LXXXVII

1189 Palavras
Ewan permaneceu imóvel no centro da sala do trono muitos minutos depois que Rowena partiu. O silêncio era ensurdecedor. As tochas crepitavam nas paredes de pedra, lançando sombras longas que dançavam sobre o brasão real o lobo branco, símbolo de força, conquista, domínio. Ele soltou um riso baixo e amargo. Domínio. Havia dominado reinos. Subjugado rebeliões. Vencido guerras que pareciam impossíveis. E, ainda assim, não conseguia atravessar a distância de poucos passos entre ele e a própria esposa. Caminhou lentamente até o trono, mas não se sentou. Em vez disso, apoiou as mãos no encosto pesado, a cabeça baixa. Ele lembrava. Lembrava-se de Rowena rindo nos corredores. De suas opiniões firmes nas reuniões. Do modo como ela o enfrentava não como súdita, mas como igual. Agora ela era impecável. Controlada. Fria. E ele sabia que tinha sido o arquiteto daquela muralha. — Eu pedi distância… — murmurou para si mesmo. — E ela me entregou silêncio. Ewan fechou os olhos. A verdade era simples e c***l: ele não suportava que ela o visse vulnerável. O peso da coroa, as decisões sangrentas, os erros… tudo parecia menor quando ela estava ao lado dele. E isso o aterrorizava. Porque depender de alguém sempre fora sua maior fraqueza. Mas agora… Agora ele sentia falta até da discussão mais banal. Endireitou-se devagar. Se aquilo era uma guerra silenciosa, ele estava perdendo. Nos aposentos da rainha, a porta se fechou com um clique suave. Rowena soltou o ar que vinha prendendo desde o corredor. Se apoiou na madeira por um instante. Manter a postura diante dele exigira mais força do que qualquer audiência. Ela caminhou até a janela, afastando as cortinas pesadas. Lá fora, o céu começava a escurecer, tingido de tons violeta e dourado. Ela fechou os olhos. Indiferença era uma armadura. E ela estava aprendendo a usá-la. Meses. Meses tentando atravessar o gelo que ele próprio levantara. Meses pedindo proximidade, diálogo, um gesto. Ele escolhera ser rei antes de ser marido. Então ela escolheria ser rainha antes de ser esposa. — Você queria distância… — murmurou para o reflexo no vidro. — Então terá. Mas a verdade ardia. Fingir não doía menos. Fingir exigia disciplina. E ela era disciplinada. Sentou-se diante da penteadeira e começou a remover lentamente os brincos, os anéis, cada símbolo do papel que desempenhara naquele dia. Não choraria. Não agora. Se ele queria provar força, ela lhe mostraria resistência. Se ele queria gelo, ela se tornaria inverno. Rowena tomou uma decisão silenciosa: Ele sentiria o vazio que impôs a ela. Não com gritos. Não com lágrimas. Mas com ausência. Com respeito formal. Com distância calculada. Com a frieza exata que ele julgava necessária para governar. Do outro lado do castelo, Ewan caminhava até seus próprios aposentos, a sensação estranha de que algo essencial lhe escapava pelos dedos. Eles estavam sob o mesmo teto. No mesmo castelo. No mesmo trono. E, ainda assim, começavam a se tornar estranhos. E nenhum dos dois percebia que aquela guerra silenciosa poderia ser mais devastadora do que qualquer batalha travada com espadas. O amanhecer tingia o campo de treino com uma névoa fina quando Rowena surgiu. Vestia roupas simples de combate. Couro escuro, cabelo preso em uma trança firme, espada presa às costas. Não havia joias. Não havia delicadeza aparente. Havia propósito. Os soldados já estavam posicionados, e no centro do campo, Ewan treinava com dois capitães ao mesmo tempo. Movimentos rápidos. Precisos. Implacáveis. O Lobo. Ele derrubou um dos homens com um giro seco, desarmou o outro com força brutal e então a viu. Por