O lugar estava escuro, só tínhamos ondas de calor a nosso favor. O lugar era um galpão de trampos ilegais e nós estávamos numa briga territorial. Eu, Mars e mais uma equipe, estávamos a mando de Espano. Mesmo esquema. Grana no bolso, trabalho feito. Abordamos alguns movimentos, depois de já ter fodido com metade de nossas energias matando os foddões da entrada, estávamos no estágio final.
— Vamos invadir! — um rettardado apressado tentou passar na frente, eu segurei o bonitão pelos acessórios do peito e o puxei para trás, fazendo minha melhor pose de mall.
— Vou invadir o teu reggo com aquela tora jogada ali no canto. — ele franziu o cenho e eu não dei oportunidade — Que dar seu peito pra tomar tiro? Se fodde sozinho. Nós estamos em equipe. Se fizer uma merda dessa entrega todo mundo, e por causa da tua pressa, todo mundo se fodde. Então sossega teu rego peludo, se não quiser levar umas toradas depois.
Ele se irritou, se afastou das minhas mãos e bufou impaciente.
— Quem te colocou no comando?
— O Espano. — lembrou Mars — E o cara está certo. Quer fodder com todo mundo?
— Movimento à frente. — interrompi a conversa, baixei os óculos e dei sinal.
Senti um golpe na panturrilha, segurei a porrra da dor e ajoelhei com a pressão e a mira na minha testa. O irritadinho tentou um golpe.
— Ninguém se mexe, e f**a-se o Espano! — o carinha gritou, as trocas de tiro se iniciaram e, claro, ele foi o primeiro a cair no chão com a cabeça furada.
Tivemos que desviar, Mars e eu estávamos na mesma direção, estávamos em desvantagens. Utilizamos as granadas, tivemos um efeito colateral, e mesmo com o lugar virando uma labareda, abrimos o campo de frente. Não tínhamos outra opção, então metemos o peito aberto e usamos o fogo a nosso favor. Invadimos o último setor, subimos as escadas, vez ou outra desviando ou investindo em tiros, chegamos ao corredor principal e entramos em confronto. Mars e eu éramos uma caraleo de uma dupla, o cara não era grandão à toa, nocauteava com facilidade e eu atirava a longa distância. Corremos o risco, saímos ilesos e invadimos o escritório.
Atrás da mesa um homem, fumando um charuto e olhando o fogo pegar de lá de cima. Ele estava calmo, já entregue aos fins.
— Soube que você é a nova arma letal de Espano. — ele resmungou, ciente do que viemos fazer — Geralmente fazemos um estrago maior, mas você resolveu isso muito bem. Exército americano? — Mars fechou a porta, pegou o aparelho celular e eu me coloquei ao lado do p****e — Mande lembranças ao Prime.
Estremeci com a menção, Mars deu o ok e filmou o momento em que puxei o gatilho. A bala saiu do outro lado da cabeça do velho, levando o corpo do homem para o lado e o fazendo cair da cadeira, já morto. Eu cerrava os dentes e olhava o corpo sem vida aos meus pés.
— Relaxa. — Mars notou meu nervosismo depois de guardar o aparelho — Eles sempre sabem. Eu ficava desesperado quando eles falavam de Thayla, minha irmã. Corria de volta com o r**o entre as pernas, com medo de levá-la. É um blefe, pra te fazer baixar a guarda.
[...]
Eu não conseguia fazer um caraleo de trampo e ficar numa boa depois. A adrenalina ainda me energizava por um tempo. Quando cheguei, Érina dormia tranquilamente na sua cama e no seu quarto. Eu dormia na sala, mas ao invés de dormir estava suando, tentando gastar os resquícios de adrenalina grudado no sistema.
