Três dias antes da operação…
— Era Dia das Crianças. Tinha sete e morava no Chapadão. Ele era meu melhor amigo. Naquele dia, me deu uma rosa. — A jovem sorriu. — Sempre amei rosas. Os fogos começaram lá pelas dez. Tinha muita gente, sabe!? Criança na rua, música alta… muito doce!
Dara era jovem, recém-integrada na Polícia Militar do Rio de Janeiro. À sua frente, o parceiro, apresentado recentemente, a ouvia falar enquanto observava o movimento da rua.
Era mulata e tinha o cabelo bem curto. Apesar da vida policial, se dava ao luxo de ter vaidade e usava um batom marrom, que tornava os finos traços de seus lábios ainda mais acentuados.
Seu parceiro, Ângelo de Souza, ou somente Souza, já era um pouco experiente. Tinha trinta anos. Três anos de corporação.
O cansaço nos amendoados olhos demonstrava o quanto o trabalho vivia sugando do homem de compleição forte, como alguém habituado a trabalho. Pardo e alto de cabelo batido, escuro.
— Ele era maltratado pela mãe. — Dara disse. — Sempre teve dificuldade. Ela era escrava da coca, uma filha da putä! Nesse dia, ele sumiu. De repente, no meio da correria, o perdi e nunca mais vi.
— Por isso entrou ‘pra Polícia!? — Ângelo indagou, com um sorrisinho descrente de canto de boca. — Volta ‘pra casa… essa vida não parece ser ‘pra você, Câmara!
— Não parece ‘pra um machista do caralhö! — Esbravejou, cansada do discurso e******o. — Nem vem com essa de rosto doce, desenhado… que não que ter uma pistola… Porrä chata!
— Calma! — Ângelo riu, levantando a mão. — Não insisto… mas, não é machismo… é um conselho que dou ‘pra todo mundo que conheço: vai embora enquanto dá!
“Jamais o abandonaria. Se não descobrir o que houve, vou, ao menos, me vingar dos filhos da putä, culpados pela sua morte!”, pensou, em negativa, fitando os olhos do parceiro.
— Não posso! — A mulata diz após respirar. — Pode parecer i****a, mas quantos outros não ‘tão por aí!? Alguém tem que fazer algo! Mesmo que pouco, eu faço minha parte.
— ‘Cê é louca! — Desdenhou, em negativa. — Se soubesse como seria, nem pensaria em mudar porrä nenhuma nesse lugar! Não dá. Aproveita que não foi abordada por ninguém e vaza.
— Já sei qual é a da treta, cresci no morro! Mais que ninguém sei que tipo de falcatrua rola… só não nasci ‘pra ficar parada assistindo a merdä feder!
— Deveria, Câmara… Deveria. — Aconselhou.
Foram designados a uma ronda, meramente para introduzir Dara ao dia-a-dia. Os superiores preferiam esconder os problemas da corporação até extraírem mínimo rendimento dos novatos.
— Quando deixou a favela? — Ângelo ressuscitou o assunto.
— Nunca. Só ‘tô numa favela arrumada. Enquanto estudava, ‘tava no Turano. Quando passei na prova, me mudei ‘pra Barra. É aluguel, perto da Cidade de Deus. Um bom lugar. — Sorriu.
— Porrä, morando na Barra!? ‘Tava envolvida com o quê!? — O homem gargalhou, incapaz de crer ser dinheiro honesto.
— Enquanto ‘tava no Turano, recebia parcelas de uma indenização. — Ela explicou, uma desculpa muito funcional. — Minha mãe morreu e corri atrás para receber o direito.
— Porrä! Indenização pelo quê!?
— ‘Cê pergunta ‘pra caralhö, ‘né!? — Dara riu, em negativa.
Ângelo acabou caindo na gargalhada também.
— Diz primeiro. Por que entrou ‘pra polícia? Eu já falei. — Ela perguntou, apagando o sorriso de Ângelo.
— Se eu falar, ‘cê não vai acreditar na burrice…
— Bocetä… dinheiro… o que mais!? — Riu.
— Resumidamente isso que disse… e um carro também! — O homem riu. — É a história de vender a alma… é caro, Câmara!
Ambos silenciaram. A ronda era distante da Academia de Polícia. Apesar da televisão chamar todo o local Sulacap, o povo morados, dava o nome Mallet àquele pedaço.
Era um dia quente. A avenida principal não estava agitada, a ausência de carros dava espaço para as ondulações do calor sobre o asfalto quente.
