A noite caiu pesada sobre o castelo.
O quarto de Ewan estava mergulhado em sombras, iluminado apenas pelo fogo baixo da lareira. O cheiro de ervas e sangue seco ainda impregnava o ar.
Ele estava acordado.
Sempre.
Os olhos claros fixos no teto de pedra, a mente muito mais desperta do que o corpo ferido permitiria.
Rowena não lhe saía da cabeça.
A voz dela ainda ecoava não como rainha, mas como mulher.
Como alguém que o escolhera quando ele próprio não acreditava ser digno de escolha.
E então, como uma lâmina finalmente encontrando a brecha da armadura, a verdade se impôs.
Ele a amava.
Não como um juramento político.
Não como dever.
Mas como algo que o tornava vulnerável demais.
O lobo sabia reconhecer o perigo.
E Rowena… era o único perigo que ele não conseguia afastar com uma espada.
Ewan fechou os olhos, o maxilar travado.
Se ela o visse assim…
Deitado.
Quebrado.
Dependente de curandeiros.
Respirando com dificuldade como um velho antes do tempo.
Não.
Ele enfrentara exércitos inteiros sem hesitar, mas aquela ideia o paralisava.
— Você não pode me ver fraco… — murmurou no vazio.
Porque, para Ewan, fraqueza nunca fora apenas dor física.
Era perder o controle.
Era permitir que alguém enxergasse o homem por trás do lobo.
E se Rowena visse isso…
Ele não temia o desprezo.
Temia algo muito pior.
Que ela se preocupasse.
Que sofresse.
Que carregasse o peso de sua possível perda.
Ele preferia ser odiado.
Preferia ser chamado de frio, c***l, distante.
Qualquer coisa… menos ser a causa da dor nos olhos dela.
Ewan virou o rosto para a porta fechada.
Sabia exatamente onde ela estaria naquela hora.
Talvez sentada à beira da cama.
Talvez andando de um lado para o outro, inquieta.
Talvez tentando ser forte como sempre fora.
Ela aprendera a lutar.
A governar.
A enfrentar homens que a subestimavam.
Tudo isso… por ele.
O peito de Ewan apertou, e não era só pela costela quebrada.
— Eu amo você — pensou, as palavras pesadas demais para dizer em voz alta.
Amar, para ele, nunca fora promessa de conforto.
Era risco.
Era entrega.
Era baixar a guarda.
E ele ainda não conseguia.
Não agora.
Não enquanto estivesse deitado, sangrando por dentro, incapaz de proteger sequer a si mesmo.
O lobo preferia sangrar em silêncio
a permitir que a única pessoa que amava
o visse cair.
A noite seguinte chegou mais fria do que as anteriores.
O vento uivava do lado de fora do castelo, atravessando frestas antigas, fazendo as chamas da lareira tremerem como se também sentissem o inverno se aprofundar. A lua estava alta, pálida, quase c***l.
Ewan estava acordado.
De novo.
O corpo doía menos do que nos primeiros dias, mas a mente…
a mente era um campo de batalha que não cessava.
Ele pensou em Rowena.
Pensou nela tremendo sob os cobertores grossos.
Pensou em como, mesmo no castelo, o frio parecia sempre encontrá-la primeiro.
Pensou em como ela fingia não sentir, do mesmo modo que ele fingia não doer.
A mão dele se fechou lentamente sobre o lençol.
— Você odeia o frio… — murmurou, quase como se ela pudesse ouvi-lo.
Recordou-se do inverno passado, dela se aproximando no sono, buscando calor sem perceber. Do peso leve da cabeça em seu peito. Do modo como o mundo ficara estranhamente silencioso naquele instante, como se nada mais importasse além de protegê-la.
Agora, ela estava do outro lado de paredes grossas.
Afastada por ordem dele.
O lobo sempre soubera suportar o frio.
No campo de batalha, ele era um aliado.
Afiava os sentidos.
Mantinha a mente clara.
Mas aquela noite…
o frio não vinha de fora.
Vinha da ausência.
Ewan virou o rosto, encarando a porta fechada mais uma vez.
— Eu deveria deixá-la entrar — pensou, os dentes cerrados. — Deveria deixar você ver que ainda estou vivo.
Mas a imagem vinha logo depois, implacável.
Rowena ajoelhada ao lado da cama.
Os olhos atentos demais.
A mão tocando suas bandagens.
A expressão de medo contido não por ela… mas por ele.
O peito de Ewan apertou.
Não.
Ele não suportaria isso.
Preferia que ela gritasse com ele.
Preferia que o odiasse por afastá-la.
Preferia carregar sozinho aquela dor.
Porque o amor que sentia por Rowena não era suave.
Era feroz.
Instintivo.
Protetor demais para ser gentil.
O vento soprou mais forte, fazendo a janela vibrar.
Ewan fechou os olhos.
— Aguente só mais um pouco — disse em pensamento, como se falasse diretamente com ela. — Quando eu puder ficar de pé… quando eu puder ser o lobo de novo…
A frase morreu antes de terminar.
Porque, no fundo, ele sabia.
Rowena não queria o lobo.
Ela queria o homem.
E essa era a batalha mais difícil que Ewan MacAllister já enfrentara.
Naquela noite gelada, o grande lobo da Escócia medieval permaneceu imóvel em sua cama, lutando não contra exércitos…
mas contra o medo de deixar alguém amá-lo por inteiro