A tempestade

1606 Palavras
A noite em San Benedetto parecia mais densa do que o habitual. O vento que descia das colinas agitava os ciprestes como se até a natureza pressentisse que algo estava prestes a acontecer. Dentro da pequena igreja, o silêncio era quebrado apenas pelo ranger ocasional das portas de madeira, que cediam diante da corrente fria. Domenico permanecia diante do altar, a batina n***a contrastando com as velas acesas. Ele não estava rezando. Seus olhos fixos no crucifixo pareciam buscar respostas que não vinham — ou talvez apenas coragem para enfrentar o que se aproximava. A porta se abriu. Alfonso Greco entrou com passos lentos, o corpo arqueado pelo peso da idade, mas os olhos ainda carregavam um brilho de astúcia e experiência. Naquele momento, parecia mais uma sombra arrastada pelo vento do que um homem, mas havia nele uma presença que ninguém ousaria ignorar. — Padre Domenico… — a voz rouca ecoou no espaço. — Ainda acordado? Ou seria mais correto dizer: ainda em vigília? Domenico se voltou para ele, sem demonstrar surpresa. Já esperava a visita. — Vigiar tornou-se minha rotina, senhor Greco. A cada noite, pergunto-me se é a última em que encontrarei paz dentro destas paredes. Alfonso aproximou-se, apoiando-se no cajado de madeira. Sorriu de um jeito que não era exatamente alegre, mas carregado de ironia. — Paz? — repetiu. — É um luxo que já não pertence a este lugar. O cheiro da pólvora está no ar, mesmo antes de qualquer tiro ser disparado. E todos fingem não perceber. Menos o senhor, é claro. Domenico suspirou, apertando as mãos atrás das costas. — Fingir não é uma opção. San Benedetto já não é apenas uma cidade esquecida. Tornou-se alvo. E a cada confissão, a cada olhar de medo que recebo, sei que a tempestade está cada vez mais próxima. Alfonso o observou por alguns instantes em silêncio, como se estudasse as feições jovens do padre, medindo sua determinação. — O senhor fala como um homem que se prepara para a guerra — comentou. — Mas não esqueça: está vestido de batina, não de farda. — Às vezes — respondeu Domenico, firme — é preciso lutar mesmo sem armas nas mãos. A farda impõe respeito, mas a palavra certa pode salvar mais do que uma espada. Ou condenar, se m*l empregada. O velho estreitou os olhos, a expressão endurecendo. — Então fale, padre. Diga-me: o que pretende fazer quando eles chegarem? Quando esses homens, esses lobos famintos, baterem às portas da cidade? Vai enfrentá-los com sermões? Vai erguer a Bíblia como escudo? Domenico não desviou o olhar. — Pretendo proteger os inocentes. Custar o que custar. O silêncio se alongou, pesado. Alfonso então soltou uma risada curta, seca. — Corajoso. Ou insensato. Mas é isso que o torna perigoso, padre. — Ele se aproximou ainda mais, a sombra de seu corpo projetando-se junto à de Domenico. — Já lhe disse: há olhos sobre esta cidade. E não são olhos piedosos. Há homens que se alimentam da fragilidade dos outros. E entre eles, alguns já sabem quem é Domenico Moretti. O nome ecoou como uma ameaça velada. Domenico manteve a postura, mas por dentro a tensão se intensificava. Sabia que Alfonso não falava à toa. O velho tinha contatos, sabia mais do que deixava transparecer. — Se sabem quem eu sou — disse em tom grave —, então também sabem que não recuarei. Alfonso inclinou levemente a cabeça. — É exatamente isso que temo. O senhor ainda acredita que pode salvar todos. Mas há guerras em que a salvação não está ao alcance de um homem, nem mesmo de um padre. O diálogo foi interrompido pelo som da porta da igreja rangendo mais uma vez. Elena entrou, o rosto pálido, os olhos azuis marejados. Usava um xale fino que m*l protegia do vento. Ao vê-los, hesitou, como se tivesse interrompido algo importante. — Padre Domenico… — sua voz era suave, mas carregava urgência. — Preciso falar com o senhor. Domenico se voltou imediatamente, o semblante suavizando apenas para ela. — Claro, filha. Venha. Elena aproximou-se, lançando um rápido olhar a Alfonso, que a observava com interesse silencioso. Havia algo desconfortável naquele olhar, e ela apressou o passo até o padre. — Minha irmã… — começou, a respiração entrecortada. — Hoje à tarde, quando voltávamos para casa, havia dois homens parados na esquina. Nunca os vi antes. Eles… eles nos seguiram até quase a porta. Eu senti. E Sofia também percebeu. Ela não consegue parar de chorar. Domenico franziu o cenho, o coração acelerando. Não era apenas paranoia. A ameaça estava cada vez mais próxima. — Eles disseram algo? — perguntou. — Não. Apenas… apenas sorriram. Mas não era um sorriso normal. — Elena tremeu, lembrando-se da cena. — Era como se já soubessem quem éramos. Alfonso pigarreou, atraindo a atenção deles. — E sabem. — Sua