— Aqui é área de milícia. Se evitar outros PMs, evitará a parte podre. — Ângelo instruiu. — Jardim Novo é lá ‘pra cima, tem umas favelinhas no morro, tudo do tráfico, exceto a Vacaria, de uma milícia da Praça Seca.
— Porrä… foram longe, não!?
— É do outro lado do morro. Um chão de caralhö indo de carro ou moto, mas é a velha história de uma mão lava a outra e as duas lavam o saco. — Ele riu.
— Com tanta informação, realmente acredita que a gente não pode combater!? — Olhou o parceiro de canto de olho.
— Nem em mil anos. Essa praga nunca acabará. Cresci mais ‘pra frente, no Sapo. — Diz, melancólico. — ‘Tá todo mundo louco por poder… ou a gente corre ‘pra conquistar algo, por menor que seja, ou a gente fica na fossa, igual a maioria!
A resposta não satisfez Dara, mas ela não retrucou.
***
— ‘Cê tá comigo há um tempo, Espinho. — Tito falou, sentado, estava pensativo. — Sei que não tem nada a ver com essa merdä.
Tito tinha trinta e oito anos. Magro de cabeça raspada, com um palhaço tatuado no pescoço. Vivia sempre sério, apesar de o bom humor ocasionalmente estampar simpatia no rosto do chefe.
— O que ‘tá rolando? — Yuri pergunta. — Soube de treta com X9, mas não ‘tô ligado. Era só boato. Mandei uns irmãos darem uma olhada, mas ainda não voltaram.
Yuri tem vinte e três. É alto, tem compleição bem forte pelos constantes exercícios. Longos dreadlocks caem por seus ombros e seu amendoado olhar clareia ao receber a luz solar.
Sua pele negrä é muito castigada pelo sol. Ostenta muitas tatuagens por todo o corpo. Em maioria, ramos de roseiras com muitos espinhos, motivo pelo qual recebeu o vulgo Espinho.
Uma orelha é furada e tem uma pequena cruz de ouro, antigo pingente de um colar recebido na infância — quando a corrente ficou pequena, ele a envolveu numa escultura de São Jorge da sua casa e mandou fazer o brinco, que tira apenas para higiene.
— Senta. — Tito o convidou.
A sala de estar de Tito era confortável. Espaçosa, ostentava o que havia do bom e do melhor. A mesa de centro tinha algumas notas, que Yuri contava, meramente para passar o tempo.
— Sou dono dessa porrä há muito tempo! Desde novinho, ‘cê sempre teve disposição ‘pra caralhö. Devagarinho, chegou aqui.
— Qual foi, Tito!? Que papo esquisito é esse?
Yuri tirou as duas pistolas de calibre quarenta e pôs à mesa.
Uma das pistolas era personalizada, com a coronha revestida por uma madeira de lei, com uma rosa pirografada.
O jovem levantou com as mãos atrás da cabeça.
— Para, cara! — Tito riu. — Longe de mim pensar que ‘cê é o filho da putä… mas, é fodä… não vou abrir mão do reinado, da minha casa… Tenho que saber com quem posso contar.
— Conta comigo… Quando tive fome, ‘cê me salvou. — Yuri disse, sério. — Quem é o filho da putä que preciso pegar!?
Mais calmo, o jovem voltou a se sentar e tomar suas armas.
— Vi que mandou gente atrás do boato. Fica de boa, já chamei e eles vão carregar ‘pra casinha. Um colega da Trinta e Três falou de uma operação, incluindo a planta dos vermes.
— Quantos? — Yuri perguntou.
— Cinco… quero ouvir eles daqui! — Tito mandou.
— ‘Tá feito. — O jovem sorriu, sádico.
— Dependendo de como for essa merdä, uns irmãos da Nogueira vão me abrigar um tempo…
— Nogueira de Sá no Jardim Novo!?
— Essa! Só ‘tô na espera do rádio. Se precisar sair, ‘cê fica e espera. Não quero desperdiçar sua lealdade, então, não joga a porrä da vida fora! — Fitou os olhos do rapaz, solene.
Yuri apenas assentiu. Odiaria estar na posição de gerente, mas para sobreviver precisaria estar disposto a tal. Tito já oferecia há algum tempo, mas ele sempre conseguiu se esquivar.
Desde o fatídico Dia das Crianças, que mudou sua vida, ele faz de tudo para sobreviver. Seguiu, sem olhar para trás. Ainda sente falta de algumas coisas da vida de moleque, claro!
“Um dia, conheço a paz!”, orou quieto, levantando-se.
