JÚLIA FERNÁNDEZ
— Pronto! — digo pra mim mesma, olhando para a mala sobre a cama, fechada e arrumada. É isso. Nova casa, novo emprego, nova chance.
Saio do quarto com o coração acelerado e vou até a Jade, que está toda esparramada no sofá.
— Ei, bicha! Bora que tô pronta!
— Tá bom, jujuba! Tô só pegando a chave.
Volto rapidinho pro quarto, pego a mala, tranco a porta com uma última olhadinha no meu cantinho — e partimos. Coloco a bagagem no carro e, assim que entro, já ligo o som. Começa a tocar uma música do Akon, e nós duas soltamos a voz como se o mundo fosse nosso palco. No meio das risadas e cantorias, nem percebemos que já chegamos.
— Passageira entregue! — diz Jade, fazendo pose de motorista de aplicativo.
— Obrigada, miga. — sorrio.
— E qualquer coisa, me liga! A super Jade vem te salvar, com ou sem capa! — ela ri, teatral.
— Tá certo, minha heroína!
— Ah, e se o dono dessa mansão for gato… me liga! Troco de emprego na hora, nem penso duas vezes!
— Sua safada! — caio na risada e começo a fazer cócegas nela.
— Safada e gostosa, baby! — ela responde, jogando o cabelo como se estivesse num comercial.
Depois, ela fica um pouco mais séria:
— Agora falando de verdade… cuidado com esses riquinhos. Adoram se sentir os donos do mundo. Vão, usam… e jogam fora.
— Pode deixar. Eu sei bem como é. Não confio em homem nenhum, e você sabe disso.
— Sei, miga. Sei. Só cuida do seu coração, tá?
Nos abraçamos forte. Me despeço e ela vai embora. Respiro fundo e toco a campainha.
Logo o portão se abre. Dona Benta me espera com aquele jeitinho gentil de vó.
— Seja bem-vinda, minha filha. Vem, vou te mostrar seu quarto.
Seguimos por um corredor amplo e muito bonito. A casa é de cair o queixo — parece coisa de novela. Quando entramos no quarto, fico boquiaberta.
— Uau… que quarto lindo!
Cama espaçosa, armário enorme, TV, mesinhas com abajur e despertador… e ainda um banheiro só pra mim! Agradeço mentalmente ao universo por essa oportunidade.
— Espero que goste. — diz Benta com um sorriso bondoso.
— Eu amei. Sério.
— Pode arrumar suas coisas com calma. Qualquer coisa, tô na cozinha.
— Tá certo. Obrigada… Benta.
— Só Benta, minha filha. Nada de “dona”.
Sorrio, ela sai, e eu começo a desfazer a mala com aquele frio na barriga bom. Vida nova batendo na porta.
Depois de tudo no lugar, sigo até a cozinha. Aquela cozinha... meu Deus! É mais espaçosa que o meu antigo quarto e sala juntos.
— Oi!
— Chegue, minha filha. Sente-se. Vou colocar algo pra você comer.
— Nossa, obrigada!
— Me diga, Júlia… posso te fazer uma pergunta?
— Claro, Benta.
— O nome do dono da mansão… é Allonso Albuquerque, né?
— Isso mesmo.
— Eu sabia que já tinha ouvido esse nome… Acho que vi na TV.
— Deve ter visto mesmo. Ele é delegado aqui da cidade.
— Uau.
— Mas tem uma coisa muito importante que você precisa saber, Júlia.
— O quê?
— O senhor Allonso é extremamente reservado. Não gosta que invadam o espaço dele. Gosta de tudo em ordem, no lugar certo. E quase não almoça em casa. Mas, quando almoça, não quer ser incomodado. No jantar, então… ele prefere que a comida esteja pronta no micro-ondas. Chega tarde, às vezes de madrugada.
— Entendi.
— Meu menino trabalha demais… e com coisas muito perigosas.
— Dá pra ver que você gosta muito dele, né?
— Como um filho. Criei esse menino desde pequeno. E você, tem família por aqui?
