O amanhecer chegou pálido, coberto de neve fresca.
O pátio de treinamento ainda estava quase vazio quando Ewan entrou, envolto no manto escuro, a expressão tão controlada quanto sempre fora. Os soldados se alinharam em silêncio atentos, respeitosos, esperando o Lobo.
Rowena veio logo depois.
Vestia roupas de treino, os cabelos presos de forma prática, o olhar focado. Ao vê-la ali, firme apesar do frio cortante, algo no peito de Ewan se ajustou, como uma decisão tomada ainda durante a noite.
— Hoje — disse ele, caminhando até o centro do pátio — você luta comigo.
Os murmúrios foram imediatos.
Rowena ergueu o olhar, surpresa… e animada.
— Sem contenção? — perguntou.
— Sem condescendência — corrigiu ele. — Como uma guerreira.
Eles se posicionaram.
Espada contra espada.
O primeiro avanço foi dela rápido, calculado. Ewan bloqueou com facilidade, como sempre fizera. Corrigiu postura, ritmo, distância. Os soldados observavam, atentos, esperando o momento em que o rei encerraria o combate.
Mas ele não encerrou.
Rowena atacou novamente. Mais confiante. Mais precisa.
Ewan viu.
Viu o progresso.
Viu a coragem.
Viu a decisão.
No momento seguinte, ele escolheu.
Quando Rowena avançou em um golpe lateral, Ewan poderia ter bloqueado. Poderia ter desarmado. Poderia ter terminado ali.
Mas não o fez.
A lâmina dela tocou o ombro dele.
Um golpe limpo.
Um silêncio absoluto caiu sobre o pátio.
Rowena congelou.
— Eu… — começou, recuando, alarmada — Ewan, eu não…
Ele levantou a mão, interrompendo-a.
O olhar dele percorreu os soldados, firme, incontestável.
— O golpe foi correto — disse alto. — A leitura do movimento, precisa. A execução, firme.
Depois voltou-se para ela.
— Você venceu aquele momento.
O rosto de Rowena se iluminou de um jeito que ele nunca tinha visto antes no campo de treinamento.
Não era vaidade.
Era confiança.
— Você deixou — disse ela, ainda ofegante, tentando entender.
Ewan assentiu uma única vez.
— Porque você precisava sentir.
Antes que ele pudesse dizer mais, Rowena largou a espada no chão e avançou.
O abraço veio forte, impulsivo, inteiro.
Os braços dela o envolveram com tanta força que ele precisou firmar os pés. O rosto dela se enterrou no peito dele, e ele sentiu a risada abafada, a alegria pura que transbordava.
— Obrigada — disse ela, a voz embargada. — Você não faz ideia do que isso significa pra mim.
Ewan hesitou apenas um segundo… então ergueu o braço e a envolveu de volta, firme, protetor, sem se importar com os olhares ao redor.
E, naquele instante, entre o frio da manhã e o espanto dos soldados, ele soube:
Valeu a pena.
Não a vitória.
Não o treino.
Mas vê-la acreditar em si mesma.
O Lobo, ensinara não com dureza mas com confiança.
E nunca um golpe recebido lhe parecera tão certo.
A notícia não demorou a subir as escadas do castelo.
Não veio pelos jovens que falavam com admiração contida, mas por um soldado antigo, daqueles que carregavam mais tradição do que cicatrizes recentes. Um homem de barba grisalha, costas rígidas e olhar permanentemente desconfiado das mudanças.
Ele pediu audiência ao conselho naquela mesma tarde.
E falou.
A sala do conselho logo se encheu de vozes exaltadas.
— Permitir que a rainha empunhe uma espada é uma afronta aos costumes!
— Isso enfraquece a imagem do rei!
— O povo vai confundir respeito com desordem!
O mais velho entre eles bateu o bastão no chão de pedra.
— O reino sempre foi governado por homens que sabiam separar guerra e lar!
Ewan estava sentado à cabeceira da mesa.
Imóvel.
Silencioso.
O Lobo ouvindo.
Rowena não estava presente por escolha dele. Não porque duvidasse da força dela, mas porque sabia exatamente o que faria se fosse provocada. Ewan queria medir até onde aquele ruído iria.
— Majestade — insistiu um conselheiro, virando-se para ele — isso precisa cessar imediatamente. A rainha deve ser protegida, não armada.
Ewan ergueu o olhar.
O silêncio caiu como lâmina.
— Protegida de quê? — perguntou, a voz baixa, perigosa.
— Do mundo como ele é — respondeu o conselheiro mais velho. — De escolhas que não cabem a uma mulher.
Ewan se levantou.
Não houve pressa. Não houve fúria aberta. Apenas o movimento controlado de quem já decidira o fim da discussão antes mesmo de ela começar.
— O mundo como ele é… — repetiu. — Foi moldado por homens que confundem tradição com medo.
Alguns se remexeram nas cadeiras.
— A rainha não treina para desafiar costumes — continuou Ewan. — Treina porque escolheu ser mais do que uma figura decorativa.
Um conselheiro mais novo ousou intervir:
— O povo pode interpretar isso como fraqueza da coroa.
Ewan avançou um passo.
— Fraqueza — disse ele — é um reino que depende da ignorância para se manter de pé.
O mais velho cerrou os dentes.
— Vossa Majestade se esquece de que foi educado sob essas mesmas tradições.
Ewan inclinou a cabeça, um gesto quase respeitoso.
— Não. — O olhar dele se tornou gélido. — Eu sobrevivi a elas.
Silêncio absoluto.
— A rainha continuará treinando — concluiu. — E quem ousar desrespeitá-la por isso… responderá a mim.
Ele virou-se para sair.
Antes de cruzar a porta, lançou o golpe final:
— Vocês me chamam de Lobo porque acreditam que sou feito apenas para a guerra. — Pausa. — Mas lobos protegem sua matilha. E Rowena é minha rainha.
A porta se fechou com firmeza.
Dentro da sala, nenhum conselheiro ousou falar por longos instantes