Capítulo 15

1479 Palavras
Quando o turno acabou, Arya estava exausta. Não fisicamente. Mas por dentro. Era cansativo fingir normalidade quando o próprio coração parecia viver em estado de alerta constante. Dominic tinha ido embora havia mais de uma hora, mas a presença dele ainda circulava pelo café como perfume que se recusava a desaparecer. Ela trocou de roupa, guardou o avental, despediu-se rápido demais dos colegas. Queria ar. Queria distância. Queria alguns minutos em que ninguém a observasse. A rua estava mais silenciosa do que o habitual. O céu começava a escurecer, pintado de um azul profundo que anunciava a chegada da noite. Arya enfiou as mãos no bolso do casaco e começou a caminhar. Um passo de cada vez. Respira. Você está bem. Nada aconteceu. E, ainda assim, tinha acontecido tudo. Ela lembrava dos olhos dele seguindo cada movimento. Da voz baixa. Da maneira como parecia sempre caber no espaço dela sem realmente invadir. Era uma forma sofisticada de perigo. E o pior? Funcionava. Arya soltou o ar, frustrada consigo mesma. Precisava parar de pensar nele. Precisava retomar o controle da própria vida. Foi quando ouviu. Um som fraco. Quase perdido entre o ruído distante dos carros. Ela parou. Franziu a testa. Ouviu de novo. Um miado. Baixinho. Vindo de algum lugar à direita. Arya olhou ao redor até identificar um beco estreito entre dois prédios. Escuro. Apertado. Não exatamente convidativo. O tipo de lugar que, em qualquer outro dia, ela evitaria. Mas o miado veio outra vez. Mais fraco. Como um pedido. — Ah, não… — murmurou, já sentindo o coração amolecer. Era ridículo. Depois de tudo que estava acontecendo, depois de passar dias com medo de estar sendo seguida, ela estava considerando entrar em um beco escuro por causa de um gato. Mas ir embora parecia pior. Arya se aproximou devagar. — Ei… — chamou, a voz suave. — Onde você está? Por alguns segundos, nada. Então dois olhinhos brilharam no fundo da sombra. Pequenos. Assustados. O filhote estava encolhido perto de uma caixa de papelão, magro demais, sujo, tremendo. Sozinho. Algo apertou dentro dela. Arya se abaixou. — Oi, pequeno… O gatinho miou de novo, mas não tentou fugir. Como se estivesse cansado demais até para isso. Ela estendeu a mão devagar. Esperou. O filhote cheirou seus dedos antes de dar um passo hesitante para frente. Confiança mínima. Mas suficiente. Arya sorriu, sentindo os olhos arderem. — Você está pior que eu, né? Com cuidado, pegou o animal nos braços. Ele era leve. Quase nada. E, mesmo tremendo, se encaixou contra o peito dela como se tivesse encontrado o lugar certo. Arya o segurou mais firme. — Tudo bem… eu também não sei o que estou fazendo — confessou em voz baixa. — Mas acho que a gente pode tentar juntos. Ela saiu do beco sentindo algo diferente. Não era o peso habitual. Era responsabilidade. Era escolha. Uma pequena coisa que ainda dependia apenas dela. O gatinho se mexeu um pouco, procurando posição, e Arya percebeu que estava sorrindo pela primeira vez em dias. Cuidar de alguém. Talvez fosse disso que precisava para se lembrar de quem era fora da órbita de Dominic Russo. O caminho até o apartamento pareceu mais curto. Ou talvez ela estivesse distraída demais com o calor do corpinho frágil contra o seu. Quando chegou à porta, demorou um segundo antes de entrar. Olhou a rua. Silenciosa. Tranquila. Nenhum sinal de perigo. Mas a sensação de presença… Essa continuava ali. Arya abraçou o gatinho um pouco mais. — Vai ficar tudo bem — prometeu, sem saber exatamente para quem estava falando. Arya fechou a porta do apartamento com o pé, com cuidado para não assustar o pequeno embrulho tremendo em seus braços. O lugar era simples, pequeno demais para qualquer pessoa acostumada a conforto, mas era o que ela tinha. E agora, dividia com um par de olhos assustados e um miado rouquinho que parecia pedir socorro ao mesmo tempo em que agradecia. — Calma… tá tudo bem — murmurou, encostando a testa de leve na cabecinha úmida do filhote. O gatinho era leve. Leve demais. As costelinhas apareciam sob o pelo sujo, e as patinhas estavam geladas como se o frio da rua tivesse entrado até os ossos. Arya respirou fundo. Nunca tinha cuidado de ninguém além de si mesma. Mas, naquele instante, abandonar aquela criaturinha parecia simplesmente impossível. Ela caminhou até o banheiro. Colocou a tampa do vaso abaixo e apoiou o filhote ali por um