Apesar de toda a minha dureza ao pegar na maçaneta, senti uma ansiedade estranha. Não sabia o porquê, mas a expectativa de encontrá-la me perturbava.
Não seja i****a. Ela não está o esperando nesta sala. Se estiver tão desconfortável com esta experiência i*****l, como você, não voltará para uma conversa casual com um estranho.
Abri a porta e, novamente, eu me vi na sala escura. Ridículo! Por que tem que ser escura? Sinceramente, isso me deixava mais confortável, embora eu soubesse que estávamos em um cômodo dividido e que, mesmo com alguma brecha de luz, não poderíamos ver um ao outro. E eu não quero vê-la. Só ficaria com os pensamentos mais confusos.
Sentei-me na poltrona e esperei que meu corpo dispersasse a tensão, porém, ao ouvir sua voz novamente, fiquei ainda mais tenso.
— Fiquei curiosa para saber se voltaria. — falou quase tão desconfiada quanto eu. — Eu não deveria estar aqui, mas gostei da conversa de ontem. Talvez o meu cérebro goste de uma tortura ou só esteja desesperado para dizer coisas que não falo a mais ninguém.
— No meu caso, não quis entrar no prédio. Fui alienado.
— É fácil manipulá-lo?
— Não. Eu estava tentando dar poder à parte mais consciente do meu corpo, que diz, até o momento, o quanto é errado tudo isso.
— É. Porém satisfatório também.
— Talvez seja o anonimato. — deduzi, achando mesmo uma outra resposta que não fosse o puro interesse nessa mulher.
— Talvez, apesar da semelhança entre nós.
— Acha que somos semelhantes?
— Bem... Apesar das diferenças das situações, sabemos o quanto isso é i****a, que não confiamos com tanta facilidade nas pessoas e que não queremos mais que uma conversa anônima. — pontuou.
Ela tinha razão, entretanto eu não diria isso com tanta facilidade, pois acabaria admitindo que gostava da sua presença.
— Algo me diz que você me entende, de uma forma estranha. Embora nossas situações sejam divergentes, passamos por decepções que nos impedem de viver até hoje.
Sim! É por isso que eu não conseguia parar de pensar nela. De alguma maneira, sentíamos e desejávamos o mesmo: ser entendidos e aceitos pelo que tínhamos nos tornado.
— Devo admitir que conversar com você me deixou pensativo. Minha vinda a este lugar não foi totalmente uma escolha r**m.
— É. Mas ainda falo que não tenho interesse algum em você. — Deu um riso brincalhão.
— Posso dizer o mesmo.
Claro. Seria ridículo gostar de alguém que, embora me entendesse, eu não conseguisse ver ou tocar. Sem falar no quesito confiança. Não importava quem fosse ela ou se compreendia os meus sentimentos; ainda não podia me deixar levar pelo momento e acabar me apegando a uma desconhecida com quem só havia conversado duas vezes até então.
— Você me parece cansado. Seu dia foi tão difícil quanto o meu?
Estava tão distraído, que só fui perceber que ainda estava na sala escura ao ouvir sua voz doce.
— Eu gosto do meu trabalho, porém lidar com burocracias cansa, principalmente quando se tem reuniões intermináveis. — Acomodei-me no lugar. Até parecia que já estava me acostumando à penumbra e à conversa agradável. — No entanto, lidar com chefes como os seus deve ser bem mais cansativo.
— É verdade. Mas, geralmente, uso o meu bom humor. Ou palavras de baixo calão, só na minha mente, é claro, para aliviar o estresse.
Eu ri.
Não queria gostar dela em nenhum sentido, entretanto era difícil desejar ir embora depois que começávamos a nos falar. Os minutos se passaram, e a conversa passou a ficar ainda mais interessante. Normalmente, odiava conversar, só que o anonimato me deixava acomodado.
— O que faz você acreditar que não merece afeto algum? — questionei depois que ela falou sobre a sua amizade com a mulher que elaborou o experimento louco. Sempre que eu tocava nesse assunto, conseguia notar em sua voz a mudança de humor.
Samantha era alegre, bem-humorada e sarcástica. E eu já sabia disso em menos de uma hora de diálogo entre nós.
— Posso até não conseguir confiar em um relacionamento, depois do que me aconteceu, mas ainda assim acredito que posso amar amigos leais ou minha família.
— Essa é a diferença entre nós dois. — disse nada alegre. — Fomos criados de formas diferentes. Você tem uma família amorosa que se preocupa com você, te liga sempre que pode e se interessa pela sua vida ou sentimentos. Eu nunca tive isso.
— Claro. Tem isso. Entretanto, não é porque você não tem uma família ou não foi adotada, que deve pensar que não merece ser amada.
— Não é porque você foi traído, que não deva acreditar no amor ou que não possa encontrar alguém decente. — rebateu ríspida.
Até o momento não tínhamos encontrado um conflito. Não tocávamos nas questões que mais nos machucava.
Acho que fui t**o ao pensar que poderíamos chegar a uma conversa agradável assim. Eu não falava muito sobre isso. Sei que a culpa não foi sua, e sim minha, por ter tocado no assunto.
— Me desculpe pela minha pergunta. Não quis colocá-la nessa situação. — Estava chateado comigo mesmo. — Acho que nossa conversa pode terminar por aqui.
Bem... O meu objetivo era acabar com o meu interesse desconhecido. Até achei difícil conseguir algo enquanto nós dois nos entrosávamos tão bem, nesse segundo “encontro”, então fiquei feliz por encontrar um motivo razoável para não voltar.
— Me desculpe. Eu não quis se grosseira.
Estava quase me levantando para ir embora, querendo ir sem intenção de pedir explicações, mas, por algum motivo, detive-me.
— É difícil lembrar e falar sobre isso. — O breve silêncio seguido da sua respiração profunda me dizia que, realmente, era difícil.
Eu não gostaria de ter tocado em um assunto que a deixou desconfortável.