Ecos da tempestade

1398 Palavras
O vento batia forte contra as janelas da pequena casa de Elena, como se quisesse arrancar a frágil estrutura do lugar. Dentro, as paredes estreitas pareciam mais sufocantes do que nunca. O pai dormia na sala, o corpo largado no sofá, o cheiro de álcool impregnando cada canto. As garrafas espalhadas pelo chão eram testemunhas silenciosas de sua ruína. Elena caminhava devagar, com o coração pesado, segurando a mão de Sofia. A irmãzinha tinha os olhos marejados, os cabelos loiros desgrenhados pelo sono interrompido. — Está tudo bem, Sofia — murmurou Elena, puxando a menina para o quarto delas. — O papai está dormindo. Ele não vai nos incomodar agora. Sofia não respondeu de imediato. Sentou-se na cama estreita, abraçando o travesseiro. Seu olhar infantil carregava uma maturidade triste, fruto de noites passadas em silêncio, tentando se esconder da fúria paterna. — Elena… — disse por fim, em voz baixa. — Ele nunca vai mudar, vai? A pergunta atingiu Elena como um golpe. Ela queria mentir, queria alimentar a esperança da irmã. Mas não conseguia. Tocou o rosto de Sofia, forçando um sorriso que não alcançava os olhos. — Talvez um dia. Mas, até lá, eu estarei aqui. Sempre vou cuidar de você. Sofia assentiu, mas uma lágrima escorreu em sua bochecha. Elena a abraçou forte, como se pudesse protegê-la apenas com a força de seus braços. O medo que sentia todas as noites era um fardo que não podia mais esconder. A lembrança da cena na igreja voltava sem parar. Domenico enfrentando aqueles homens, a firmeza em sua voz, a maneira como a escuridão parecia temê-lo. Ele não era apenas um padre. Elena tinha certeza disso agora. E, de algum modo inexplicável, sentia-se mais segura perto dele do que em qualquer outro lugar. Mas essa segurança trazia consigo outra ameaça: a de ser tragada para um mundo que ela não compreendia. Enquanto Elena tentava acalmar Sofia, na igreja a atmosfera também estava carregada. Domenico permanecia em pé diante do altar, as mãos firmes sobre a madeira gasta. O silêncio do templo parecia ecoar mais alto que qualquer oração. Foi então que passos pesados soaram na entrada. Domenico não precisou olhar para saber quem era. Alfonso Greco. O velho caminhava devagar, apoiado em uma bengala, mas seus olhos escuros estavam mais vivos do que nunca. Havia algo de calculado em cada gesto. — Padre Moretti — disse, a voz grave arrastando-se pelas paredes. — Ou devo chamá-lo pelo nome que teme ser lembrado? Domenico virou-se, o olhar penetrante. — Alfonso. — O tom era frio, mas controlado. — Não esperava vê-lo tão cedo. O velho riu baixo. — Eu lhe avisei que os lobos estavam se aproximando. E veja só, já roçaram seus dentes contra você. Domenico caminhou até ele, a batina balançando com a firmeza de seus passos. — Não é coincidência que tenham vindo justamente aqui. Você falou demais. Alfonso ergueu uma sobrancelha. — Ou talvez alguém precise lembrar-lhe de quem realmente é. Você pode esconder-se atrás desse altar, mas a máfia não esquece seus filhos. As palavras caíram pesadas entre eles. Domenico cerrou os punhos, mas manteve o controle. — Eu não sou mais parte disso. — Ah, Domenico… — Alfonso sorriu, revelando dentes amarelados. — Você pode tentar fugir, mas seu sangue carrega essa marca. E agora, há mais em jogo do que apenas você. O olhar do velho cintilou com malícia. Domenico percebeu imediatamente a ameaça implícita. — Não ouse. — Então proteja-a — replicou Alfonso. — Essa garota… Elena, não é? Você acha que pode mantê-la fora disso, mas já é tarde. Eles sabem que ela esteve aqui. Que ela confessou. Que você a protege. Domenico sentiu o peito arder de fúria. A ideia de Elena, de Sofia, expostas a esse mundo era insuportável. — Se algo acontecer a elas, Alfonso… O velho ergueu a bengala, interrompendo-o. — Não me ameace, padre. Eu apenas sou o mensageiro. Os verdadeiros inimigos são outros. Homens que querem sua cabeça, não porque você é padre… mas porque você é Moretti. Domenico fechou os olhos por um instante, tentando controlar a tempestade dentro de si. Quando voltou a encarar Alfonso, sua voz era grave, quase um sussurro