Ariane
O morro muda de respiração quando alguém poderoso está por perto.
É uma coisa difícil de explicar para quem nunca viveu ali.
Não é silêncio exatamente.
É mais como uma pausa coletiva. Um cuidado invisível nas conversas. Um olhar rápido para os lados antes de falar algo que talvez não devesse ser dito.
Naquela noite, a Rocinha respirava assim.
Eu senti antes mesmo de chegar na escadaria que levava até o antigo campo de futebol, hoje transformado em ponto de encontro dos homens de Kido.
As luzes improvisadas penduradas em fios iluminavam a área de forma irregular, criando sombras compridas nas paredes de concreto.
E ali estavam eles.
Homens armados encostados nas grades.
Alguns sentados em motos.
Outros apenas observando.
Quando me viram subir os últimos degraus, o movimento diminuiu.
Ninguém tentou me impedir.
Mas todos sabiam quem eu estava procurando.
Um dos rapazes, que eu reconheci vagamente da infância, falou baixo no rádio preso ao ombro.
— Ela chegou.
Meu coração bateu mais forte, mas eu continuei caminhando.
Porque fugir não era mais opção.
Não depois de tudo.
Não depois da explosão do carro do Erick.
Não depois da conversa com meu tio.
E definitivamente não depois de ouvir o nome que agora dominava cada esquina da Rocinha.
Kido.
O novo dono do morro.
Atravessei o campo devagar.
E então eu o vi.
Ele estava encostado no capô de um carro preto, de braços cruzados, conversando com dois homens. Quando me aproximei, a conversa morreu imediatamente.
Os homens olharam para mim.
Depois para ele.
Kido levantou os olhos.
E, por um momento estranho, o tempo pareceu dobrar sobre si mesmo.
Porque eu não vi apenas o homem que controlava a Rocinha.
Eu vi também o garoto.
O menino magro que corria pelas mesmas vielas que eu.
O garoto que roubava manga no quintal da Dona Lurdes.
O garoto que sempre aparecia nas rodas de música quando eu improvisava rimas.
Mas aquele garoto tinha desaparecido há muito tempo.
No lugar dele havia um homem.
Mais alto.
Mais largo.
Cabelo raspado nas laterais, barba curta e escura, uma cicatriz fina atravessando a sobrancelha esquerda.
Os olhos continuavam os mesmos.
Escuros.
Intensos.
E agora… perigosos.
Ele se afastou do carro devagar.
— Ariane.
A forma como ele disse meu nome fez algo estranho apertar no meu peito.
— Kido.
O silêncio ao redor ficou pesado.
Os homens dele continuavam ali, observando cada movimento.
Mas ninguém falou nada.
Ele fez um pequeno gesto com a cabeça.
Os dois homens que estavam ao lado dele se entenderam imediatamente e se afastaram alguns metros.
Agora éramos apenas nós dois no centro daquele campo iluminado.
Por um momento, nenhum de nós falou.
Então ele deu um passo mais perto.
— Faz tempo.
— Muito.
A voz dele estava mais grave do que eu lembrava.
Mais calma também.
— Você mudou — disse ele.
Eu soltei uma pequena risada sem humor.
— Todo mundo muda no morro.
— Nem todo mundo vira a voz da comunidade.
Cruzei os braços.
— Nem todo mundo vira dono dela.
Os olhos dele brilharam um pouco.
— Eu não sou dono.
— Então como você se apresenta?
— Como alguém que mantém as coisas funcionando.
Aquilo soava muito com algo que meu tio diria.
O pensamento me irritou.
— Engraçado.
Inclinei a cabeça.
— Porque parece que muita gente está morrendo por causa desse funcionamento.
A expressão dele endureceu um pouco.
— A Rocinha sempre teve guerra, Ariane.
— Mas agora tem você.
— E antes tinha outros.
Ele deu mais um passo.
Agora estávamos perto o suficiente para eu sentir o cheiro leve de cigarro e chuva na camisa dele.
— A diferença — continuou ele — é que eu nasci aqui.
— Eu também.
— Eu sei.
O silêncio voltou por alguns segundos.
