XXXII

1000 Palavras
O castelo parecia maior sem ele. Os corredores ecoavam passos que não eram os de Ewan, e o silêncio da noite já não trazia o som distante de armaduras sendo retiradas. Rowena caminhava devagar, apoiando-se levemente na balaustrada o ferimento ainda não havia desaparecido por completo, mas a dor maior vinha de outro lugar. Da ausência. Ela parou diante da janela que dava para o norte. Lá fora, o vento soprava como sempre, indiferente a reis e guerras. Rowena fechou os olhos. Imaginou Ewan como o vira tantas vezes nos relatos não nos cantos heroicos, mas nos detalhes que poucos mencionavam: o olhar calculista antes do ataque, a forma como não desperdiçava golpes, a ausência de raiva. Ele não lutava para provar algo. Lutava porque era necessário. E isso a assustava mais do que a fúria. — Não te peço que sejas menos quem és… — murmurou para o vazio. — Apenas que sobreviva a isso. Sentou-se à pequena mesa próxima à janela, onde mapas e relatórios se acumulavam agora sob suas mãos. Rowena os abriu. Estudou rotas. Leu nomes. Mediu distâncias. Ela pensava nele, sim no homem, no marido, no Lobo. Mas pensava também como rainha. Se Ewan estava no campo, ela precisava ser o trono. As noites eram as piores. O vento parecia trazer ecos de batalhas que ela não podia ver. Cada estalo da madeira, cada porta distante, fazia seu coração acelerar. Ela lembrava do treino. Do momento em que caiu e levantou sozinha. E compreendeu, com uma clareza dolorosa, por que Ewan fora tão duro. Ele vivera a vida inteira assim. Caindo. Levantando. Sem mãos estendidas. — Talvez seja assim que amas… — pensou. — Permanecendo de pé. Rowena manteve os olhos no norte.. Não chorou. Ela aprendera rápido que lágrimas não mudam o curso da guerra. Mas rezou, não como nobre educada nos templos, e sim como mulher que agora entendia o peso de estar ao lado de alguém que pertence ao campo de batalha. Ao amanhecer, Rowena vestiu-se para o conselho. Endireitou os ombros. Assumiu o lugar que era seu. Se o Lobo enfrentava a morte, ela enfrentaria o medo, a política, a espera. E, enquanto Ewan avançava sobre o inimigo, espada em punho… Rowena governava com a mesma firmeza. Pensando nele. Não como fraqueza. Mas como razão para manter o reino inteiro de pé até seu retorno. A noite já dominava o castelo quando o som que Rowena aprendera a temer e esperar ao mesmo tempo atravessou as muralhas. Cascos. Não festivos. Não apressados. Firmes. Rowena estava em pé junto à janela quando os portões se abriram. As tochas iluminaram o pátio. E então ela o viu. Ewan entrou montado, ainda em armadura. O metal estava manchado de sangue escuro inimigo, ela soube imediatamente. Havia terra grudada nas grevas, marcas profundas nos ombros, um corte recente no braço, outro na lateral do pescoço. Mas ele permanecia ereto. Vivo. O olhar… aquele olhar era o que mais a atingiu. Gélido. Distante. O olhar de quem fizera exatamente o que precisava ser feito nada a mais, nada a menos. Rowena sentiu o impacto no peito como um golpe. Não era medo. Era a compreensão plena do que significava ser casada com ele. Não com um homem que ia à guerra. Mas com a guerra que caminhava de volta ao lar. Ela desceu as escadas sem anunciar sua presença. Os soldados se dispersaram, abrindo caminho instintivamente. Alguns a observaram com respeito silencioso. Ewan desmontou do cavalo. Por um momento, pareceu não vê-la. Depois, os olhos claros encontraram os dela. Nada mudou em sua expressão. Mas o foco… sim. — Está feito. — disse ele, a voz rouca, baixa. Rowena parou a poucos passos. O cheiro de ferro, suor e terra misturava-se ao ar frio da noite. Ela engoliu em seco. — Venceste? — perguntou. — Não ainda. — respondeu. — Mas eles recuaram. Um servo se aproximou para ajudá-lo com a armadura. Ewan ergueu a mão. — Não agora. Rowena percebeu o detalhe que ninguém mais notara. A mão dele tremia levemente. Não de fraqueza. De exaustão contida. — Venha. — disse ela, sem pedir permissão. — Precisa tirar isso. Ele hesitou um instante. Depois assentiu. Nos Aposentos A porta fechou-se atrás deles. O silêncio era pesado. Rowena aproximou-se com cuidado. Começou a ajudá-lo a retirar a armadura, peça por peça. O metal rangia, manchado de sangue seco. Ela não fez perguntas. Não perguntou quantos morreram. Não perguntou se doeu. Não perguntou se ele pensara nela. Quando o último fecho caiu, Ewan respirou fundo, apoiando-se brevemente na mesa. Rowena viu os cortes. Alguns profundos. Outros superficiais. Todos reais. Ela estendeu a mão, quase tocando um deles… e parou. — Posso? — perguntou. Ewan assentiu. Ela tocou com cuidado, limpando o sangue com um pano úmido. — Este… — disse ela, indicando o corte no braço — foi perto demais. — Não o suficiente. — respondeu ele. Rowena fechou os olhos por um instante. — Olhar-te assim… — disse, finalmente — é entender o que perco cada vez que partes. Ele ergueu o olhar para ela. — E ainda assim… não me pedes que pare, não totalmente... — Porque sei que não pararias. — respondeu. — E porque tentar te mudar à força seria perder-te de outra forma. Ela respirou fundo. — Mas não me peças para não sentir o peso disso. Ewan a observou longamente. Algo no gelo do olhar se moveu. Não derreteu. Mas rachou. — Não te pedi isso. — disse, baixo. Ela continuou a limpar os ferimentos. O Lobo permanecia imóvel, permitindo. E naquela noite, Rowena entendeu: Estar com Ewan MacAllister não era esperar que ele voltasse ileso. Era estar ali quando ele voltava quebrado, manchado de guerra, com o olhar de quem carregava a morte e ainda assim caminhava para casa. E, mesmo sentindo o medo apertar-lhe o peito, Rowena permaneceu. De pé. Como rainha. Como esposa. Como alguém que agora sabia exatamente com quem dividia o trono e o preço disso
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