XL

810 Palavras
O dia do baile chegou envolto em um céu limpo demais para o gosto de Ewan. Ele estava pronto muito antes do necessário. Armadura substituída por trajes formais, escuros, simples, como tudo nele. A espada não estava à cintura, mas repousava próxima à porta, porque mesmo em paz Ewan não se afastava totalmente do aço. Esperava. Imóvel. Impaciente. O som da porta se abrindo atrás dele foi quase imperceptível. Ewan virou-se por reflexo. E parou. Rowena entrou em silêncio. O vestido não era exagerado nunca seria. Tons profundos de verde e prata, tecido firme, corte preciso. Nada que gritasse por atenção… e ainda assim, tudo nela atraía. Os cabelos, presos apenas o suficiente para parecer indomáveis. O pescoço livre. A postura reta. O olhar atento. Não havia submissão ali. Nem encenação. Havia presença. Ewan sentiu algo estranho, não violento, não urgente. Algo lento. Ele a observou como observaria um campo antes da batalha. E percebeu detalhes que nunca havia permitido a si mesmo ver. A firmeza dos ombros. As mãos fortes, marcadas pelo treino. O modo como o vestido acompanhava não fragilidade, mas força. Rowena percebeu o silêncio. — Está… inadequado? — perguntou. Ewan demorou a responder. — Não. A palavra saiu seca demais. Ele pigarreou. — Está… adequada. Ela arqueou uma sobrancelha. — Isso foi um elogio? Ele desviou o olhar. — Não estou acostumado a comentar aparência. Rowena sorriu de canto. — Que alívio. Eu também não me visto para comentários. Ele voltou a encará-la. E, por um instante breve demais, seus olhos ficaram presos nos dela. Ali não havia a rainha estratégica. Nem a aprendiz de guerreira. Havia a mulher. E isso o desestabilizou mais do que gostaria de admitir. — Vamos? — ela disse, quebrando o silêncio. Ewan assentiu. No caminho até o salão, enquanto os passos ecoavam pelo corredor de pedra, ele percebeu algo ainda mais incômodo: Rowena não brilhava por tentar impressionar. Ela brilhava porque não precisava. E quando chegaram ao grande salão do reino aliado, e as portas se abriram… Os murmúrios começaram. Ewan sentiu olhares sobre eles. Mas, pela primeira vez, não se importou. Porque, ao seu lado, Rowena não era apenas sua rainha. Era sua igual. E o Lobo… pela primeira vez… viu beleza onde antes só enxergava estratégia. O baile seguia em seu auge. Música ecoando entre colunas douradas, risos controlados, taças erguidas com cautela política. Ewan mantinha-se ao lado de Rowena, atento a tudo, como se estivesse em um campo minado invisível. Foi então que ele surgiu. Um homem mais velho, cabelos grisalhos, postura respeitável Lorde Durk de Dunrath, antigo conhecido de Ewan. Um nobre que já havia lutado ao lado dos MacAllister em tempos passados, antes mesmo de Ewan vestir a coroa. Durk aproximou-se com passos lentos, calculados. Curvou-se primeiro diante de Ewan. — Vossa Majestade. Depois, voltou-se para Rowena, oferecendo um sorriso gentil e uma reverência profunda. — Vossa Majestade… concede -me a honra de uma dança? Rowena abriu a boca para responder. Não teve tempo. — Não. A voz de Ewan cortou o ar como lâmina. Fria. Firme. Definitiva. O salão pareceu diminuir. Durk piscou, surpreso. — Majestade, não houve intenção de desres— — Eu sei quem sois — interrompeu Ewan, encarando-o sem piscar. — E ainda assim, a resposta é não. O velho nobre engoliu em seco. — Não imaginei que uma dança…— — Não é uma dança. — Ewan deu um passo à frente, colocando-se sutilmente entre ele e Rowena. — É um gesto. E gestos têm peso. Silêncio. Os músicos continuaram, mas mais baixo, como se o salão inteiro estivesse prendendo a respiração. Rowena observou Ewan. Não havia raiva em seu rosto. Havia instinto. Proteção crua. O mesmo olhar que ele tinha antes de uma carga em campo aberto. Durkl inclinou a cabeça, agora com respeito verdadeiro. — Compreendo, Majestade. Perdoai-me. E afastou-se. Ewan permaneceu imóvel por um instante, até ter certeza de que o homem estava longe o suficiente. Então voltou-se para Rowena. — Não devia ter falado por mim — disse ela, em tom baixo. Ele sustentou o olhar dela. — Devia. Rowena estreitou os olhos. — Por quê? Ewan demorou. O salão parecia distante. — Porque não confio em intenções vestidas de cortesia — respondeu. — E porque… — parou, escolhendo as palavras como se escolhesse uma estratégia de guerra. — Tu não és parte do espetáculo. Ela respirou fundo. — Não sou tua posse, Ewan. — Disse que eras? A resposta veio rápida demais. Ele se inclinou levemente, a voz apenas para ela. — És minha rainha. E isso me obriga a ser o primeiro a dizer não por ti… quando o mundo esquece o peso disso. Rowena o encarou. E, pela primeira vez naquela noite, não viu o Príncipe de Gelo. Nem o lobo. E percebeu que, sob a frieza, havia algo ainda mais perigoso: Cuidado
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