— Pelo bom serviço… ‘tava pensando num baile. — O chefe riu, ladino, amassando algumas notas e jogando para o jovem.
Yuri acabou rindo, pegou o bolo de dinheiro e seguiu à porta.
— E a primeira-dama!? — Parou, olhando sobre os ombros. — Se quiser, a gente fica na atividade ‘pra levar ela ‘pra qualquer outro lugar.
— Já ‘tô cuidando disso. Se precisar, aviso.
— O senhor que manda… — Sai da casa.
Era uma tarde bastante quente!
“Uma cerva cairia bem!”, pensou, olhando sua moto.
Com o morro de terra batida, subir com a moto não seria inteligente. Yuri tirou a chave da ignição e passou no pescoço.
Dado o calor, o dia estava agitado. De onde estava, podia ver algumas meninas com seus biquínis, tomando sol nas lajes; alguns moleques jogavam no campo de futebol maltratado da rua de baixo; outros, mais enérgicos, corriam pelos becos e vielas.
“Que merdä!”, lamentou, em negativa, pensando quantos não sofreriam com a dita invasão mencionada por Tito.
— Já ‘tamo esperando! — A voz de Naval o desperta.
Naval de vinte anos. Tinha pele parda, olhos bem escuros e uma barbicha que insistia em não cortar — crendo que cresceria.
Chamava-se Eric, mas o vulgo Naval aconteceu porque sempre quis servir à Marinha, mas teve o plano frustrado por um mísero centímetro de altura que nunca teve!
— Qual foi!? Que papo é esse de X9!? — Yuri perguntou.
— ‘Cê mandou os crias acharem… o chefe já tinha a planta. — Responde, rindo. — Chamou geral, perguntou o que ‘tavam fazendo… aí… ‘cê já sabe do enredo.
— Conheço!? — Yuri indagou.
Naval começou a rir, alto.
Gargalhou por bastante tempo.
Chegou a perder o ar, já que subir a rampa desperdiçando tanto, tornava a caminhada mais cansativa.
— Porrä, para de rir e fala, caralhö. — Yuri pediu, agoniado.
— Conhece… ‘cês tiveram uma treta há um tempo.
— Buiu!? — perguntou, franzindo o cenho com um largo sorriso estampando-se em seu rosto devagar.
Ailton dos Santos, vulgo Buiu. Parente da primeira-dama, só estava onde estava porque ela pediu com muito jeitinho. Era muito mimado. Trabalhava pouco e usava muito, porém, tinha o privilégio de se prevalecer do status.
— Já jogou na Mega-Sena hoje!? — Naval assente, rindo.
— Porrä! — O largo sorriso surgiu. — Esperei muito!
— O castigo vem a cavalo, viadö.
— Enquanto trabalho com ele, ‘cê toca o baile, ‘né!?
— Baile!? Tem baile!? — perguntou, confuso. — Caralhö, não fumei ‘pra ficar apagado três dias… ‘né possível!
— Calma. É quarta. O chefe mandou ter baile. Faz essa porrä e chama putä… que depois dele, sobra t***o ‘pra dar vinte!
Naval caiu na gargalhada, eles se cumprimentaram e se dividiram. Yuri subiu muito mais empolgado.
Chegou no morro do Batan após uma longa caminhada.
Pensando que o demônio, na forma de sua mãe, voltaria para perturbá-lo, ele foi o mais longe possível. Parou no primeiro lugar de nome estranho e por lá ficou: Batan, Realengo.
Quando Tito o encontrou, estava bem magro, pelas últimas…
Vendo a mão estendida, ele não hesitou em agarrar.
Sempre fora muito correto em tudo. Começou como vapor e num dia de mochila cheia para uma grande entrega, encontrou Buiu e ele lhe mandou entregar toda a droga.
Inicialmente, negou, mas quando o outro insistiu ele não continuou indo contra o “sobrinho do chefe”. Ao voltar, tomou uma surra daquelas e precisou trabalhar de graça por um tempo.
Poderia estar simplesmente morto, mas Tito não o fez por ter certeza que Yuri não usava. No início, o garoto ficava enjoado só de olhar para cocaína, nem gostava de tocar.
Passada essa ocasião, Yuri descobriu que Buiu usou toda aquela droga numa festinha particular. Paciente, vingativo, Yuri não explanou, guardou como cobra.
— Tudo que vai, volta… Buiu! — Ele sorriu, sádico, ao chegar no barraco no meio do mato, fitando Buiu amarrado.