Capítulo 25

1006 Palavras
O sol da Grécia se derramava generoso sobre as praias e as ruas estreitas de paralelepípedo, mas nada conseguia aquecer o peito de Alicia. Estava ali, naquele cenário de sonho, ao lado de um homem bom, gentil, apaixonado, que não media esforços para fazê-la feliz. E ainda assim… havia um vazio em seus olhos que nem mesmo o céu azul infinito conseguia esconder. Roberto fazia de tudo para ela sorrir. Reservava jantares em restaurantes charmosos à beira-mar, organizava passeios de barco por ilhas escondidas e tirava mil fotos deles juntos, como um casal apaixonado em lua de mel. Mas era só ele olhar de verdade dentro dos olhos dela e perceber: algo não estava certo. Alicia tentava. Tentava muito. Se arrumava, passava batons delicados nos lábios, usava vestidos leves, sempre soltos no corpo. Nos passeios, forçava sorrisos, respondia carinhos, segurava sua mão com delicadeza. Mas os olhos, os olhos não mentem nunca. Eles sempre pareciam estar olhando para outro lugar. Para outro tempo. Para outra pessoa. Eles caminhavam pela praia no fim de uma tarde, os pés descalços tocando a areia fria, quando Roberto parou e segurou sua mão com mais firmeza, encarando-a. — Tá tudo bem, amor? — perguntou com um sorriso calmo, mas o olhar cheio de expectativa. Alicia piscou algumas vezes, afastando os pensamentos que insistiam em levá-la para outra memória. — Tá sim… — mentiu com suavidade. Mas estava tudo errado. Em sua mente, o cenário daquele lugar era outro. Não era Roberto que ela via segurando sua mão. Era João. Era a noite quente e úmida de semanas atrás, era o toque dos dedos firmes dele em suas costas, o jeito como ele a fez se sentir como nunca tinha sentido antes. Era o peso do corpo dele sobre o dela, a posse, a intensidade. Ela queria chorar, gritar, confessar tudo, mas não podia. Como ela poderia dizer isso ao homem que estava ali, apaixonado, fazendo de tudo pra dar a ela a melhor lua de mel possível? Não podia. Não tinha coragem. Então sorria. Fingindo. Eles seguiram caminhando, e Roberto a puxou pela cintura, colando seus lábios nos dela. O beijo foi doce, carinhoso, mas quando ele tentou intensificar, Alicia recuou um pouco, disfarçando. — Tá com gosto de vinho — disse em tom leve, rindo. Ele riu também. Tentou não deixar a frustração transparecer. Sabia que ela estava estranha, mas se recusava a acreditar que fosse por outro motivo que não fosse o nervosismo pós-casamento. “É normal”, pensava ele. “É tudo muito novo pra ela. Logo ela relaxa.” No jantar daquela noite, ele reservou uma mesa exclusiva em um dos restaurantes mais caros da ilha. Vista para o mar, luz baixa, velas, pratos sofisticados. Tudo do jeito que Alicia sempre sonhou. Pelo menos era o que ela dizia gostar. Ela estava linda, com um vestido preto justo, o cabelo solto em ondas, os olhos delineados. Roberto olhava para ela como quem contempla uma obra de arte. — Você tá deslumbrante — sussurrou, pegando sua mão por cima da mesa. — Obrigada… você também está. — Alicia respondeu, sem conseguir sustentar o olhar por muito tempo. A comida foi servida, mas Alicia m*l tocava nos pratos. Bebeu um pouco mais do que devia, na esperança de entorpecer o coração e calar a mente. Roberto, por sua vez, se esforçava. Conversava, fazia piadas, contava histórias engraçadas da infância. Queria arrancar um sorriso genuíno dela. Precisava disso. Em determinado momento, a música ambiente mudou, uma canção lenta e suave preencheu o espaço, e ele se levantou, estendendo a mão: — Me concede essa dança? Alicia hesitou, mas não podia dizer não. Levantou-se devagar e o acompanhou até o pequeno espaço improvisado para dança. Ele a segurou pela cintura, encostou sua testa na dela e começou a conduzir os passos delicadamente. Mas o que era pra ser um momento romântico virou um turbilhão na cabeça dela. Fechou os olhos. E não viu Roberto ali. Viu João. Sentiu as mãos de João em sua cintura, o calor do corpo dele encostado ao seu, os lábios famintos roçando sua pele. O cheiro do perfume dele, o toque dos cabelos grisalhos roçando seus dedos, o olhar intenso, queimando como brasa sobre ela. Um arrepio subiu pela espinha, e ela se afastou um pouco, tropeçando. — Tá tudo bem? — Roberto perguntou, preocupado. — Tô tonta… vinho demais, acho. — Ela sorriu fraco. Ele a conduziu de volta para a mesa, preocupado. Aquilo estava se tornando uma constante, e ele não queria estragar a lua de mel. Queria que desse certo, queria que fosse perfeito. Quando voltaram para o hotel, Alicia tirou os sapatos e se deitou na cama sem dizer muita coisa. Olhava para o teto como quem tenta fugir de si mesma. Roberto foi até ela, se deitou ao lado e passou a ponta dos dedos pelo braço dela. — Eu te amo. — Disse baixinho. — Tô muito feliz de estar aqui com você. Mesmo que você esteja estranha, mesmo que eu não esteja entendendo o motivo… eu tô feliz por ser seu marido. Alicia fechou os olhos e sentiu as lágrimas brotarem sem controle. Por que eu não consigo? Por que eu só consigo desejar o pai dele? — pensava aflita. No silêncio, o som do mar entrava pela janela entreaberta. Mas dentro dela, o barulho era outro. Era um caos. Um furacão entre o certo e o errado, o amor e a paixão, o desejo e a culpa. Roberto se aproximou mais, encostou os lábios na curva do pescoço dela, a respiração dele quente, o carinho sincero. Mas Alicia não reagiu. Ficou ali, imóvel, como quem não pertence àquele momento, àquela cena, àquela vida. A única coisa que conseguia sentir era o peso da lembrança daquela noite proibida. Do homem que ela nunca deveria ter desejado. Mas que, infelizmente, era o único que realmente conseguia acender sua alma. A lua de mel deles estava apenas começando. Mas para Alicia, o casamento já começava a ruir por dentro.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR