A cobertura de Villar era o tipo de lugar que transbordava luxo e poder. Mármores italianos, quadros modernos pendurados em paredes brancas e janelas com vista panorâmica da cidade. Tudo ali era impecável. Tudo ali era feito para impressionar — e intimidar.
Villar olhava com desconfiança para o homem sentado à sua frente.
Gustavo estava suado, embora o ar-condicionado estivesse no máximo. Vestia uma camisa social encardida e jeans surrados. Apesar da aparência desgastada, havia algo nos olhos dele… uma arrogância contida, um veneno ainda pulsando sob a pele.
— Você me procurou — disse Villar, servindo-se de uísque. — Isso significa que tem algo que eu quero ouvir. Então, fale. Mas seja rápido. Tenho uma reunião com patrocinadores em quinze minutos.
Gustavo cruzou as pernas, tentando parecer mais seguro do que estava.
— Eu sou o pai biológico da filha da Rayca.
Villar parou o gesto de levar o copo aos lábios.
— Interessante. Continue.
— Há cinco anos, eu e Rayca tivemos um envolvimento. Ela engravidou, e eu fui embora. Mas agora… eu voltei. E quero minha filha de volta. Só que ela está enfiada na vida desse tal de Nicolas Santiago. Você deve conhecer, né?
Villar riu, sem humor.
— Conheço muito bem.
— Pois então. Ele está bancando o bom moço, salvador, protetor. E ela está caidinha por ele. Mas veja… se o mundo souber que Rayca falsificou documentos pra registrar a menina como filha dela… a coisa pode mudar. Ela pode ser processada. Perder tudo.
Villar apoiou o copo na mesa de vidro, os olhos brilhando com atenção.
— E o que você ganha com isso?
— A menina. E dinheiro, claro. Eu sei do potencial dessa história. Sei que posso usá-la. Mas quero fazer do jeito certo… com gente grande.
Villar ficou em silêncio por alguns segundos, pensando.
— Você tem provas?
Gustavo tirou do bolso um envelope amassado e jogou sobre a mesa. Villar puxou o conteúdo: cópias de mensagens antigas, fotos de Rayca grávida com Gustavo, e uma declaração manuscrita — m*l redigida, mas suficiente para levantar suspeitas.
— Isso pode derrubá-la — murmurou Villar. — Pode destruir a imagem dela. E, de quebra, abalar Nicolas. Ele está mais envolvido do que deveria. Se ficar emocionalmente instável, perde rendimento. Se perder rendimento, perde contratos. E eu não posso permitir isso.
Gustavo deu um meio sorriso.
— Exatamente. Eu pensei… talvez a gente possa trabalhar juntos. Você se livra dela e protege seus negócios. Eu consigo a garota — ou pelo menos uma boa indenização por tê-la sido “sequestrada” durante anos.
Villar se levantou, girando lentamente o copo na mão.
— Você sabe jogar, Gustavo. Gosto disso.
Foi até a estante e puxou uma pasta vermelha. Abriu-a e tirou de lá uma ficha de imprensa com a nova campanha internacional envolvendo Nicolas. Era a maior da carreira do lutador. Multinacional, veiculada em três continentes.
— Isso aqui não pode ser manchado com escândalos. Com fofocas de bastidores. Nicolas precisa parecer o herói. O vencedor. A referência.
Villar virou-se para Gustavo com um sorriso frio.
— E você me trouxe a ferramenta perfeita pra garantir isso.
Gustavo levantou-se também.
— E aí? Temos um acordo?
— Ainda não. Mas podemos ter. Me dê um tempo. Vou mover algumas peças. Se tudo correr como imagino… você terá sua filha. E eu… meu campeão intacto.
Eles apertaram as mãos. Frio, calculado. Uma aliança de conveniência, selada pelo mesmo objetivo: separar Nicolas e Rayca.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Rayca arrumava a mochila de Nina para a escola. Estava mais tranquila desde que se mudara para a casa de Nico. Mas uma sensação incômoda persistia — como se algo estivesse prestes a ruir.
Nicolas apareceu na cozinha, já de luvas nas mãos, pronto para ir à academia.
— Café da manhã pronto? — perguntou com aquele sorriso charmoso que sempre a fazia esquecer dos problemas por um segundo.
— Claro. Pão, frutas, café e… um recado da escola. A Nina vai ter excursão semana que vem.
— Eu levo ela. Vai ser bom dar uma fugidinha da rotina.
Rayca sorriu, mas havia algo em seus olhos que o fez parar.
— O que foi?
— Não sei, Nico. Tenho a sensação de que algo r**m está chegando. Como se uma nuvem estivesse se formando bem devagar sobre a gente.
Ele se aproximou e segurou seu rosto com carinho.
— A gente enfrentou coisa pior. E superou. Juntos. Não importa o que venha. Eu tô com você.
Rayca fechou os olhos por um segundo. Aquelas palavras sempre a acalmavam. Mas nem mesmo o calor do toque de Nico podia apagar a sombra que começava a se aproximar.
No final da tarde, Fabiana entrou apressada na sala de Villar, visivelmente alterada.
— Recebi uma ligação anônima. Disseram que uma bomba vai explodir sobre o nome do Nicolas nas próximas semanas. Envolve documentos, criança e... uma mulher venezuelana.
Villar não se virou. Apenas sorriu, olhando pela janela.
— Eu sei. E tudo está exatamente como deve estar.