voz ressoou fria. — Esses homens não andam sem propósito. Se a seguiram, menina, é porque alguém lhes mandou. E se alguém lhes mandou, é porque esta cidade já está marcada. — Ele voltou-se para Domenico, os olhos carregados de gravidade. — Está vendo? O que lhe falei não é mera teoria. A sombra já está dentro dos muros. Elena olhou de um para o outro, assustada. — Padre… o que vai acontecer conosco? Domenico segurou as mãos dela entre as suas, firme. — Nada lhe acontecerá, Elena. Nem a você, nem à sua irmã. Enquanto eu respirar, terão p******o. Ela o fitou, os olhos marejados brilhando com um misto de medo e confiança. Sentia que podia acreditar nele, mesmo que o mundo inteiro desmoronasse. Foi então que um estampido seco ecoou do lado de fora. O som inconfundível de um disparo. As velas tremeram com a corrente de ar que atravessou a igreja, trazendo consigo o cheiro distante de pólvora. Elena levou as mãos à boca, sufocando um grito. Alfonso ergueu as sobrancelhas, sem surpresa. — Eis o anúncio da tempestade — murmurou. Domenico reagiu imediatamente. Correu até a porta principal, empurrando-a com força. Do lado de fora, a rua estava deserta, mas o eco do tiro ainda reverberava entre as casas de pedra. Ao longe, gritos começavam a se formar, janelas se abriam, vozes confusas ecoavam. A calma de San Benedetto havia sido quebrada. Elena o alcançou, o rosto em pânico. — Padre, e se for nossa casa? E se Sofia…? Ele a segurou pelos ombros, firme. — Escute-me. Volte para dentro. Agora. Leve Alfonso consigo e tranque a porta. Não saia até que eu retorne. — Mas… — Não discuta, Elena. Vá! Ela obedeceu, ainda que relutante, puxando Alfonso de volta para dentro. Domenico, então, desceu os degraus da igreja e caminhou pela rua estreita, atento a cada sombra. O coração pulsava forte, mas a mente estava fria. Sabia que o ataque era apenas o início, um aviso. Mas também sabia que precisava ver com os próprios olhos. Quando dobrou a esquina, encontrou a origem do tumulto. Um carro preto estava parado no meio da rua, com as portas abertas. No chão, uma figura caída: um homem do vilarejo, um simples comerciante, jazia com sangue escorrendo do ombro. Ao redor, vizinhos gritavam, tentando socorrê-lo. Os disparos haviam sido contra um inocente, alguém sem relação direta com nada. Ou talvez fosse apenas isso: um recado de que ninguém estava seguro. Domenico ajoelhou-se ao lado do homem, pressionando a ferida com o pano de sua batina. — Fiquem firmes — disse aos vizinhos. — Tragam água, tragam panos limpos! Rápido! Enquanto cuidava dele, sentia os olhos observando das sombras. Não precisava ver para saber que havia homens ali, assistindo, avaliando. Era um jogo. E ele acabara de ser oficialmente puxado para dentro dele. --- Horas depois, de volta à igreja, o ambiente estava carregado. Elena permanecia de mãos dadas com Sofia, que tremia em silêncio, os olhos arregalados pelo medo. Alfonso observava tudo com expressão sombria, como alguém que já havia previsto cada detalhe. — Foi apenas o começo — disse o velho, quebrando o silêncio. — Eles não vão parar até que todos saibam quem manda. E quando perceberem que o senhor, padre, é o único capaz de inspirar resistência… — fez uma pausa, o olhar fixo. — Vão tentar calá-lo. Domenico não respondeu de imediato. Caminhou até o altar, respirando fundo, buscando forças no silêncio do templo. Por fim, voltou-se para eles. — Então terão de tentar muito. — Seus olhos encontraram os de Elena, depois os de Sofia. — Porque não vou permitir que a escuridão engula esta cidade. Alfonso soltou um suspiro, entre resignado e impressionado. — Teimosia ou fé inabalável… às vezes não sei a diferença. Mas admito: talvez seja disso que precisemos agora. Elena se levantou, aproximando-se do padre. — O senhor não pode enfrentar isso sozinho. — Sua voz era firme, apesar do medo. — Se realmente querem nos destruir, então precisamos estar preparados. Eu posso ajudar. De alguma forma. Domenico a fitou com intensidade, hesitando apenas por um instante. Depois, assentiu. — Talvez tenha razão. Mas se fizer isso, Elena, sua vida mudará para sempre. — Sua voz era grave. — Ainda deseja carregar esse peso? Ela ergueu o queixo, determinada. — Minha vida já não é leve há muito tempo, padre. Mas se posso proteger Sofia, então não tenho escolha. O silêncio que se seguiu foi carregado de promessas não ditas. Domenico sabia que, a partir dali, nada mais seria como antes. A guerra havia começado em San Benedetto. E dentro daquela igreja, formava-se uma resistência que ninguém esperava. No fundo, o vento voltou a soprar pelas frestas, trazendo consigo o sussurro da tempestade que finalmente chegara.
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