um segundo, perdeu o ritmo. Rowena não hesitou. Caminhou até o suporte de armas, escolheu uma espada e testou o peso com familiaridade. Alguns soldados trocaram olhares. A rainha não treinava havia meses. — Majestade. — murmurou um dos capitães, incerto. — Continuem. — Ewan ordenou, mas seus olhos já não estavam nos homens à sua frente. Rowena entrou no círculo de treino. — Com quem luta hoje, minha rainha? — perguntou um dos soldados, respeitoso. — Com quem estiver disposto a não me poupar. — respondeu ela, firme. E então começou. Seus movimentos eram limpos. Estratégicos. Não havia fúria cega. Havia cálculo. Ela girava, recuava, atacava no momento exato. Observava antes de agir. Antecipava. Ewan reconheceu aquilo. Era o estilo dele. Quando o soldado avançou com força excessiva, Rowena deslizou para o lado e o desarmou com um golpe seco que arrancou murmúrios de surpresa. Ela não sorriu. Apenas estendeu a espada de volta ao homem. — Levante-se. Ewan dispensou seus capitães com um gesto curto. Caminhou até ela. — Não sabia que pretendia voltar aos treinos. — disse, controlado. Rowena limpava a lâmina com um pano. — Há muitas coisas que Vossa Majestade não sabe a meu respeito. — respondeu sem olhar para ele. O tom não era exaltado. Era polido. Ewan sentiu o impacto. — Rowena, precisamos conversar. Ela entregou a espada a um escudeiro e pegou outra. — Estamos conversando. — Não dessa forma. Ela finalmente o encarou. O olhar era firme. Frio. Quase avaliativo. Como se ele fosse apenas mais um comandante diante dela. — Então seja claro, meu rei. Ele deu um passo mais próximo. — Pare de me tratar assim. — Assim como? — Como se eu fosse… irrelevante. Um músculo no maxilar dela se moveu. — Irrelevante? — repetiu, inclinando levemente a cabeça. — Jamais trataria o rei como irrelevante. Arrogância contida. Elegante. Precisa. Ela estava usando as próprias armas dele. — Você sabe do que estou falando. — rosnou Ewan, mais baixo. Rowena girou a espada uma vez, testando o equilíbrio. — Sei, sim. — respondeu. — Estou seguindo seu exemplo. O silêncio ao redor pareceu se expandir. — Não fale como se fosse igual a mim. Ela ergueu uma sobrancelha. — Não sou? O golpe veio limpo. Sem grito. Sem drama. Ewan percebeu então. A doçura impulsiva havia sumido. A mulher que buscava diálogo, que insistia, que o enfrentava com emoção… Não estava ali. No lugar dela havia uma rainha estratégica. Contida. Orgulhosa. Fria. Mas somente com ele. Um soldado se aproximou, hesitante. — Majestade… deseja treinar? Rowena não desviou o olhar de Ewan. — Desejo. Ela entrou no círculo novamente. Dessa vez, escolheu o melhor espadachim entre eles. E lutou como se estivesse provando algo. Cada movimento era calculado. Cada bloqueio, eficiente. Cada ataque, preciso. Ewan observava. Ela não o olhava. Não buscava aprovação. Não reagia à presença dele. Quando venceu, o soldado caiu de joelhos, ofegante. Rowena ofereceu a mão para ajudá-lo a levantar. Com gentileza. Com respeito. Com um leve sorriso. O mesmo sorriso que um dia fora dele. Ela então passou por Ewan sem sequer roçar nele. — Tenha um bom treino, majestade. E saiu do campo sob o sol que já começava a subir. Ewan permaneceu parado. O peito apertado de um jeito que nenhuma lâmina jamais causara. Ela não estava quebrada. Estava se tornando indestrutível. E o pior: Ele reconhecia aquela versão dela. Porque fora exatamente assim que ele sobrevivera ao próprio passado. Frio. Calculista. Intocável. Ele a havia ensinado a erguer muralhas. E agora descobria que não sabia como atravessá-las
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