Então eu disse a pergunta que vinha queimando na minha cabeça.
— Você está trabalhando com o Zeca?
Os olhos dele não desviaram dos meus.
— Eu converso com ele.
Meu estômago apertou.
— Por quê?
Kido soltou um suspiro baixo.
— Porque ele conhece esse lugar melhor do que qualquer um.
— Ele vendeu esse lugar.
— Ele tentou negociar o futuro.
— Isso não é a mesma coisa.
— Às vezes é.
Minha raiva voltou quente.
— Então você acredita nele?
— Eu acredito em resultados.
— E eu sou parte desse resultado?
Ele ficou em silêncio por um momento.
Então disse algo que eu definitivamente não esperava.
— Sempre foi.
A frase ficou suspensa entre nós.
— O que isso quer dizer?
Kido passou a mão pela barba, como se estivesse decidindo algo.
Quando falou novamente, a voz estava mais baixa.
Mais pessoal.
— Você se lembra da quadra velha atrás da escola?
Meu coração deu um pequeno salto inesperado.
— Aquela onde a gente jogava bola?
— Aquela onde você cantava no intervalo.
As memórias vieram rápido demais.
O sol batendo no concreto quente.
As crianças gritando.
Eu improvisando rimas enquanto alguns colegas batiam palma.
E Kido…
Sempre ali.
Encostado no muro.
Ouvindo.
— Você ficava olhando — murmurei.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Sempre.
— Por quê?
Os olhos dele se prenderam nos meus.
E dessa vez não havia jogo.
Nem estratégia.
Só uma verdade crua.
— Porque eu sempre fui apaixonado por você.
O mundo pareceu inclinar um pouco.
Eu pisquei.
— O quê?
— Desde aquela época.
O ar ficou pesado ao redor.
— Você nunca percebeu.
— Eu… a gente era criança.
— Eu sei.
Ele se aproximou mais um passo.
Agora estávamos tão perto que eu podia ver as pequenas marcas na pele dele.
Cicatrizes que o tempo no morro deixa em quem sobrevive.
— Mas o tempo passou — continuou ele.
— E eu nunca parei.
Meu coração batia forte demais.
— Kido…
— Eu vi você crescer.
— Eu vi você virar essa mulher que o morro inteiro escuta.
— Eu vi quando começaram a falar do empresário.
A forma como ele disse isso mudou o ar da conversa.
Mais fria.
Mais perigosa.
— Erick — falei.
O nome saiu firme.
Os olhos dele escureceram.
— É.
— Qual é o problema com ele?
Kido deu uma pequena risada sem humor.
— Ele acha que entende esse lugar.
— Ele está tentando ajudar.
— Com dinheiro.
— Com oportunidades.
— Com promessas.
A tensão voltou entre nós.
— Você acha que ele está usando você — disse Kido.
— E você não?
A pergunta saiu antes que eu pudesse segurar.
Ele ficou em silêncio por um momento.
Então respondeu.
— Se eu quisesse usar você, já teria feito isso.
— Então o que você quer?
Os olhos dele me atravessaram.
— Que você fique.
— No morro.
— Aqui.
— Com a gente.
Meu peito apertou.
— Você não pode decidir isso por mim.
— Eu sei.
— Então para de agir como se pudesse.
Kido respirou fundo.
Depois disse algo que fez um frio subir pela minha espinha.
— Só tem uma coisa que você precisa entender, Ariane.
— O quê?
Ele inclinou a cabeça levemente.
— O morro não confia em homens do asfalto.
O nome de Erick estava implícito ali.
Pesado.
— E você?
Perguntei baixo.
— Você confia?
Os olhos dele se suavizaram por um segundo.
— Em você?
Ele deu um pequeno passo para trás.
— Sempre confiei.
O vento noturno passou pelo campo, levantando poeira do chão.
E pela primeira vez desde que cheguei ali…
Eu percebi algo assustador.
Essa guerra não era apenas sobre poder.
Nem sobre território.
Era sobre escolhas.
E, no meio de tudo aquilo, dois homens completamente diferentes estavam esperando para ver qual lado eu escolheria.