LXX

1222 Palavras
A torre estava silenciosa. O corredor que levava aos aposentos reais permanecia sob guarda dupla, mas quando Callum se aproximou, bastou um olhar para que os homens lhe dessem passagem. Ele bateu duas vezes na porta de madeira escura. — Entre. A voz de Ewan estava baixa. Desperta. Callum entrou. O rei estava perto da lareira, sem a capa formal do baile, apenas a camisa escura aberta no colarinho. A coroa repousava sobre a mesa. Rowena não estava ali, estava sendo preparada para dormir por suas criadas. Ewan levantou os olhos. E, no instante em que viu o rosto de Callum, soube. — Fale. Callum relatou tudo. O jardim. Os homens. As palavras exatas. “Se a rainha desaparecer…” “Criar uma distração…” “Provocar o rei…” O silêncio que se seguiu foi pesado. Ewan não interrompeu uma única vez. Quando Callum terminou, esperava fúria. Esperava a explosão que já tinha visto antes não no salão, mas nos campos de batalha. Esperava ordens imediatas de prisão. Em vez disso… Ewan começou a rir. Baixo no início. Depois mais claro. Não era um riso alegre. Era o tipo que surge quando alguém ousa algo tão absurdo que ultrapassa o medo. Callum nunca tinha ouvido aquilo. — Sequestrar minha rainha… — murmurou Ewan, passando a mão pelo rosto. — Dentro do meu reino. Ele voltou a rir, balançando a cabeça. — Audacioso. Callum permaneceu imóvel. — Majestade… Ewan ergueu o olhar. E o riso morreu. O que restou nos olhos dele fez o ar do aposento parecer mais frio que o pátio lá fora. — Ele acha que me conhece. Ewan caminhou até a janela estreita da torre, observando a escuridão do castelo abaixo. — Acha que, se ela desaparecer, eu perderei o controle. Sua voz era calma demais. — Acha que reagirei com impulsividade. Ele virou-se lentamente. — Ele está certo em uma coisa. Callum esperou. — Eu queimaria reinos inteiros por ela. O silêncio ficou absoluto. — Mas ele se esqueceu de algo. Ewan aproximou-se da mesa, apoiando as mãos sobre a madeira. — Eu não sou apenas um marido. O olhar que encontrou o de Callum era afiado como lâmina recém-afiada. — Sou um estrategista. Ele endireitou-se. — Se querem criar distração… nós criaremos uma maior. Callum franziu o cenho. — Majestade? Ewan pegou a coroa da mesa, girando-a entre os dedos como se fosse apenas metal comum. — A partir de amanhã, espalhe discretamente que a rainha fará uma visita à vila do norte em três dias. Callum piscou. — Mas ela não fará. — Exato. Um meio sorriso surgiu nos lábios de Ewan. — Dobremos a escolta real naquela direção. Movimente guardas. Faça parecer que é prioridade máxima. Ele se aproximou mais. — Enquanto isso, reforçamos as muralhas internas. Mudamos rotas. Alteramos horários. E mantemos Rowena dentro da ala leste sob pretexto de planejamento político. Callum compreendeu. — Vamos deixá-los agir. — Vamos deixá-los acreditar que estão no controle. O riso anterior havia desaparecido completamente. Restava apenas cálculo. — E quando tentarem executar o plano… — Ewan concluiu, a voz baixa e firme — …teremos provas suficientes para esmagar essa conspiração de uma vez. Ele caminhou até a porta do quarto interno. Antes de entrar, parou. — Callum. — Majestade. — Dobre sua própria guarda. Não confie em ninguém que não tenha sangrado ao meu lado. — Sim, senhor. Ewan abriu a porta parcialmente. A luz mais suave do quarto revelou a silhueta de Rowena já deitada. Ele a observou por um segundo. O riso não voltou. Mas algo mais perigoso surgiu. Determinação. — Ele quis brincar com o lobo — murmurou, quase para si mesmo. — Agora aprenderá o que acontece quando a matilha caça. E fechou a porta. O boato espalhou-se como fogo em palha seca. Callum fez