LXI

915 Palavras
Na manhã seguinte, o quarto real ainda estava envolto por uma penumbra fria e silenciosa. Rowena despertou devagar, como aprendera a fazer desde que passara a dividir a cama com um homem treinado para a guerra. Antes mesmo de abrir completamente os olhos, percebeu o ritmo da própria respiração e, quase no mesmo instante, sentiu algo mudar ao seu lado. Ewan permanecia imóvel. Respiração profunda. Regular. O rosto sereno demais para alguém que realmente dormia. Ela não se mexeu de imediato. Ficou ali, observando-o de soslaio, atenta a detalhes que poucos notariam: a tensão quase imperceptível no maxilar, o peito que subia e descia com uma constância excessivamente controlada, a mão repousada perto da espada mesmo dormindo. Ele acordou, pensou. Não era a primeira vez. Rowena tinha quase certeza de que toda vez que sua respiração mudava, Ewan despertava. Como um lobo que reconhece o menor deslocamento de ar ao redor. Mas, assim como em todas as outras manhãs, não havia prova alguma. Apenas a intuição afiada que aprendera a confiar. Ela se virou um pouco mais, estudando-o. Se eu falar algo agora, ele fingirá acordar. Se me mover rápido demais, ele reagirá. Então fez o que sabia fazer melhor: testou o silêncio. Rowena mudou a respiração de propósito lenta, depois mais curta como quem desperta de um sonho inquieto. O corpo de Ewan não se moveu… mas ela viu o músculo do antebraço se contrair levemente. Quase sorriu. — Astuto — murmurou para si mesma, sem som. Ainda assim, não o confrontou. Não valia a pena. Questionar Ewan sem provas era como tentar encurralar um predador sem rede. Levantou-se com cuidado, afastando os cobertores devagar. Observou atentamente: nenhum movimento brusco, nenhum sobressalto. Ele continuava ali, perfeitamente imóvel, perfeitamente… atento. Antes de se afastar, porém, Rowena hesitou. Aproximou-se um pouco mais, o suficiente para ver o rosto dele à luz fraca da manhã. Havia algo diferente naquela expressão endurecida mesmo em falso repouso. Ele confia em mim, percebeu. Porque só se finge vulnerável perto de quem não teme. Esse pensamento aqueceu algo em seu peito. Ela se ergueu, pegou o manto e caminhou até a janela, sem olhar para trás. Atrás dela, Ewan abriu os olhos no instante exato em que teve certeza de que estava sozinho. Ficou alguns segundos imóvel, encarando o teto. Ela percebe. Ela sempre percebe. E, pela primeira vez em muito tempo, isso não o incomodava. Pelo contrário. Havia algo estranhamente reconfortante em dividir o silêncio com alguém que sabia observar… e escolhia, assim como ele, não dizer nada. Os dias que se seguiram começaram a se transformar de forma tão sutil que nenhum dos dois soube apontar o instante exato em que o respeito virou cuidado e o cuidado, algo perigosamente próximo de amor. Não houve declarações. Não houve promessas. Houve presença. Ewan passou a acordar antes do nascer do sol, como sempre fizera. A diferença era que, agora, não deixava o quarto imediatamente. Sentava-se à mesa com mapas e relatórios, mas seus olhos voltavam, vez ou outra, para a cama onde Rowena dormia. Observava o ritmo da respiração dela, o franzir leve da testa quando sonhava, o modo como se encolhia no frio. Em uma dessas manhãs, sem pensar muito, colocou mais lenha na lareira antes de sair. Quando Rowena acordou e percebeu o quarto aquecido, não perguntou nada. Mas, no desjejum, disse apenas: — A noite foi menos c***l hoje. Ewan respondeu sem erguer os olhos da xícara: — O inverno é longo, minha rainha. Mas ela percebeu o quase imperceptível suavizar do olhar. Os treinos mudaram também. Continuavam duros. Exigentes. Mas agora Ewan explicava mais. — Seu erro não foi a força — disse certa vez, ajustando a posição da espada nas mãos dela. — Foi o impulso. Rowena ergueu o olhar para ele, o rosto suado, a respiração ofegante. — Você também era assim? Ele hesitou. — Antes de aprender o preço. Ela não sorriu. Apenas assentiu, compreendendo mais do que ele esperava. Quando Rowena errava, Ewan corrigia com firmeza. Quando acertava… ele assentia uma única vez, breve, mas orgulhoso. E isso, para ela, valia mais do que qualquer elogio. Diante dos conselheiros, tornaram-se uma força única. Ewan falava pouco. Rowena falava quando necessário. Quando um se calava, o outro continuava. Certa vez, após uma reunião particularmente tensa, Ewan caminhou ao lado dela pelo corredor de pedra. — Você não precisava ter dito aquilo — comentou. — Precisava — respondeu ela, sem hesitar. — Eles estavam tentando dobrá-lo. Ele parou de andar. Rowena percebeu tarde demais e virou-se. Ewan a observava com intensidade. — Ninguém nunca fez isso por mim — disse ele, baixo. — Não dessa forma. Ela sentiu o peso daquelas palavras. — Então se acostume — respondeu com suavidade. — Sou sua rainha. Ele inclinou a cabeça, um gesto quase reverente. As noites tornaram-se o território mais perigoso. Sem perceber quando começou, Ewan passou a esperar que Rowena se aproximasse quando o frio apertava. E Rowena, sem pensar, buscava o calor dele. Ele começou a deixar espadas menos afiadas nos lugares onde ela treinava sozinha. Ela passou a organizar seus relatórios de guerra, marcando com tinta vermelha os pontos mais perigosos. Certa tarde, Rowena encontrou Ewan no jardim, sentado no banco de pedra, o olhar distante. Sentou-se ao lado dele, sem dizer nada. Depois de um tempo, ele falou: — Quando estou com você… o silêncio não pesa. Rowena sentiu o coração apertar. — Com você — respondeu — o silêncio não assusta
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR