LIV

832 Palavras
A noite caiu pesada sobre o castelo. O vento uivava contra as muralhas, infiltrando-se por frestas antigas, e a lareira lutava para aquecer o quarto real. Mesmo envolta em várias camadas de cobertores grossos, Rowena tremia de leve, tentando não chamar atenção para o frio que lhe percorria o corpo. Ao seu lado, Ewan estava acordado. Ele sempre estava. Deitado de costas, os olhos fixos no teto escuro, sentia cada pequeno movimento dela. O estremecer quase imperceptível. A respiração que mudava quando o vento batia mais forte. Rowena apertou o cobertor contra o peito. Pensou no mercado. No poço. Nas crianças brincando com gravetos. Se ali, cercada por pedra, fogo e lã espessa, o frio era c***l… o que restava aos que dormiam em casas de madeira m*l vedadas? — Ewan… — chamou em voz baixa, quebrando o silêncio da noite. Ele virou levemente o rosto. — Diga. — Hoje… ouvi os camponeses falando — começou ela. — Sobre o inverno. Sobre como está pior do que o esperado. Ela respirou fundo. — Se aqui é assim — murmurou, tremendo outra vez —, lá fora deve ser insuportável. Ewan franziu levemente o cenho, já entendendo onde ela queria chegar. — Quer que eu libere os estoques — disse. Rowena virou-se de lado para encará-lo. — Quero que mande os soldados entregarem mantas e cobertores — afirmou. — Casa por casa, se for preciso. Antes que o frio leve mais do que a fome. Ewan ficou em silêncio por alguns segundos. Não por discordar. Mas por calcular. Estoques. Rotas. Tempo. Homens disponíveis. — Amanhã ao amanhecer — disse por fim. — As patrulhas levarão mantas para as vilas mais expostas primeiro. Rowena sentiu o peito aliviar. — Obrigada, meu rei. O vento soprou mais forte, fazendo a chama da lareira oscilar. Rowena tremeu de novo, apesar dos cobertores. Sem dizer nada, Ewan se moveu. Puxou-a com firmeza controlada, trazendo-a mais para perto de si. Um gesto simples, quase automático como proteger um flanco vulnerável em batalha. Rowena prendeu a respiração por um instante, surpresa. — Não desperdice calor — murmurou ele. — Estratégia básica. Ela sorriu, mesmo escondida sob os cobertores. — Claro — respondeu. — Estratégia. Aos poucos, o tremor cessou. No silêncio do quarto, enquanto o inverno castigava o reino, dois governantes pensavam no mesmo problema… e na mesma solução. Lá fora, o frio avançava. Mas naquela noite, decisões haviam sido tomadas. E elas aqueceriam mais do que apenas um quarto. O amanhecer chegou cinzento e cortante. Uma névoa espessa cobria a vila quando os portões do castelo se abriram. O som de cascos e botas ecoou pelas ruas estreitas, anunciando a chegada dos soldados antes mesmo que fossem vistos. Os camponeses saíram de suas casas com cautela. Alguns desconfiados. Outros curiosos. Muitos cansados demais para sentir surpresa. As patrulhas avançavam organizadas, mas sem a rigidez intimidadora de tempos de guerra. Em seus braços, carregavam fardos de lã grossa, mantas enroladas, cobertores pesados cada um marcado com o selo real. — Por ordem de Suas Majestades, o rei Ewan MacAllister e a rainha Rowena MacAllister — anunciou um capitão, a voz firme, porém respeitosa. — Estas mantas são para enfrentar o inverno. Não há custo. Não há tributo. Um murmúrio atravessou a rua como uma onda contida. Uma mulher idosa aproximou-se devagar, apoiada num cajado torto. — Isso… isso é para nós? — perguntou, incrédula. O soldado inclinou a cabeça. — Para a senhora. Para seus netos. Para quem precisar. Ela levou a mão ao peito, os olhos marejados. — Que os deuses protejam esse rei… — murmurou. Em outra rua, crianças riam ao se enrolarem em cobertores grandes demais, arrastando as pontas pelo chão de pedra. Uma mãe as puxou para perto, apertando-as contra si. — Vão dormir quentes hoje — disse, com a voz embargada. Perto do celeiro comunal, um homem jovem observava os soldados com desconfiança. — E depois? — perguntou. — Vão cobrar isso na primavera? O capitão respondeu sem hesitar: — Não. A ordem foi clara. O inverno não se paga. A notícia correu rápido. — Foi ideia da rainha — cochichou alguém. — O rei concordou na hora..ele sempre concorda com ela— respondeu outro. — Então ela o mudou… — Não — corrigiu um velho, enrolando a manta nos ombros. — Ela o equilibrou. Ao meio-dia, quase todas as casas já haviam recebido algo. Não havia alvoroço exagerado, nem gritos de celebração. Havia algo mais raro. Alívio. No alto da colina, do pátio do castelo, Rowena observava tudo em silêncio, envolta em um manto escuro. Ewan estava ao seu lado, os braços cruzados, atento como sempre. — Eles aceitaram — disse ela, com um suspiro leve. — O frio convence mais do que discursos — respondeu ele. Rowena olhou para ele então. — E você não hesitou. Ewan manteve os olhos na vila. — Um reino que congela não luta — disse. — Nem confia. Ela sorriu. Lá embaixo, o povo se aquecia
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