exatamente como Ewan ordenara. Nada oficial. Nada proclamado. Apenas murmúrios “acidentais” nos corredores certos. Um comentário perto dos estábulos. Uma confirmação casual a um capitão de ronda. Uma observação descuidada diante de um criado que claramente não sabia manter a boca fechada. — A rainha visitará a vila do norte em três dias. — Ordem direta do rei. — Escolta reforçada. Em menos de vinte e quatro horas, metade do castelo já comentava a suposta saída de Rowena. E, como esperado, os homens ligados ao conselheiro tornaram-se mais atentos. Mais tensos. Callum observava. Ewan também. Na manhã do terceiro dia, o pátio estava movimentado demais. Guardas posicionados. Cavalos preparados. Bandeiras reais presas às lanças. A carruagem com o brasão do reino aguardava no centro. Tudo teatralmente correto. Do alto da janela da ala leste, Rowena observava. Ela sabia. Ewan contara tudo a ela na noite anterior. Não escondera nada. Ela ficara em silêncio quando ele terminara. Depois dissera apenas: — Então deixe-os tentar, meu rei. Agora, vestida com roupas simples, sem joias, ela permanecia protegida na parte mais interna do castelo, cercada pelos homens mais leais de Ewan. O conselheiro assistia à movimentação do outro lado do pátio. Disfarçava interesse. Mas seus olhos calculavam. Callum percebeu o leve gesto que ele fez a um homem encostado perto do portão principal. O jogo começara. A carruagem partiu sob escolta pesada. Guardas à frente. Guardas atrás. Bandeiras visíveis. Tudo como esperado. A estrada que levava à vila do norte era estreita e ladeada por bosque fechado em certos trechos. Lugar perfeito para uma emboscada. O vento era frio. O silêncio da mata, suspeito. Então aconteceu. Um grupo de homens mascarados surgiu entre as árvores. Rápidos. Precisos. Não atacaram os guardas da frente. Atacaram a lateral da carruagem. Exatamente como planejado. Flechas voaram. Um cavalo relinchou. Dois soldados caíram vivos, mas derrubados estrategicamente. Eles não queriam batalha. Queriam rapidez. Dois homens abriram a porta da carruagem com brutalidade. Um deles sorriu sob a máscara. — Acabou, majestade— A frase morreu. Porque quem estava dentro não era Rowena. Ewan saiu primeiro. Sem coroa. Sem manto real. Apenas armadura leve sob o manto escuro. Os olhos dele eram gelo puro. O primeiro homem m*l teve tempo de reagir. A lâmina de Ewan foi rápida. Precisa. O segundo tentou recuar. Tarde demais. Os guardas, já preparados para aquilo, fecharam o cerco. Não houve pânico. Não houve surpresa do lado real. Houve armadilha. Ewan avançava como se estivesse em campo de batalha. Cada movimento controlado. Cada golpe econômico. Em poucos minutos, os mascarados estavam no chão mortos ou rendidos. Um deles tentou fugir para o bosque. Callum o interceptou. Empurrou-o contra o tronco de uma árvore. — Quem enviou vocês? O homem cuspiu sangue. Mas quando viu Ewan se aproximando… O medo foi mais forte. — O… o conselheiro… ele disse que seria fácil… que o rei estaria longe… Ewan parou diante dele. — Ele subestimou a parte errada do plano. O homem foi imobilizado. Os sobreviventes amarrados. Provas vivas. Ewan limpou a lâmina na capa de um dos traidores. Seu olhar estava calmo. Demais. — Levem-nos de volta — ordenou. — Quero que confessem diante do conselho. Callum assentiu. Enquanto o grupo retornava ao castelo, o vento cortava mais forte. Mas não era o inverno que esfriava o ar. Era a certeza do que viria. Quando o conselheiro visse a carruagem retornar intacta… Ewan não estaria rindo. Desta vez, ele estaria expondo. E esmagando. E o reino inteiro assistiria.
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