XXVI

1097 Palavras
O sol ainda se erguia tímido sobre as muralhas quando o desjejum foi servido. A mesa longa, coberta de pães, frutas secas, queijos e hidromel leve, parecia grande demais para apenas dois. Ainda assim, Ewan sentou-se como sempre postura reta, olhar atento, silêncio calculado. Mas algo estava diferente. Não havia a frieza absoluta do dia anterior. Havia… vigília compartilhada. Rowena percebeu antes de qualquer palavra. Ela serviu-se com calma. O silêncio entre eles não era desconfortável, mas carregado de algo novo um respeito mais denso, quase palpável. Foi Ewan quem falou primeiro. — Percebi algo. — disse, enquanto partia o pão. Rowena ergueu o olhar, atenta. — Observa demais, meu rei— respondeu ela, sem ironia. Ele inclinou levemente a cabeça. — Observação mantém homens vivos. Uma pausa. — Tu não admiras apenas as histórias. — continuou ele. — Nem as vitórias. — os olhos claros pousaram nela com precisão — Admiras as espadas. Rowena manteve o olhar firme. — Isso te incomoda? — Não. — respondeu sem hesitar. — Intriga-me. Ela respirou fundo. O segredo não era pequeno. Rowena pousou a taça sobre a mesa com cuidado. — Nunca contei isso a ninguém. — disse. — Nem mesmo às mulheres da minha casa. Ewan permaneceu em silêncio, como quem sabe esperar verdades. — Sempre quis lutar. — continuou ela. — Manusear uma espada. Saber defender a mim mesma sem depender de escoltas ou promessas. Os olhos dela não vacilaram. — Meu pai foi um grande guerreiro. — disse, com um leve amargor. — Temido, respeitado… e absolutamente inflexível quando se tratava de mim. Ewan franziu o cenho, atento. — Ele dizia que mulheres não devem lutar. — Rowena continuou. — Que aprender a empunhar uma lâmina tiraria algo de mim. Algo que ele nunca soube nomear. Ela sorriu de lado, breve. — Pedi. Insisti. Observei escondida. Treinei com pedaços de madeira quando ninguém via. — fez uma pausa — Mas nunca com uma espada de verdade. O silêncio se estendeu. Ewan apoiou os cotovelos na mesa lentamente. — Ele tinha medo. — disse. Rowena arqueou a sobrancelha. — De mim? — Do que tu te tornarias se não fosses contida. — respondeu ele. — Homens assim chamam medo de tradição. Ela soltou um suspiro que parecia guardar anos de contenção. — Talvez. — disse. — Mas nunca deixei de querer. Ewan recostou-se na cadeira. Observou-a como observa um campo de batalha antes do avanço. — Então não é curiosidade o que vejo quando passas pelas armas. — disse. — É reconhecimento. Rowena assentiu. — Como se fossem… — ela procurou a palavra — promessas não cumpridas. O canto da boca de Ewan se moveu quase imperceptivelmente. — Promessas podem ser cobradas. — disse. Ela o encarou, surpresa. — Estás dizendo— — Ainda não. — interrompeu ele, erguendo a mão com calma. — Apenas constatando um fato. Ele se levantou. — O reino espera por nós. — disse. — Mas este assunto… não está encerrado. Rowena observou-o se afastar. Pela primeira vez desde que se tornara rainha, sentiu algo diferente da cautela. Sentiu expectativa. Ewan, ao cruzar a porta, pensou no mesmo. Porque uma rainha que deseja uma espada não é um risco ao trono. É uma força que ainda não foi despertada. E o Lobo… sabia reconhecer aço bruto quando o via. A sala do conselho estava cheia. Pedra fria, tapeçarias antigas, brasões que carregavam séculos de orgulho e homens que acreditavam carregar o direito de dobrar reis com palavras. Ewan estava à cabeceira da mesa, postura firme, mãos repousadas como quem já decidira antes mesmo de ouvir. O assunto era uma decisão tomada naquela manhã. Uma decisão irreversível. — Vossa Majestade agiu com precipitação. — disse o lorde Caelan, o mais velho entre eles. — Comprometer tropas da fronteira sem consultar este conselho— — O conselho foi informado. — respondeu Ewan, voz controlada. — Não pedi permissão. Murmúrios. — Não é assim que se governa um reino. — retrucou outro. — Um rei precisa— — Um rei precisa manter o reino seguro. — Ewan cortou, frio. — E eu o fiz. O clima se adensou. — Estais a isolar-vos. — disse Caelan. — Afastais aliados, tomais decisões sozinho… este conselho existe para— — Para aconselhar. — disse Ewan. — Não para coagir. Houve um silêncio tenso. E então, uma cadeira se moveu. Rowena, até então silenciosa, ergueu-se. Todos os olhares se voltaram para ela. — Com todo o respeito… — começou um dos lordes, mas ela não permitiu que terminasse. — Não. — disse ela, a voz firme, clara, cortante como lâmina recém-forjada. — Se houvesse respeito, não estaríeis tentando dobrar um rei que já venceu guerras que vós apenas estudais em mapas. O choque foi imediato. — Vossa Majestade, isto não é— — É exatamente isto. — interrompeu Rowena, caminhando lentamente ao redor da mesa. — Estais a confundir conselho com intimidação. Ela parou atrás da cadeira de Ewan. Não o tocou. Mas ficou ali. — Meu rei tomou uma decisão estratégica baseada em informações que vós mesmos trouxestes. — continuou. — Se agora vos falta coragem para sustentá-la, não a projetais sobre ele. Caelan apertou os lábios. — Uma rainha não deveria— Rowena virou-se abruptamente. — Uma rainha deve proteger a estabilidade do trono. — disse, rispidez contida. — E isso inclui proteger o rei quando homens experientes confundem idade com fragilidade. Silêncio. O ar parecia pesado demais para ser respirado. — Vós temeis que ele governe sem depender de vós. — continuou ela. — E chamais isso de preocupação. Ela apoiou as mãos na mesa. — Deixai-me ser clara. — disse. — O rei não está isolado. Ele está cercado de competência. A dele. Ewan ergueu lentamente o olhar para ela. Algo semelhante a aprovação — profunda, silenciosa. — Esta decisão não será revista. — finalizou Rowena. — E qualquer tentativa de minar a autoridade do rei será vista como o que realmente é: deslealdade. Ninguém respondeu. Nenhuma réplica. Nenhum murmúrio. Os homens mais velhos, acostumados a dobrar jovens reis, encontraram-se diante de algo novo. Uma rainha que não sorria para agradar. Que não pedia espaço. Que ocupava. Ewan levantou-se. — A reunião está encerrada. — disse. Os conselheiros saíram um a um, em silêncio absoluto. Quando a sala finalmente ficou vazia, Ewan falou, baixo: — Não precisava ter feito isso. Rowena o encarou. — Precisava. — respondeu. — Governamos juntos. Ele assentiu lentamente. O Lobo não sorriu. Mas, pela primeira vez, não estava sozinho na mesa do poder. E o reino… acabava de entender isso.
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