A pergunta me acertou no peito como um soco silencioso. Mas respirei fundo e respondi:
— Não... Na verdade, não sei quem é minha família. Fui criada em um orfanato. Aos dezoito, saí pra trabalhar e me virar sozinha.
— Ô, minha filha… me perdoe. Não queria te magoar.
— Tá tudo bem, Benta. Juro. Eu já aceitei. E hoje… tô aqui. É o que importa, né?
Terminei o jantar, e mesmo com a Benta insistindo pra me deixar quieta, fiz questão de lavar a louça. Depois me despedi dela, subi pro quarto, tomei um banho quente, vesti meu pijama e me deitei.
Antes de dormir, peguei o celular e mandei uma mensagem pra Jade:
Boa noite, miga!
Tô bem, a Benta é um amor de pessoa! E o quarto… nem te conto! Parece coisa de filme.
Se eu te contar pra quem tô trabalhando, você não vai acreditar… rsrs
Delegado Allonso Albuquerque. Sim, aquele mesmo! Parece que ele é meio ogro.
Beijooos, miguxa.
Mandei a mensagem e desliguei o celular. Se eu esperasse ela responder, ia virar a noite acordada. Me aconcheguei nos lençóis macios e deixei o sono me levar.
Acordei cedo, animada. Fiz minha higiene, prendi o cabelo e fui pra cozinha ajudar a Benta.
— Bom dia, Benta!
— Bom dia, minha filha. Dormiu bem?
— Como um anjo.
Enquanto ela preparava o café, eu fui colocando a mesa do jeito que ela tinha me ensinado. Tudo simples, organizado, do jeitinho que ela gosta. Só então lembrei que meu celular estava desligado.
— Benta, vou no quarto rapidinho pegar meu celular, já volto.
Subi e, no caminho, ouvi uma voz masculina, grave, firme, dizendo “bom dia” à Benta.
Parei por um segundo. Só podia ser ele… o tal Allonso Albuquerque.
Mas resisti à curiosidade. Continuei até o quarto. Peguei o celular na mesinha de cabeceira e liguei. Uma mensagem da Jade chegou na hora:
PQP, miga! Você tá trabalhando pro gostoso do delegado Allonso?!
ELE É UM PECADO DE LINDO! Eu já quero ser enquadrada por ele!
Entre todas as mansões de NY, você caiu logo na casa daquele homem!
Sério, jujuba, tô morrendo de inveja.
Mas fico feliz que você esteja bem. Esse apê tá gigante sem você.
Bjsssssss 💋
Ri alto, sozinha no quarto. Guardei o celular e voltei pra cozinha, mas o delegado já havia saído. Tomei meu café e comecei a limpeza.
Coloquei os fones, liguei minha playlist favorita e comecei a espanar, varrer e passar pano naquela mansão digna de filme. Um cômodo por vez, sem me perder — embora confesse que quase precisei de um mapa.
— Meu Deus… pra que uma casa tão enorme pra só duas pessoas? — murmurei pra mim mesma, com a vassoura na mão. — Mas tudo aqui é tão lindo…
Talvez seja exagero, mas… no fundo, pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que algo bom podia estar começando.
(...)
Dois meses se passaram.
E eu ainda não conheci pessoalmente o enigmático dono da casa: o tal senhor Allonso Albuquerque. A dona Benta e eu nos damos super bem — ela é um verdadeiro anjo na Terra. Cuida de mim como se fosse da família, me faz sentir segura, acolhida… em casa.
Já tirei algumas folgas nesse tempo, e sempre que posso, saio com a Jade. Nada de baladas ou festas — isso nunca foi minha vibe. Prefiro um bom cinema e um milkshake de morango.
Mais um dia de trabalho concluído. Estou exausta e tudo o que quero é minha cama e um bom livro. Tomo um banho quente, visto apenas uma camiseta masculina que quase chega até a coxa e um shortinho de renda leve. Nada melhor do que conforto depois de esfregar uma mansão inteira.
