XLIII

908 Palavras
As semanas passaram com a discrição das coisas que mudam sem anunciar a própria importância. Nada foi declarado. Nada foi prometido. Ainda assim, tudo era diferente. Ewan havia se recuperado por completo, mas algo daquele período permaneceu. Ele passou a acordar menos cedo. Não porque estivesse fraco o lobo nunca era , mas porque, pela primeira vez, não sentia que o mundo ruiria se fechasse os olhos por mais alguns minutos. Rowena, por sua vez, passou a ocupar espaços que antes pareciam proibidos. Sentava-se à mesa de mapas sem pedir permissão. Opinava antes de ser chamada. Caminhava ao lado dele, não um passo atrás. Ewan não a corrigia. Os criados perceberam antes de todos. Notaram nos silêncios compartilhados durante o desjejum. Nos olhares trocados quando uma decisão era tomada. No modo como Ewan, instintivamente, ajustava o passo ao dela nos corredores de pedra. Não havia toque excessivo. Não havia gestos grandiosos. Havia algo mais raro. Confiança. Certa tarde, enquanto a chuva fina envolvia o castelo, encontraram-se na sala de armas. Rowena observava uma espada antiga, diferente das demais. — Essa não é para batalha — comentou Ewan, sem erguer o olhar de onde ajustava uma bainha. — Eu sei — respondeu ela. — É equilibrada demais. Feita para alguém que pensa antes de atacar. Ele a encarou. — Estás aprendendo rápido. — Estou aprendendo contigo. Ewan assentiu, como se aquela resposta fosse suficiente. Mais tarde, dividiram a refeição quase em silêncio. Não o silêncio tenso de antes, mas um confortável, como o de quem já conhece o ritmo do outro. — O conselho vai reclamar se eu não comparecer hoje — disse ele. — Eles sempre reclamam — respondeu Rowena, tomando o chá. — É o que os mantém vivos. Ele soltou um som breve, quase uma risada. Os criados fingiram não ouvir. À noite, quando o castelo já repousava, sentaram-se próximos à lareira. Não lado a lado, mas próximos o bastante para dividir o calor. — Confias em mim? De verdade ?— perguntou Rowena, de repente. Ewan não hesitou. — Sim. Ela virou o rosto, surpresa. — Não perguntaste por quê. — Porque não preciso. — respondeu ele. — Tu não falas por falar. Rowena abaixou os olhos, tocada de um modo que não esperava. — Também confio em ti — disse, por fim. — Mesmo quando és impossível. Ele inclinou a cabeça. — Especialmente quando sou impossível. Ela sorriu. Não como rainha. Não como estratégia. Como alguém que se permite gostar. E naquele castelo acostumado a aço, ordens e sangue, algo novo se estabelecia entre o rei e a rainha. Não amor ainda. Não desejo declarado. Mas amizade. E, para um lobo que sempre caminhou sozinho, isso já era uma revolução silenciosa. A manhã nasceu envolta por névoa, o pátio ainda silencioso quando Ewan descia os degraus de pedra com um rolo de mapas debaixo do braço. Parou ao ver Rowena já ali, observando os soldados em treinamento. — Acordaste cedo — comentou ele, aproximando-se. — Não dormi bem — respondeu ela, sem desviar os olhos. — Estava pensando em como eles deixam o flanco esquerdo exposto quando avançam juntos. Ewan a olhou com atenção renovada. — Estás certa. Ela virou-se, surpresa. — Não vais discutir? — Não quando tens razão. Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela. Caminharam lado a lado pelo pátio. — Sabes — disse Rowena —, no começo pensei que nunca iríamos concordar em nada. — Concordamos em mais coisas do que imaginas. — Inclusive no silêncio — provocou ela. Ele assentiu. — Silêncios também dizem muito. Mais tarde, no salão de mapas, Ewan apontava rotas com a ponta de uma adaga. — Se o inimigo avançar por aqui, cortamos suprimentos antes do inverno — explicou. Rowena inclinou-se sobre a mesa. — Mas isso força nossas vilas a evacuar. — Por isso não farei. Ela ergueu o olhar. — Então por que consideraste? — Para ouvir tua opinião. Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos. — Começas a me usar como consciência estratégica? — Começo a confiar no teu julgamento quando o meu é… excessivo. Rowena cruzou os braços. — Isso foi um elogio? — Não te acostumes. Ela riu baixinho, algo que ainda surpreendia os corredores do castelo. À tarde, dividiram um almoço simples. Sem formalidades, sem criados próximos demais. — Quando tudo isso acabar — disse Rowena, quebrando o pão — o que farias se não fosses rei? Ewan pensou. Muito. — Eu treinaria guerreiros. — respondeu. — Ensinar alguém a sobreviver é mais honesto do que governar. — Eu viajaria — disse ela. — Veria o mundo que sempre me disseram não ser meu. Ele a observou por um instante. — Talvez ainda seja. — Talvez. — concordou ela. À noite, no corredor que levava aos aposentos reais, pararam diante da porta. — Obrigada por hoje — disse Rowena. — Pelo quê? — Por ouvir. Ele inclinou a cabeça, como fazia antes de uma batalha. — Obrigado por falar. Ela abriu a porta. — Ewan? — Sim. — Se um dia eu discordar de ti… de verdade… vais me ouvir? Ele respondeu sem hesitar. — Sempre. Rowena assentiu, satisfeita. Quando a porta se fechou atrás deles. Ewan permaneceu parado por alguns segundos a mais do que o necessário. Não como rei. Não como lobo. Mas como um homem que começava a perceber que dividir o peso do mundo não o tornava mais fraco apenas menos sozinho
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