com que meu coração fosse à boca. Eu já tinha me apaixonado antes.Foi intenso e bom, só que não dessa forma. Era maior, sufocante e me deixava angustiado e com medo.Emborafosse tão bom, também era r**m, já que a mulher por quem eu sentia todasessas coisas, protegia-se tanto, que não se permitiria tentar algo a mais.
— Que bom que vocês chegaram. —Hoper apareceu do nada, praticamente arrastando Samantha de perto de mim. Fiquei tão confuso, que apenas as observei. — Seu antigo professor bonitão ligou. —Bonitão?! — Vocêse esqueceu do celular em casa e eu não queria mexer nas suas coisas, mas quando Richard Foldner surgiu na tela, marcando um encontro, não teve como resistir.
Encontro?
— O que você fez? —perguntou Sam, controlada, contudo irritada. — Que tipo de encontro?Ele foi meu professor.
— É, eu sei.Você é uma sortuda. — Parecia que elas haviam se esquecido da minha presença.
As palavras“encontro” e “professor bonitão” não me deixariam ir embora antes queeu soubesse mais sobre o que diziam.
— Não consegui atender à chamada, só que depois ele te mandou mensagens, dizendo que estava aqui, em Nova York, e que tinha uma proposta para você. Eu falei, no seu lugar, que aceitava o jantar. É amanhã, no IlMulino, um dos melhores e luxuosos restaurantes da cidade.
Il Mulino!
Eu nem conhecia esse homem e já o odiava, semnem me importar se era um ex-professor de Sam ou se era mais velho ou novo.Quem convida uma ex-aluna para jantar em um restaurante como esse, com clima romântico e...? Richard Foldner. Já odiava esse nome.
— Não é um encontro. —falou Sam. — Ele estava em uma pesquisa que tem relação com meu novo projeto de microchips.Talvez tenha me convidado para jantarpor esse motivo.Mas você não tinha que ter marcado nada em meu lugar, Hoper.
— Quero te ajudar a desencalhar.Se Joseph não é o seu amor verdadeiro, talvez o...
— Pelo amor de deus, cale esta boca!— Ela estava irritada, no entanto controlada.
Pigarrei e arrumei as minhas roupas, sendo que não tinha nada fora do lugar.
— Devo ir agora.Parece que vocês têm muito o que conversar, e... — Assim que elame olhou, não consegui disfarçar o quanto estava incomodado. — Boa noite, Samantha.
— Boa noite, Joseph. —Seu sorriso no fim da frase desmontou a rigidez que eu sentia.
Sam era alguém magnifica, e meu medo era de que outra pessoa conseguisse aquilo que eu tinha medo de dizer.