Eu via o chão se aproximar e voltar, via a gota de suor escorrendo pelo meu nariz e pingar no chão, junto a franja lisa do cabelo ruivo colado na testa. A televisão muda iluminava o lugar de um modo parcial, o peito desnudo escorria e o moletom cinza grudava no suor das canelas. A respiração era cansativa, mas eu ainda estava um pouco longe de aliviar a tensão.
— Quando foi que você chegou?
Eu olhei para cima, vi ela acionar o interruptor e cruzar os braços, enquanto se apoiava na parede dentro de um short curto e uma blusa frouxa de pijama. Tentei desviar meus olhos dos peitinhos sem sutiã, do bico marcando na blusa branca e forcei as flexões, torcendo pro meu p***o ficar no lugar.
“Não se come a irmandade, parça! Não se come a irmandade!”
Eu sei lá quantas vezes repeti essa porrra. Tentei me concentrar no exercício, espremi minhas mãos com força no chão e cerrei os dentes.
— Não faz muito tempo. — resmunguei, tentando pensar num ccú de velha murcha e cheio de pelos brancos pra ver se eu broxava, mas a mina não colaborava. Ela podia só se retirar, mas ainda estava lá.
— Achei que ia me acordar.
— Pra quê? — retruquei impaciente.
— Como assim, pra quê? — ela pareceu chateada.
Só então me recordei da notícia. Ela está grávida e confirmou isso, eu tive que sair bem naquela hora e ela acabou ficando sozinha. Ainda éramos uma irmandade… Não estávamos compartilhando missões, mas consequências. Eu parei, me levantei devagar e respirei cansado, ainda pingando, vendo ela com o olhar baixo e mordiscando os lábios um tanto sem graça.
— Desculpe. Eu só… — ela soltou baixo, virou as costas e saiu sem concluir.
Caminhei devagar até a porta do quarto, respirei fundo — ainda expondo cansaço, pensei em abrir a porta mas contive minhas mãos. Tive a impressão de ouvir um choro baixo e grudei minhas testa contra a porta, com um milhão de pensamentos de merdas rondando minha cabeça.
— Eu matei um cara. — confessei de olhos fechados, como se aquilo fosse resolver alguma coisa — Ele conhecia o Iron. Quem ainda não conhece, daqui a pouco vai saber. Eu sou o novo brinquedo do Espano. O Gângster está me mandando pra uns trampos pesados, do tipo que um ex-soldado leva vantagem. Eu só estou uma pilha. Não te acordei porque a última coisa que você precisa é de um mané fodido e pilhado, então pensei em fazer isso depois. — ela não abriu a porta, mas pareceu parar de chorar — Parabéns, gracinha. A gente vai se dar bem. Vai ficar tudo bem.
Era uma p**a de uma mentira. Eu não fazia ideia do que ia acontecer, nem do que a gente ia fazer. Mas, pelo menos isso fez ela abrir a porta. E sim, ela tinha os lábios carnudos e eles incham quando ela chora. Parecia uma b****a que tinha acabado de levar uma paulada boa. Por isso engoli em seco e tentei pensar, de novo, no ccú peludo de uma velha murcha, mas não estava adiantando…
— Quer voltar pro quarto e abrir a porta depois? Tem um negócio inchado na sua boca, tá parecendo um xanão…
Ela sorriu, triste, mas sorriu.
— i****a! — resmungou me abraçando, pouco se importando com meu suor — Fedido. — no fim ela se importou com o suor, mas eu não liguei, só devolvi o abraço e beijei o topo da sua cabeça — Obrigada, Dom. — suspirou, muito mais tranquila — Eu não sei o que ia fazer se eu estivesse sozinha.
Eu sei. Ela ia estar se virando. Ela não é assim. Ela só está grávida e assustada, e quando isso passar, vou ser dispensável. Quando ela voltar à real, as consequências vão ter sumido e a irmandade vai ser uma lembrança. Só não preciso dizer isso a ela, porque no fim ela vai descobrir isso sozinha. O tempo era uma merda de um inimigo…