Rowena
Ela caminhava com a cabeça erguida, postura impecável, passos medidos exatamente como uma rainha deveria.
Por dentro, porém, o mundo ainda girava.
Eu me joguei nos braços dele.
Não fora fraqueza. Sabia disso. Fora instinto puro. O mesmo instinto que a fizera sobreviver a anos de contenção, de silêncios impostos, de medo disfarçado de obediência.
Ainda assim… fora ele.
O calor. A firmeza. A certeza imediata de que ali nada a atingiria.
Rowena sentiu um leve aperto no peito.
Confiança assim não nasce do nada.
Ela pensou no modo como Ewan reagira sem surpresa, sem afastá-la, sem rigidez. Como se aquele gesto fosse… aceitável.
Natural.
E isso a perturbava mais do que o susto.
Se eu confio nele quando penso, tudo bem.
Mas confiar sem pensar…
Ela respirou fundo.
Não queria confundir admiração com algo maior. Precisava ser cuidadosa. O reino vinha antes. Sempre.
Ainda assim, quando se sentou ao lado dele no trono, percebeu algo incômodo:
Sentia-se segura.
Ewan
O lobo nunca ignorava o instinto.
Ewan permaneceu atento aos camponeses, às palavras ditas, aos pedidos feitos mas parte dele ainda estava naquele instante no corredor.
Rowena correndo para ele.
Sem cálculo.
Sem estratégia.
Escolhendo-o.
O corpo dele reagira antes da mente. Protegê-la fora automático, antigo como a guerra. Mas o que o desconcertara fora não isso.
Fora não afastá-la depois.
Eu poderia ter feito.
Eu sempre faço.
Mas não quis.
Porque naquele breve segundo, com os braços dela ao redor dele, o mundo fizera sentido de um jeito perigoso.
Não havia ameaça.
Não havia expectativa.
Apenas alguém que confiava nele sem armadura alguma.
Isso é um risco, pensou.
Ewan sabia que riscos custavam caro.
Mas também sabia reconhecer quando algo valia o preço.
Ele lançou um olhar breve para Rowena, sentada ao seu lado, firme, concentrada, rainha em pleno controle.
Ela não me teme.
E talvez apenas talvez
o lobo estivesse começando a perceber que não queria ser temido por ela.
Quando o último camponês se retirou e a sala voltou ao silêncio, Ewan sentiu algo raro:
Não a necessidade de se fechar.
Mas a estranha vontade de permanecer aberto
por mais um pouco.
O salão do trono esvaziou-se aos poucos, as portas se fecharam com um eco profundo, e o castelo voltou ao seu ritmo habitual.
Rowena levantou-se primeiro.
— Ewan — chamou, em tom baixo, quando já se afastavam do trono.
Ele virou-se imediatamente.
— Sim?
Ela hesitou apenas um instante.
— Caminha comigo no jardim?
Não era uma ordem.
Não era uma estratégia.
Era um convite.
Ewan a observou por um segundo, avaliando não riscos, mas intenções.
— Claro.
O jardim interno do castelo era um refúgio antigo, protegido por muralhas altas. Havia árvores retorcidas pelo vento do norte, canteiros simples de ervas e um pequeno caminho de pedra que serpenteava entre eles.
Caminharam lado a lado, sem pressa.
— Queria agradecer — disse Rowena, quebrando o silêncio. — Pelo que aconteceu no corredor.
— Não há o que agradecer.
— Há, sim. — ela insistiu. — Tu poderias ter me afastado. Poderias ter feito parecer… constrangedor.
Ewan manteve o olhar à frente.
— Não foi constrangedor.
Ela parou de andar.
Ele também.
Rowena virou-se para ele.
— Não foi?
— Não. — respondeu ele, firme. — Foi instinto. E eu confio no teu.
Ela respirou fundo.
— Eu confiei no teu também.
O vento moveu as folhas acima deles.
— E isso… — ela continuou — não é algo que eu faça com facilidade.
— Eu sei.
Rowena arqueou a sobrancelha.
— Como?
— Porque vejo o quanto pensas antes de agir. — disse Ewan. — Hoje, tu não pensaste.
Ela sorriu, quase sem querer.
— Isso te incomodou?
— Não. — respondeu ele, após um breve silêncio. — Me alertou.
— Para o quê?
— Para o fato de que não somos apenas rei e rainha quando ninguém está olhando.
O coração de Rowena acelerou levemente.
— E o que somos, então?
Ewan a encarou.
— Aliados. — disse primeiro. — Amigos.
Ela assentiu, concordando.
— E talvez… — ele acrescentou, mais baixo — algo que ainda não nomeamos.
Rowena sentiu o ar rarefazer.
— Talvez seja melhor não nomear ainda — disse ela, com cautela. — Algumas coisas crescem melhor no silêncio.
Ewan inclinou levemente a cabeça.
— Concordo.
Voltaram a caminhar.
— Sabes — disse Rowena, depois de alguns passos —, nunca pensei que me sentiria segura assim caminhando com alguém.
Ele a olhou.
— Nem eu pensei que permitiria isso.
Ela riu baixo.
— Estamos nos tornando perigosos um para o outro?
— Talvez. — respondeu ele. — Mas não como inimigos.
Pararam diante de uma árvore antiga, tronco grosso, raízes expostas.
— O jardim sempre me acalmou — disse Rowena. — Lembra que há coisas que crescem devagar, mas duram.
Ewan tocou o tronco áspero da árvore.
— Árvores assim sobrevivem a tempestades.
— Porque têm raízes profundas.
Ele a encarou novamente.
— Estamos criando raízes?
Rowena sustentou o olhar.
— Estamos tentando.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Foi cheio.
E, enquanto o sol filtrava-se pelas folhas,
o lobo e a rainha caminharam entre caminhos verdes,
sabendo que algo sólido começava a se formar
não à força,
mas por escolha