Me jogo na cama, pego meu livro preferido — Como Viver Eternamente. Um daqueles que sempre mexem comigo. A história de um garotinho com câncer terminal e de como sua família lida com o fim inevitável. É doloroso, mas lindo. Humano demais.
Lá pela metade do capítulo, o sono começa a vencer. Marco a página, deixo o livro sobre a mesinha e apago.
— Não... não, por favor… não, Ricardo… hoje não… por favor… por favor… não!
Acordo aos prantos, ofegante, com o coração batendo como se fosse explodir. A imagem dele ainda está vívida na minha mente. Me encolho no canto da cama, o corpo todo tremendo. Sinto as mãos suadas, o rosto molhado, a respiração descompassada.
— Hoje não… por favor… — murmuro, quase sem voz.
Uma silhueta se aproxima no escuro. Arregalo os olhos, assustada, e instintivamente me encolho ainda mais.
— Ei, calma... — diz uma voz grave. Máscula. Surpreendentemente serena. — Eu não vou fazer nada com você.
O homem se afasta um pouco e levanta as mãos devagar, como se estivesse lidando com um animal ferido.
— Só vou acender a luz. Tá bem?
Ele caminha até o interruptor. Click. A luz se acende.
E eu perco o ar.
Sem camisa. Ombros largos, peitoral forte, olhar penetrante. Tatuagens nas laterais do abdômen e aquele tipo de presença que domina tudo ao redor. Um verdadeiro colosso masculino. E agora, parado no meio do meu quarto.
Ele franze o cenho, sério, mas há algo nos olhos dele… preocupação?
— Quem é você? — pergunta. — E o que faz no meu quarto?
— Eu… eu poderia perguntar o mesmo.
— Eu sou o dono da casa.
Merda.
O temido. O reservado. O intocável.
Allonso Albuquerque.
— E você é...?
— Júlia. — engulo seco. — Sou a nova auxiliar da dona Benta.
Ele me encara por mais um instante. Seus olhos analisam cada detalhe, como se procurasse algo além da minha resposta. Então, vira-se e pega um copo d’água sobre a cômoda.
— Aqui. — diz, me entregando o copo, ainda de pé, mantendo a distância.
Tomo com as mãos trêmulas. A água desce arranhando minha garganta. Coloco o copo de volta na mesinha e, só então, percebo o quão exposta estou: camiseta fina, shortinho, pernas à mostra… e ele ali. Encarando.
— Dá pra se virar, por favor? — peço, erguendo o queixo, tentando parecer firme.
— O quê?
— Se vira. Quero deitar. — faço um gesto com a mão.
Ele sorri de canto, como se não esperasse esse tipo de atitude, mas obedece. Se vira de costas.
Me deito, puxando o lençol até o pescoço como se fosse uma armadura. Quando ele percebe que estou coberta, se vira de novo. Aqueles olhos ainda me observam, esperando.
— Júlia, né? — pergunta. — Então foi você que a Benta contratou...
— Isso. E você só pode ser o senhor Allonso Albuquerque.
— Exato.
— Mas… como entrou aqui?
— Vim pegar um copo d’água e ouvi alguém gritar. Achei que estivesse sendo atacada. A porta estava aberta, então entrei.
— Desculpa… Não queria causar confusão.
Ele se prepara para sair, mas então para à porta e pergunta com a voz baixa:
— Quem é Ricardo?
Congelo. O nome que mais odeio. A lembrança que mais machuca. O trauma que ainda arde.
— Ninguém. — digo rápido, desviando o olhar.
Ele me observa por mais alguns segundos. Apenas assente com a cabeça, sem insistir. E sai, fechando a porta com cuidado.
O quarto volta ao silêncio.
Mas dentro de mim, o caos está de volta.
Maldito pesadelo. Maldito nome. Por que isso tinha que voltar agora… justo agora?
Me afundo nos travesseiros, abraçando o lençol com força. Tento esquecer, mas a imagem de Allonso parado à porta, com aquele olhar indecifrável… também não sai da minha cabeça.