PROCUREI POR REQUISÍCIOS DE ALGUMA ANOMALIA
no mais profundo de meus olhos enquanto encarava meu reflexo no espelho quadrado de meu banheiro, todo envolvido em ladrilhos brancos com cristânios
arroxeados.
Vamos lá, aconteça! Seja lá o que for que possa acontecer... se é que realmente
está acontecendo de fato alguma coisa...
Mas minha imagem pálida parecia apenas a mesma imagem pálida de
sempre. Meus cabelos cor de chocolate se emaranhavam em ondas até minhas costas, as sardas que salpicavam meu rosto estavam bem pronunciadas como sempre, o que me garantia aquele ar de criança que Havana vivia dizendo que eu tinha. “Não me leve a m*l querida, você é uma moça linda... — ela havia dito certa
P
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vez — mas existe algo no seu sorriso que delata que você não passa de uma
garotinha, a minha garotinha...”. Eu sabia ao que ela se referia agora. Meus dentes
eram longos e um tanto separados, me dando um ar i****a de uma menininha de
seis anos que adorava sorrir por coisas mais idiotas ainda. Só que reparando bem agora, examinando cada pedaço do meu rosto, eu não conseguia encontrar essa garotinha enquanto permanecia de boca fechada, procurando por qualquer rastro naquele rosto que me desse uma explicação razoável para o que estava acontecendo, mordendo meus lábios grandes demais enquanto deixava que meus olhos escuros percorressem minhas linhas.
Mas eu me parecia normal. Pelo menos, até o ponto que sempre havia sido.
Não sei por que exatamente eu acordara tão disposta a encontrar as respostas em
meu rosto — talvez por que algo me dissesse que eu tinha as respostas que queria —,
mas claramente não havia funcionado. Suspirei com força, ajeitando a toalha ao redor de meu corpo enquanto saia do banheiro e ia procurar por algo para vestir.
Mas eu sabia que não precisava sempre procurar muito. Eu sempre acabava optando por minha calça escura de agasalho e minha camisa de malha branca, folgada o suficiente para não me fazer sentir estrangulada, como eu geralmente me
sentia dentro de roupas muito apertadas. Ás vezes eu me perguntava como Hanna conseguia se enfiar dentro daqueles espartilhos suicidas apenas para mostrar uma cintura mais fina e consequentemente mais sexy. Ser sexy não tinha nada a ver comigo, e por isso eu preferia apenas me sentir confortável em minhas roupas.
Mas depois de me arrumar vagarosamente, percebi que havia alguma coisa subitamente errada.
Estava... abafado.
Não estava exatamente quente, mas também, já não estava mais tão frio como
antes...
Caminhei até minha janela, afastando as cortinas rosa pálido e observando o
jardim por um instante. Uma névoa fina de outono ainda se desprendia
teimosamente do chão, mas um sol fraco e sem graça tentava se mostrar atrás das nuvens carregadas no céu já não tão escuro. Arqueei as sobrancelhas. Bem, já era um começo...
Arrebatei meu casaco de ontem do encosto de minha cadeira a frente da escrivaninha, o batendo por um instante e me perguntando se talvez hoje eu não precisasse de algo mais leve para vestir, mas então, um quicado leve chamou minha
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atenção para meus pés, onde o colar que Tia Peg me dera havia caído,
provavelmente se soltando de um dos bolsos onde eu o havia guardado. O peguei entre os dedos, pensando no que fazer com aquilo... eu não podia simplesmente ficar escondendo-o nos bolsos pela vida inteira...
Indecisa, caminhei até meu espelho de corpo inteiro, que ficava preso atrás da porta fechada de meu quarto e joguei o casaco de lado. Tudo bem, vamos lá. Eu estava mesmo precisando de um pouco de sorte e p******o, e não importava o quão i****a isso parecesse. Pensando que simplesmente não custava nada, atei o cordão em meu pescoço, percebendo que o pingente em forma de gota dourada ficava suspenso entre a curva de meus dois s***s. Perfeito para escondê-lo, mesmo
que de uma forma estranha.
