Vozes do passado

1172 Palavras
O silêncio da igreja após a missa parecia mais denso do que de costume. A luz do fim da tarde entrava pelos vitrais, tingindo o chão de tons rubros e dourados, como se o próprio espaço sagrado carregasse a lembrança de sangue e redenção. Domenico permanecia de pé diante do altar, ainda vestido com a batina, o semblante austero escondendo a inquietação que lhe consumia os pensamentos. O velho permanecia sentado a alguns bancos de distância, o chapéu surrado entre as mãos e os olhos claros, quase turvos, fixos nele. Não era a primeira vez que homens estranhos apareciam em sua vida, mas havia algo naquele olhar que despertava não apenas desconfiança, mas também a lembrança de um passado que ele lutava para sepultar. — Bela homilia, padre Domenico — disse Alfonso Greco, a voz rouca ecoando no espaço vazio. — Mas quem já viu a guerra atrás dos altares sempre reconhece quando as palavras escondem feridas. Domenico não respondeu de imediato. Aproximou-se devagar, os passos ecoando firmes pelo piso de mármore. — Não costumo conversar com desconhecidos dentro da casa de Deus — replicou com calma. — O que deseja? Alfonso sorriu de lado, sem humor. — Talvez não sejamos tão desconhecidos assim. O olhar de Domenico se estreitou. — Explique-se. O homem inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Sou apenas alguém que lembra de um certo jovem Moretti, antes de vestir essa batina. Um rapaz de olhos sombrios, mãos rápidas e coração duro. Um que jurava fidelidade a homens que não eram santos. O silêncio que se seguiu foi quase sufocante. Domenico conteve a tensão, mas seus dedos cerraram discretamente ao lado do corpo. — Está enganado — disse por fim, a voz firme. — Não conheço a quem se refere. — Claro que conhece — retrucou o velho, num tom baixo, quase íntimo. — Os pecados do passado não se apagam com vestes novas. E a máfia não esquece. Domenico inclinou-se levemente para a frente, a sombra cobrindo-lhe parte do rosto. — Se veio aqui para fazer ameaças, deveria escolher outro lugar. — Não é ameaça — respondeu o velho, erguendo o olhar para encará-lo. — É aviso. Há homens que ainda pronunciam o nome Moretti com raiva nos lábios. E agora, ao que parece, o padre de fachada já não passa despercebido. Elena observava de longe. Ainda não havia deixado a igreja. Tinha ficado um pouco mais, alegando para si mesma que queria rezar em silêncio, mas a verdade era outra: algo em seu coração pedia para permanecer. Sentada perto da porta lateral, via os movimentos de Domenico e do velho estranho. Não conseguia ouvir as palavras, mas a postura dos dois falava alto. As mãos dela se entrelaçaram nervosamente. Sentia uma estranha pressão no peito, como se estivesse diante de algo que não compreendia por inteiro, mas que poderia mudar tudo ao seu redor. — Por que agora? — perguntou Domenico, quebrando o silêncio. — Porque alguém já notou sua ligação com aquela moça — respondeu o velho, apontando discretamente em direção ao fundo da igreja, onde Elena ainda permanecia sem que eles percebessem. O sangue de Domenico gelou por um instante, embora seu rosto continuasse impassível. — Deixe-a fora disso — disse em tom baixo, quase ameaçador. O velho ergueu as sobrancelhas. — Então é verdade. Ela significa algo para você. Domenico respirou fundo, recobrando o controle. — Você está equivocado. — Estou velho, mas não cego. — O homem ajeitou o chapéu entre as mãos. — O mundo lá fora continua c***l, padre. Mais c***l do que você se lembra. E se não abrir os olhos, arrastará inocentes para o mesmo abismo que tentou abandonar. Enquanto isso, Elena saiu finalmente, perturbada pela sensação de ter testemunhado um segredo proibido. O vento frio da rua bateu contra seu rosto, mas não foi suficiente para afastar a inquietação. Pensava em Sofia, que a esperava em casa, e no pai, que provavelmente já estaria embriagado. Mas, acima de tudo, pensava naquele padre. Que tipo de vida ele realmente escondia? Naquela noite, em casa, o ambiente era sufocante. O cheiro de álcool impregnava cada canto da sala. O pai estava jogado na poltrona, resmungando sobre dívidas e azar, exigindo que Elena entregasse todo o dinheiro da semana. — Você acha que pode me enganar, menina? — bradou, erguendo a voz. — Esse trabalho miserável seu não serve pra nada se eu não vir a cor do dinheiro! Elena manteve-se firme, segurando a mão trêmula de Sofia atrás dela. — Já entreguei quase tudo, papai. O que guardei foi para a comida. Sofia precisa comer. O homem avançou um passo, os olhos injetados. — Insolente! A bofetada não veio apenas porque Sofia chorou alto, atraindo a atenção do vizinho que bateu na parede, reclamando do barulho. Elena suspirou, aliviada, e puxou a irmã para o quarto. Ali, abraçadas, tentou transmitir a segurança que não sentia. — Vai passar, Sofia. Eu prometo. Mas no fundo, sabia que nada passaria tão fácil. Enquanto isso, Domenico caminhava sozinho pelos corredores escuros da casa paroquial. A conversa com o velho ecoava em sua mente. Ele se sentia como alguém que tenta apagar rastros na areia enquanto a maré insiste em voltar. Horas depois, sentado à escrivaninha, recebeu um envelope deslizado por baixo da porta. Dentro, apenas uma frase escrita em tinta vermelha: "Os pecados cobram seu preço, padre Moretti." O coração dele acelerou. No dia seguinte, Elena voltou cedo à lanchonete onde trabalhava. Tentava distrair-se, mas não conseguia esquecer o olhar carregado de Domenico na véspera. Atendia clientes com o sorriso automático, mas a mente vagava. Uma colega comentou em voz baixa: — Você viu aquele velho estranho na missa? Todo mundo comentou depois. Dizem que parecia esperar por alguém. Elena fingiu indiferença, mas por dentro a curiosidade queimava. Naquela tarde, Domenico encontrou o velho novamente, desta vez no pátio atrás da igreja. — Não volto a repetir — disse o padre, a voz firme. — Não se aproxime mais dela. O velho riu baixo. — Como se fosse tão simples, Domenico. Quem viveu no fogo nunca se livra das cinzas. Domenico o encarou com frieza. — Se tentar usar o nome dela outra vez, não responderei como padre. O silêncio que seguiu era quase palpável, cheio de ameaças não ditas. Enquanto isso, Elena caminhava com Sofia de volta para casa após comprar pão com as poucas moedas que ainda tinham. A irmã, de olhos grandes e cheios de medo, perguntou baixinho: — Ele vai bater de novo hoje? Elena apertou-lhe a mão. — Não, Sofia. Não enquanto eu estiver aqui. Mas em sua mente ecoavam as palavras que ouvira na confissão e a lembrança daquele velho misterioso. Havia algo em movimento, algo maior que ela não entendia, mas que parecia arrastá-la cada vez mais para perto daquele padre que escondia segredos. E, no fundo, Elena sabia: não era apenas fé que a mantinha presa àquela igreja. Era Domenico. E a ameaça que o rodeava já começava a alcançá-la também.
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