LXVI

515 Palavras
O campo de treino nunca estivera tão silencioso e, ao mesmo tempo, tão cheio de expectativa. Era manhã de quarta-feira. O frio ainda mordia a grama, o céu estava pálido, e o vapor da respiração subia em pequenas nuvens enquanto as mulheres se reuniam, uma a uma, diante do portão do castelo. Algumas vinham com passos firmes. Outras hesitavam. Havia mãos trêmulas, olhares determinados, rostos jovens e outros marcados por anos de trabalho duro. Nenhuma vestia armadura. Algumas traziam apenas vestidos simples, saias grossas, capas gastas. Mas todas tinham algo em comum: estavam ali por escolha própria. No alto da muralha, Ewan observava em silêncio. Os braços cruzados, postura reta, expressão impassível o mesmo lobo de sempre. Mas os olhos… atentos de um jeito diferente. Rowena estava ao seu lado, envolta em um manto pesado, as mãos entrelaçadas à frente do corpo. Ela respirou fundo ao ver o número crescer. — Vieram mais do que eu imaginava — murmurou. — Vieram mais do que o conselho suportaria — respondeu Ewan, seco. Ela sorriu de leve. No campo, os soldados se alinharam. Alguns rígidos demais. Outros claramente desconfortáveis. Havia quem evitasse encarar as mulheres diretamente e havia quem as observasse com curiosidade respeitosa. O capitão deu dois passos à frente. — Atenção! As conversas cessaram. — Ninguém aqui veio para provar nada — ele disse, a voz ecoando. — Vieram para aprender a não morrer à mercê de ninguém. Ewan aprovou em silêncio. Rowena sentiu o peito apertar. As primeiras armas foram distribuídas: bastões de madeira, simples, leves. Nada de espadas ainda. Apenas o começo. Uma mulher mais velha cabelos grisalhos presos em um nó firme segurou o bastão com força excessiva. Outra, jovem demais, parecia quase engolida pelo peso da madeira. Uma terceira ergueu o queixo, desafiadora. Rowena se inclinou levemente para frente, sem perceber. — Olhe aquela ali — sussurrou, apontando discretamente para uma camponesa de mãos calejadas. — Ela já sabe onde firmar os pés. Ewan seguiu o olhar. — Trabalha na terra — disse. — Força vem do chão. Rowena o encarou, surpresa por ele comentar. No campo, começaram os primeiros movimentos. Desajeitados. Incertos. Bastões que se chocavam fora de tempo. Risos nervosos. Um tropeço. Uma ajuda oferecida. E então… algo mudou. Uma das mulheres conseguiu desarmar a parceira. Outra se recompôs após cair. Uma terceira riu alto, orgulhosa, ao perceber que era capaz. Rowena sentiu os olhos arderem. — Elas estão percebendo — sussurrou. — Que não são frágeis. Ewan não respondeu de imediato. Observava tudo com atenção militar, mas havia algo novo ali respeito cru, sem ornamento. — Sempre foram capazes — disse por fim. — Só nunca tiveram permissão. Rowena virou-se para ele. — Obrigada, meu rei. Ele franziu o cenho. — Não me agradeça por fazer o que devia ter sido feito há gerações. Ela sorriu, o coração leve. Lá embaixo, uma das mulheres ergueu o bastão no ar, rindo, o rosto corado pelo frio e pelo esforço. Outras a imitaram, como se aquele gesto simples fosse uma bandeira. Ewan respirou fundo. O lobo observava sua matilha crescer
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