Olho meu relógio de pulso e estico meu corpo na cadeira que estou sentado.
Mais um dia longo e cansativo de plantão, mas passou.
Me levanto, guardo todo o meu material em minha maleta e aguardo o próximo médico chegar, para poder passar o turno pra ele.
—Boa noite, doutor.
—Boa noite, doutora Débora.
Minha colega chega e me cumprimenta.
—Como foi o plantão de hoje?
Ela pergunta, enquanto começa a colocar suas coisas sobre a mesa.
—Um dia tranquilo, apenas quadros virais e alguns casos de gripe e febre.
Ela sorri.
—Que a noite seja assim.
—Bom, turno entregue. Boa sorte e bom trabalho.
Digo, indo em direção a porta.
—Obrigada, bom descanso.
Ouço ela dizer, enquanto saio.
A vida de um médico plantonista, não é fácil. Além de ser uma jornada puxada, os casos são mais críticos que os de um consultório onde as consultas em sua maioria, são mais de rotina.
Assim que chego no carro, vejo que tem mensagens de minha mãe, perguntando se vou mesmo jantar em sua casa hoje.
Respondo que sim, e sigo até minha casa pra tomar um banho e ir.
Estou morrendo de fome, parei apenas para almoçar, depois não parei mais e não vou perder a comida boa de mamãe.
...................
Depois de um banho quente e necessário, coloco uma roupa confortável e sigo para a casa de minha família.
Assim que estaciono, digito a senha no portão e sigo jardim a dentro.
—Mãe, Pai...
Chamo assim que entro.
Vejo meu irmão descendo as escadas.
—Até que enfim apareceu, mamãe disse que só ia servir o jantar depois que você chegasse, achei que ia ter que te buscar.
Ele vem e me cumprimenta.
—Fui em casa tomar um banho, foram doze horas dentro do hospital.
Ele balança a cabeça e seguimos até a cozinha, onde meu pai e minha mãe estão conversando.
Cumprimento meu pai e dou um beijo em minha mãe, depois me sento ao lado de papai.
—E aí maninho, vamos curtir a noite hoje?
George me pergunta.
—Acho que você não entendeu a parte que eu fiquei doze horas no hospital. Sem condições de sair hoje.
Digo, me servindo de um copo de suco.
—Por Deus, Augusto. Você parece que tem oitenta anos, tem que sair mais cara.
Reviro os olhos.
—E você deveria criar mais juízo.
Digo e meu pai solta uma risada.
Eu e meu irmão temos uma diferença de idade pequena, enquanto eu estou entrando nos trinta anos, George fará vinte e nove, mas eu acredito que o juízo só veio pra mim.
—Meninos, por favor...
Minha mãe chega dando risada.
Meu pai vai até o forno e pega a travessa com o bife a rolê e traz até a mesa, onde já estão os outros acompanhamentos.
—Os anos passam e os dois nunca mudam.
Me pai fala, ao sentar ao lado de minha mãe.
—Mas gente, hoje é sexta, amanhã ele não trabalha pode ir comigo pra noite.
Reviro os olhos.
—Estou pensando em sair amanhã, mas hoje, nem pensar.
Digo me servindo.
Ele joga os braços pra cima.
—Céus, eu sou o advogado e você é o careta.
Minha mãe da risada.
—Por que você não deixa pra ir amanhã? Assim vocês podem ir juntos?
—Quê? De jeito nenhum, marquei com uma gata maravilhosa hoje, não vou dar o bolo, seria só pra perder a vez.
Balanço a cabeça se acreditar.
—Nem vergonha na cara você não tem.
Digo, por ele falar isso na frente de nossos pais.
—Lógico que não, sei que mamãe quer o melhor pra mim, e essa de hoje é uma delícia.
Meu pai explode em uma gargalhada, junto com mamãe.
—Espero que além de ser tudo isso, ela seja também inteligente, por que de nada adianta ser linda e não ter pelo menos o cérebro.
Ele aponta o dedo pra mamãe, como se ela tivesse apontado um ponto importante.
—Bem pensado, mamãe... Mas pra uma noite não tem tanta necessidade. Hoje eu espero que ela nem pense, se é que me entendem.
—Espero que antes que esqueçam como se usa o cérebro, se lembrem de usar preservativo.
Meu pai diz.
—É claro né, eu pensarei, quem não vai pensar muito é ela.
Ele fala, dando de ombros.
Balanço a cabeça e sigo com meu jantar, apenas ouvindo.
Minha família é muito unida e carinhosa.
Nossos pais, mesmo na correria dos plantões, nunca deixaram de nos dar amor e carinho.
Eu cresci vendo eles, chegando e saindo de plantões e consultório. Meu pai era pediatra, minha mãe obstetra e muitas vezes os dois nos contavam com alegria sobre os bons momentos de suas carreiras.
Por esse motivo, ainda na adolescência, escolhi a mesma profissão que meu pai.
É claro, nem tudo é mágico e cheio de vida como meu pai contava, mas as alegrias sempre superam os momentos difíceis.
—Bom família, vou indo nessa. Maninho, vou combinar com o pessoal, amanhã quero você no meio da farra com a gente.
—Pode deixar.
Digo retribuindo a toque de mão.
Ele sai e volto a comer a sobremesa que mamãe serviu.
—Como foi o plantão de hoje, meu filho.
—Tranquilo, a maioria dos casos eram iguais, só mudava a criança, mas estava lotado.
Ele balançou a cabeça.
—Muitos nascimentos?
Mamãe perguntou, sabendo que essa é minha parte favorita.
—Muitos, teve até uma que estava esperando uma menina, mas nasceu um menino.
Digo e minha mãe, como uma boa senhora de sessenta e poucos anos, que adora viver bem informada, se senta ao meu lado e começa a escutar todos os detalhes.
—Não acredito, mas e daí... O que fizeram?
Solto uma gargalhada.
—Oras mãe, não fizeram nada... Iam fazer o quê?
Digo e meu pai solta uma risada.
Acabo ficando ali conversando até pra lá de meia noite. Depois, sigo para o meu apartamento.