O campo de treino nunca estivera tão silencioso e, ao mesmo tempo, tão cheio de expectativa.
Era manhã de quarta-feira.
O frio ainda mordia a grama, o céu estava pálido, e o vapor da respiração subia em pequenas nuvens enquanto as mulheres se reuniam, uma a uma, diante do portão do castelo.
Algumas vinham com passos firmes.
Outras hesitavam.
Havia mãos trêmulas, olhares determinados, rostos jovens e outros marcados por anos de trabalho duro.
Nenhuma vestia armadura.
Algumas traziam apenas vestidos simples, saias grossas, capas gastas.
Mas todas tinham algo em comum: estavam ali por escolha própria.
No alto da muralha, Ewan observava em silêncio.
Os braços cruzados, postura reta, expressão impassível o mesmo lobo de sempre. Mas os olhos… atentos de um jeito diferente.
Rowena estava ao seu lado, envolta em um manto pesado, as mãos entrelaçadas à frente do corpo. Ela respirou fundo ao ver o número crescer.
— Vieram mais do que eu imaginava — murmurou.
— Vieram mais do que o conselho suportaria — respondeu Ewan, seco.
Ela sorriu de leve.
No campo, os soldados se alinharam. Alguns rígidos demais. Outros claramente desconfortáveis. Havia quem evitasse encarar as mulheres diretamente e havia quem as observasse com curiosidade respeitosa.
O capitão deu dois passos à frente.
— Atenção!
As conversas cessaram.
— Ninguém aqui veio para provar nada — ele disse, a voz ecoando. — Vieram para aprender a não morrer à mercê de ninguém.
Ewan aprovou em silêncio.
Rowena sentiu o peito apertar.
As primeiras armas foram distribuídas: bastões de madeira, simples, leves. Nada de espadas ainda. Apenas o começo.
Uma mulher mais velha cabelos grisalhos presos em um nó firme segurou o bastão com força excessiva. Outra, jovem demais, parecia quase engolida pelo peso da madeira. Uma terceira ergueu o queixo, desafiadora.
Rowena se inclinou levemente para frente, sem perceber.
— Olhe aquela ali — sussurrou, apontando discretamente para uma camponesa de mãos calejadas. — Ela já sabe onde firmar os pés.
Ewan seguiu o olhar.
— Trabalha na terra — disse. — Força vem do chão.
Rowena o encarou, surpresa por ele comentar.
No campo, começaram os primeiros movimentos. Desajeitados. Incertos. Bastões que se chocavam fora de tempo. Risos nervosos. Um tropeço. Uma ajuda oferecida.
E então… algo mudou.
Uma das mulheres conseguiu desarmar a parceira. Outra se recompôs após cair. Uma terceira riu alto, orgulhosa, ao perceber que era capaz.
Rowena sentiu os olhos arderem.
— Elas estão percebendo — sussurrou. — Que não são frágeis.
Ewan não respondeu de imediato.
Observava tudo com atenção militar, mas havia algo novo ali respeito cru, sem ornamento.
— Sempre foram capazes — disse por fim. — Só nunca tiveram permissão.
Rowena virou-se para ele.
— Obrigada, meu rei.
Ele franziu o cenho.
— Não me agradeça por fazer o que devia ter sido feito há gerações.
Ela sorriu, o coração leve.
Lá embaixo, uma das mulheres ergueu o bastão no ar, rindo, o rosto corado pelo frio e pelo esforço. Outras a imitaram, como se aquele gesto simples fosse uma bandeira.
Ewan respirou fundo.
O lobo observava sua matilha crescer