capítulo 9

1189 Palavras
Samantha — Drama não é tedioso. —ele disse quase se defendendo. —De qual gênero você mais gosta?Romance? —acusava-me. Joseph e eu estávamos em uma intensa conversa sobre filmes, e minhas opiniões eram tratadas dessa forma.Ele sabia que eu o provocava. Semanas se passaram desde o nosso primeiro encontro, que não foi nada romântico. Eu gostava dos nossosdiálogos e não tinha medo de dizê-lo praticamente nada, nem mesmo os meus medos mais sombrios.Talvez fosse por conta do anonimato ou pela forma acolhedora como ele me recebia todos os dias. — Sou eclética, mas sempre durmo tentando assistir a dramas. —confessei sem me ofender. — Romance não é um dos melhores, porém é melhor do que drama. — Está assistindo aos filmes errados. — Ok, vamos mudar de assunto.Vejo que nossos gostos por filmes se divergem. —faleicom ironia, sabendo que ele odiava isso. Joseph era um homem clichê. Algo em que eu não poderia apostar quando o conheci. A resistência dele se desfez no nosso quarto encontro nesta sala e, a partir daí, vi um homem humorado e, infelizmente, fofo.Não que eu odiasse pessoas fofas.O problema era que, a cada dia, eu o via de formas diferentes.Desejava sempre correr para cá, contar para ele como tinhasido o meu dia de merda, brigar por coisas banais e acabar rindo de tudo. — Está fugindo para que eu não detone os seus filmes preferidos. —acusou-me novamente. — Levo as críticas muito bem, senhor sensível. —ironizei. Seu riso sempre surgia quando estávamos conversando. Gostava de tudo na nossa amizade, exceto a parte de que ela estava com um prazo para acabar. — Você acha que sempre seremos assim? —perguntou, deixando-me confusa. — Dois provocadores ou chatos? O breve silêncio me fez perceber que não estávamos mais em uma conversa animada. Eu não sabia quem Joseph era enunca tinha o visto, contudo conseguia entender seus modos e silêncios. Quando eram longos, sucedendo perguntas como a última, significavam que ele estava se questionando e me questionando, só que não de uma forma boa. —Eu não queria estar aqui e, três semanas depois, estamos nos falando como se fôssemos velhos amigos. — Bem...Surpresas do destino. —brinquei. — Eu não sabia que estaria aqui também.Foi uma bela surpresa. Não faço amizade com facilidade, se ainda não percebeu. — Samantha...— Pude ver que ele estava desanimado. — Há quatro anos perdi a confiança nas pessoas. Claro...Ainda há aqueles em quem posso confiar.Mas, fora isso, não me sinto à vontade para revelar muito de mim. — Conversamos muito durante as últimas três semanas. —pontuei, tentando entender aonde ele queria chegar. — É isso o que mais me impressiona. Já fazia um tempo que não voltávamos a conversas como essa. Conversávamos sobre temas assim,só que evitávamos os assuntos, deixando à mostra as partes boas da nossa vida. Tambémjá passamos horas conversando sobre o nosso passado e sobre o que nos atormentava. Era reconfortante saber que havia outro alguém que me entendia. — Não imaginava que gostaria de vir a este lugar ou que falaria sobre isso. Você sabe, tanto quanto eu, que nossa amizade é surpreendente.—prosseguiu. — Claro que sim.Eu não diria tudo aquilo a um estranho. —brinquei. — Mas sou um estranho, não sou? — Você é o meu amigo anônimo.Posso não saber quem você é, mas não é um estranho para mim. Ouvi um riso do outro lado, todavia não foi algo que lhe trouxe humor, parecia mais um deboche. — Será que não vê que isso é de verdade? —questionou irritado. — Sabe o que estou vendo? —Eu me irritei logo em seguida. — Vejo que está tentando estragar a nossa noite e, quem sabe, nossa estranha amizade. — Temos, claramente, visões diferentes.Ou você realmente sabe o que está acontecendo e está ignorando as coisas. — Por que estamos discutindo? Só tínhamos mais um encontro antes de tudo acabar e, do nada, Joseph mudou completamente de assunto, levando-nos a talestado de espírito.Eu sabia aonde ele queria chegar agora, e estava odiando.Sempre que pensava nisso, sentia-me estranha. — Não é uma discussão.Sabe disso. —falou em um tom mais ameno. — O problema é que somos praticamente estranhos e nos apegamos aos nossos momentos. — Gostamos de conversar um com o outro.Não é um crime. — É novo e estranho. — Achei que eu fosse a antissocial, e você o medroso dos relacionamentos. —provoquei.— Não tem por que pontuar essas coisas, Joseph. — Temos dificuldade em confiar nas pessoas, mas isso parece se anular quando estamos juntos. — Amanhã tudo acaba. —Éo que me preocupa. — Deu para perceber seu desânimo.E, pior, eu sentia o mesmo. Que merda você deixou acontecer, sua i****a?— Será loucura, simplesmente, fingir que os últimos dias não aconteceram, Samantha. —É o que você queria desde o início. — Cruzei os braços, zangada. Contudo, como ele não podia me ver, perdia toda a graça. — O que está querendo dizer?Que pensa em pegar o meu número e me ligar sempre que quiser desabafar? — Eu queria não achar tudo estranho. Sim, estávamos em uma ótima conversa, mas a todo tempo não conseguia tirar esses pensamentos da cabeça. O que isso queria dizer?Não, eu não podia imaginar muitas coisas.Era lógico que ele não queria perder uma amiga.Não significava que... — Seja mais claro, Joseph.—exigi, temendo sua resposta. —Me desculpe. Sei que parece esquisita toda essa conversa.O que quero dizer é que podemos continuar a nossa amizade longe desta sala escura. Era o mais perto do que eu queria ouvir.Nada de sentimentos.Contudo, fiquei decepcionada ainda assim. Acabei relaxando depois, rindo da situação. Nunca pensei que estaria em um debate sobre uma suposta amizade com um anônimo. É ridículo brigar por isso. — Tudo bem, Joseph.Não precisa surtar. —Ainda tentava entender as coisas. — Vamos fazer assim: amanhã, em nossa última conversa aqui, se ainda desejar o mesmo, posso dizer quem sou ou te dar o meu número. Não vai precisar fazer todo o ritual novamente para ter uma amiga. — Você está tirando sarro de mim por desejar continuar conversando com você? — Não, só estou surpresa por alguém querer tanto ser meu amigo. Geralmente, as pessoas fogem de mim. — Não vamos exagerar.Às vezes somos nós quem nos afastamos delas. — Se continuar me acusando dessa forma, vou mudar de ideia sobre a amizade. —brinquei. — Devo confessar que todo o mistério me deixa perturbado. Não queria analisar cada palavra que saía da sua boca, no entanto ficava difícil quando elas me deixavam ansiosa e confusa. Sentir medo de ser rejeitada não era nada bom, eo anonimato me ajudava a ficar firme, concentrada. Não podia negar que desejavaconhecê-lo e continuar com nossa amizade, só que aquela pontinha, no fundo do peito, deixava-me receosa. — Então, até amanhã, Joseph. —Levantei-me do lugar o mais rápido possível. — Já está se despedindo? Fugindo? — Não me analise, ou vamos brigar de novo. —falei irritada. —Eu não estava brigando com você. — Eu sim.Boa noite. — Até amanhã, Samantha.
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