carregado de fúria contida. — Se tocarem em um fio de cabelo delas, não haverá perdão. Alfonso sorriu de novo, como quem saboreia o veneno que espalha. — Então prepare-se. Porque a guerra já começou. Naquela mesma noite, Elena acordou sobressaltada. Sofia dormia ao seu lado, mas havia um barulho estranho vindo da sala. O coração disparou. Ela se levantou devagar, os pés descalços contra o chão frio. Ao se aproximar da porta, ouviu vozes baixas. Não era apenas o pai. Havia alguém mais. — O padre… — uma voz áspera murmurou. — Ele não pode continuar se metendo. Elena prendeu a respiração. Os olhos arregalados, o corpo paralisado. Quem eram aqueles homens? De repente, uma garrafa caiu, o pai resmungou algo incompreensível, e passos pesados se aproximaram do quarto. Elena recuou rapidamente, fechando a porta com cuidado, o coração martelando no peito. Ela sabia que não poderia enfrentar aquilo sozinha. A única pessoa que poderia ajudá-la era ele. Domenico. No entanto, como poderia procurá-lo sem expor ainda mais a irmã? A cada segundo, a sensação de que estava sendo engolida por algo maior crescia dentro dela. Sentou-se ao lado de Sofia novamente, passando a mão pelos cabelos da menina. Os olhos marejaram. — Eu vou te proteger, eu prometo — murmurou, quase sem voz. Mas, no fundo, Elena sabia que suas forças estavam chegando ao limite. Na igreja, Domenico rezava em silêncio diante do crucifixo, mas sua oração não era de paz. Era uma batalha interna. A lembrança dos olhares de Elena e Sofia lhe corroía a alma. Ele não deveria se apegar. Não poderia. Mas já era tarde demais. O som da bengala de Alfonso ainda ecoava em sua mente. O aviso do velho era claro: inimigos estavam à espreita, e não hesitariam em usar as pessoas que ele queria proteger. Domenico apertou o crucifixo entre os dedos. — Perdoa-me, Senhor… — murmurou. — Mas se ousarem tocar nelas, não responderei com orações. Na escuridão da igreja, seus olhos cintilaram como os de um homem que conhecia a guerra. A batina escondia o pecador, o mafioso, o assassino. Mas, por Elena e Sofia, ele seria capaz de ressuscitar todos os fantasmas do passado. E quando isso acontecesse, nem mesmo a cruz seria capaz de contê-lo. Na manhã seguinte, Elena foi até a igreja. O sol iluminava as pedras antigas da fachada, mas seu coração estava pesado. Encontrou Domenico no pátio, conversando com algumas senhoras idosas. Ao vê-la, ele percebeu imediatamente que algo estava errado. Despediu-se rapidamente das mulheres e caminhou até ela. — Elena? Os olhos dela estavam marejados, as mãos trêmulas. — Padre… ontem à noite… havia homens em minha casa. Eu ouvi. Eles falaram sobre você. Domenico parou. O mundo pareceu silenciar por um instante. — O que disseram? — Que… que o senhor não poderia continuar se metendo. Eu… eu tive medo. — A voz dela falhou, e as lágrimas escorreram. Domenico aproximou-se, instintivamente erguendo a mão. Quase tocou o ombro dela, mas se conteve, deixando o gesto pairar no ar. — Você e sua irmã não estão seguras lá. — Sua voz saiu grave, firme. — Preciso encontrar um lugar onde possam ficar… até que tudo isso termine. — E o meu pai? — Elena murmurou, entre dor e raiva. — Eu não posso simplesmente abandoná-lo. Domenico a encarou, e em seus olhos havia compreensão, mas também dureza. — Às vezes, Elena, precisamos escolher entre carregar um fardo ou salvar a vida. Ela desviou o olhar, sentindo o peso da escolha. Mas, no fundo, sabia que ele tinha razão. E foi naquele instante que percebeu: confiar em Domenico era inevitável. Mesmo que isso significasse mergulhar no abismo ao qual ele pertencia. Naquele dia, enquanto as badaladas da igreja ecoavam, um novo capítulo se iniciava. A guerra não estava mais distante. Ela já estava ali, batendo às portas. E, entre a fé e o pecado, entre a inocência e o perigo, Elena e Domenico estavam mais ligados do que jamais poderiam admitir. Porque, no fim, não eram apenas os inimigos que se aproximavam. Era também o desejo proibido, escondido nos olhares trocados em silêncio. E esse, Domenico sabia, seria o mais difícil de derrotar.
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