Havana havia saído cedo novamente para cumprir seu turno no hospital, e tia Peg me recebeu na cozinha com um enorme prato de omelete com queijo. A última coisa que eu queria, era ela me forçando a engolir tudo aquilo de uma vez
só, de forma que disciplinadamente me sentei e comi tudo como uma boa menina.
Isso antes de Ivi invadir a cozinha e comer mais uma porção de omelete e bolinho
de cenoura antes de podermos nos ver livres da influência de tia Peg de nos fazer
querer enfiar coisas para dentro apenas para fazê-la feliz. Ivi também havia suavizado um pouco nas roupas pesadas, preferindo, assim como eu, apenas um suéter confortavelmente macio. Itham nos encontrou a caminho do ponto de ônibus, e eu ainda me sentia incomodada pelo que Ivi insinuara ontem na biblioteca. Imagino o que ele diria se ficasse sabendo.
Quero dizer... eu tinha noção que Itham era infinitamente bonito... mas cara,
ele era Itham... e não apenas um cara bonitão por quem eu pudesse vir a sentir qualquer tipo de atração...
Pensei em perguntar a Ivi como seria se ela pensasse em beijar o próprio irmão, calculando que era mais o menos assim que eu me sentia em r*****o a Itham. Mas não disse nada, apenas aguentei a tagarelice de Ivi por todo o caminho
até a escola e até chegarmos nela, de fato. Ás vezes eu me perguntava como Ivi conseguia expelir tantas palavras em uma única frase. Quero dizer, não me parecia humanamente possível... mas pelos padrões de Ivi, bem...
Pela primeira vez em semanas, quem sabe até em meses, o pátio cheio de mesas ovais do ASAGL parecia quase normal, sem tantas blusas e coisas que seres humanos usam quando estão com muito frio. Para um lugar que costumava estar
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sempre coberto de restos de casquinha de sorvete e latas de coca-cola gelada, ele havia se tronado meio assombrado quando os alunos passaram a simplesmente passar direto por ele para ir procurar o abrigo quente das paredes internas da Academia. Mas agora, com aquele requisício esperançoso de sol, o pátio já estava mais cheio, estava quase normal novamente.
Era quase como se a escola tivesse voltado ao normal novamente.
— E você, por acaso não andou tendo mais chiliques estranhos de ontem pra
hoje?
— Ivi! — a repreendi, percebendo estar terrivelmente irritada com ela de
repente. Quem é que trata essas coisas como se elas fossem brincadeira? Ivi, é claro. — Eu juro que não entendo qual o motivo dessa sua irritação repentina com
coisas tão banais... — ela me mostrou a língua enquanto nos acotovelávamos entre as mesas — estou dizendo, Eveline, se eu não te conhecesse bem, poderia jurar que você está fumando maconha...
Seu tom de censura não fez maravilhas para minha irritação, até por que me irritava saber que ela podia detectar facilmente qualquer mudança minha de humor. Ivi me fazia sentir... previsível demais.
— Eu não estou irritada! — chiei para ela.
— Ah, claro... — ela bateu em meu peito de leve, me parando a caminho da
entrada — Então por que exatamente você anda surtando comigo por qualquer coisa? Você está agindo como se fosse me estrangular a qualquer instante...
— Eu não...
— Não, — ela me interrompeu sem parar de falar enquanto gesticulava — me
deixe falar, garota. Você precisa de um namorado...
Meu rosto queimou numa explosão súbita de vermelho incandescente.
Droga. A ASAGL inteira não precisava necessariamente saber da minha habilidade nata de não ser atraente e de não ir nada bem com garotos...
— Ivi!
— Não discorde! Me diga: qual foi a última vez que você deu uns amassos?
Meus olhos se arregalaram dessa vez, e enchi os pulmões para insultar Ivi
com a pior palavra que me viesse a cabeça, mas no exato momento em que abri a boca para lhe xingar, os olhos de Ivi se focalizaram em algum ponto além de minha cabeça, e sua boca se abriu de vagar.
— Oh, céus... falando em amassos...