segundo, mantendo a mão firme sobre ele para que não tentasse fugir. Abriu o chuveiro, testou a água várias vezes até ficar morna — não quente demais, não fria. — Prometo que vai ser rápido, tá? — avisou, como se ele pudesse entender. Talvez entendesse. Porque o miado diminuiu. Arya tirou o casaco, arregaçou as mangas da blusa e o pegou de novo, colocando-o sob o fio suave de água. A sujeira começou a escorrer quase imediatamente, formando trilhas escuras pelo ralo. Ela usou o sabonete neutro que tinha, espalhando com cuidado, passando os dedos devagar para não machucar. O gatinho tremeu no começo. Depois foi relaxando. As patinhas pararam de lutar. A cabecinha se abaixou, resignada, e Arya sentiu algo apertar dentro do peito. Confiança. Ele estava confiando nela. — Eu sei… eu sei — sussurrou. — Já passou. Quando terminou, desligou o chuveiro e o enrolou na toalha mais macia que possuía. Esfregou com delicadeza, secando cada pedacinho, cada dobrinha, até que o pelo começou a ficar fofo, revelando uma cor clara que ela nem tinha percebido antes. Branquinho, com manchinhas caramelo. Pequeno demais. Lindo demais. — Você é um sobrevivente, sabia? — falou, um sorriso cansado surgindo em seus lábios. Levou-o para o quarto e sentou na cama, ainda com ele enrolado. O aquecedor velho fazia um barulho estranho, mas pelo menos o ambiente estava quente. Arya pegou o secador, regulou na temperatura mais fraca e terminou de deixá-lo sequinho. O filhote piscava devagar. Já não parecia tão assustado. Parecia… seguro. Arya deixou o aparelho de lado e o colocou sobre a coberta. Ele cambaleou por dois passos, desajeitado, e depois se sentou, olhando para ela como se estivesse tentando entender quem era aquela humana improvável que tinha mudado seu destino naquela noite. Ela soltou uma risada baixa. — Não me olha assim como se eu fosse sua heroína. Eu sou péssima com responsabilidades. O gatinho inclinou a cabeça. Arya perdeu a batalha ali mesmo. — Ah, pronto. Agora eu tô apaixonada. Levantou-se e foi até a cozinha minúscula. Abriu a geladeira. Não havia muito — como quase sempre. Pegou um pouco de leite, colocou em um pires raso e voltou para o quarto. Ajoelhou-se no chão e empurrou devagar em direção a ele. — Não é o ideal… mas é o que a gente tem hoje, ok? O cheiro chamou a atenção imediatamente. O filhote se aproximou, primeiro hesitante, depois com mais vontade, e começou a lamber como se não comesse havia dias. Arya observou em silêncio. O coração dela, que andava sempre em estado de alerta, duro pelas pancadas da vida, pareceu amolecer um pouco. Talvez salvar alguém não fosse grandioso como nos filmes. Talvez fosse apenas isso. Um apartamento pequeno. Uma toalha. Um pires de leite. E a decisão de não virar as costas. Ela puxou as pernas contra o peito, apoiando o queixo nos joelhos. — Você precisa de um nome… — murmurou. O gatinho continuou concentrado na tarefa mais importante do universo: beber cada gota. Arya começou a pensar em voz alta. — Caramelo? Não… muito óbvio. — Floquinho? Você não parece um floquinho. — Romeu? Dramático demais. Ele levantou a cabecinha, com um bigodinho branco de leite. Arya riu. — Latte. O nome saiu sem aviso. Ela repetiu, testando. — Latte… — sorriu. — Combina com você. Pequeno, quente e salvador de noites ruins. O gatinho piscou. A decisão estava tomada. Arya se inclinou e fez um carinho suave atrás da orelha dele. — Bem-vindo a sua nova casa, Latte. Casa. Ela nunca tinha gostado muito dessa palavra. Mas, vendo o filhote agora mais calmo, a barriguinha finalmente cheia, enrolando-se desajeitado perto dela como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo… Talvez pudesse aprender. Arya pegou uma almofada extra, improvisou uma caminha ao lado da sua e deitou. Latte, depois de alguns segundos de indecisão, caminhou até ela e se acomodou colado à sua perna. Quente. Presente. Real. Arya apagou a luz. O cansaço do dia caiu sobre ela como uma maré pesada, mas, pela primeira vez em muito tempo, não havia apenas solidão esperando na escuridão. Havia um pequeno ronronar. Baixinho. Constante. E, estranhamente, reconfortante. — Boa noite, Latte… — sussurrou, já quase dormindo. O ronronar foi a resposta. E Arya adormeceu com a sensação rara de que, mesmo em meio ao caos que a perseguia… algo bom tinha encontrado o caminho até ela.
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