O medo não nasceu no campo de batalha.
Nasceu depois.
No grande salão do Castelo MacAllister, o fogo crepitava alto, lançando luz quente sobre paredes antigas. Ainda assim, o clima era frio. Os chefes de clã aliados estavam reunidos, copos de hidromel intocados, olhares desviando-se sempre que Ewan entrava na conversa.
Ele percebia.
Sempre percebia.
— As perdas foram mínimas — dizia o capitão Duncan, tentando soar confiante. — Um feito raro.
— Porque ele calculou cada passo — completou um dos chefes, um homem grande chamado Torquil Munro. — Frio demais para alguém tão jovem.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ewan permanecia encostado na mesa de mapas, os braços cruzados, o rosto imóvel. Não se defendeu. Não se explicou.
Isso piorou tudo.
— Não vi hesitação alguma — murmurou outro. — Nem quando mandou fechar a passagem com homens ainda lá dentro.
Duncan virou-se bruscamente.
— Se não tivéssemos fechado, todos teriam morrido.
— Ainda assim… — Torquil baixou a voz. — Ele não piscou.
Ewan ergueu os olhos lentamente.
— Hesitação mata mais homens do que decisões duras.
A frase caiu como uma lâmina no salão.
Alguns assentiram. Outros se encolheram.
Mais tarde, nos corredores de pedra, os sussurros cresceram.
— Ele vê homens como peças.
— Um rei assim vence… mas a que custo?
— Dizem que antecipa os movimentos do inimigo antes mesmo do ataque.
— Dizem que gosta.
Essa última mentira doeu mais do que qualquer golpe.
Na muralha, sob o céu carregado, Ewan observava as Terras Altas. O vento puxava sua capa como se quisesse arrastá-lo para longe dali.
O rei Alasdair aproximou-se em silêncio.
— Eles têm medo de você.
Ewan não se virou.
— Eles deveriam ter medo do inimigo.
— Nem todos conseguem separar as coisas — respondeu o rei. — Você não luta como os outros. Não sofre como eles esperam que um jovem sofra.
Ewan fechou a mão.
— Eu sofro. Só não deixo que vejam.
Alasdair apoiou-se na muralha.
— Um dia, você será rei. E quando esse dia chegar… não bastará vencer batalhas. Terá que ser compreendido.
Ewan finalmente o encarou.
— Se eu precisar escolher entre ser amado ou manter meu povo vivo…
— Sei o que você escolherá — interrompeu o rei, com um suspiro pesado.
Na noite seguinte, Ewan passou pelo acampamento. As conversas cessavam à sua passagem. Homens que antes o saudavam agora apenas inclinavam a cabeça.
Respeito.
E algo mais.
Temor.
Ele parou ao lado de um jovem soldado ferido, sentando-se ao seu lado.
— Você vai andar novamente — disse Ewan. — O curandeiro já confirmou.
O rapaz engoliu em seco.
— Meu senhor… é verdade que o senhor sabe quando alguém vai morrer?
Ewan ficou em silêncio por um momento longo demais.
— Não. — respondeu por fim. — Mas sei quando alguém pode viver… se eu decidir rápido o suficiente.
O soldado assentiu, assustado e aliviado ao mesmo tempo.
Ewan se levantou e seguiu seu caminho.
Sozinho.
Naquela noite, enquanto o castelo dormia, um pensamento o acompanhou como uma sombra:
Um lobo não anda com o rebanho.
Ele o protege… de fora.
E, pela primeira vez, Ewan MacAllister se perguntou se o trono que o aguardava exigiria mais do que sangue e estratégia.
Talvez exigisse que ele aceitasse ser temido.
A guerra contra os Clãs do Norte avançava como um inverno lento e c***l. Vilas queimadas, campos vazios, estradas marcadas por cadáveres. O inimigo não era forte era paciente.
Ewan sabia disso.
No acampamento montado às margens do rio Fearn, ele estudava o mapa sob a luz fraca de uma lamparina. Havia algo errado. Os ataques inimigos sempre surgiam onde os MacAllister estavam mais frágeis.
— Alguém está falando — murmurou.
Duncan entrou na tenda.
— Os batedores juram que ninguém passou pelas linhas.
Ewan não levantou o olhar.
— Não precisa passar. Basta ouvir.
Na manhã seguinte, durante o avanço pelo bosque de Craig Dhu, o erro aconteceu.
Um flanco inteiro avançou cedo demais.
— Recuem! — gritou Ewan.
Tarde.
Flechas caíram como chuva n***a. Homens tombaram gritando. O caos se espalhou.
Ewan sentiu o estalo frio dentro do peito não medo, mas certeza.
Isso foi provocado.
Ele puxou o cavalo para trás, a mente correndo mais rápido que a batalha.
— Trombeta! — ordenou. — Sinal três. Agora!
O toque ecoou.
A formação mudou em pleno ataque, algo quase impossível. O inimigo avançou confiante… direto para a armadilha que Ewan improvisara em segundos.
Quando a poeira baixou, o campo estava coberto de corpos inimigos.
Vitória.
Mas Ewan não comemorou.
Entre os feridos, encontrou o culpado.
Enflór Munro estava ajoelhado, flecha cravada na perna, o rosto pálido.
— Você adiantou o flanco — disse Ewan calmamente. — Contra minhas ordens.
Enflór engoliu em seco.
— Foi confusão… o som da trombeta—
Ewan se agachou, os olhos no mesmo nível.
— A trombeta não soou. — Sua voz era baixa. — Você sinalizou antes. Para eles.
Silêncio.
Duncan aproximou-se, alarmado.
— Ewan… tem certeza?
Ewan retirou da bolsa de Enflór um pequeno pedaço de couro marcado com símbolos do clã inimigo.
— Pagaram-lhe com segurança para sua família — continuou Ewan. — Prometeram poupá-los quando nós caíssemos.
Enflór começou a chorar.
— Eu não queria morrer aqui… nem que eles morressem por sua causa!
Ewan se levantou.
— E morreram mesmo assim. — Ele fez um gesto para os guardas. — Levem-no.
— O que fará com ele? — perguntou Duncan, hesitante.
Ewan demorou a responder.
— Nada que não fizesse com um inimigo.
A execução foi silenciosa. Sem discurso. Sem raiva.
Isso foi o que mais assustou.
Naquela noite, Ewan permaneceu sozinho na tenda. O barulho distante do acampamento parecia vir de outro mundo.
Duncan entrou, cauteloso.
— Você salvou o exército hoje.
Ewan limpava a espada.
— Eu salvei a estratégia. Os homens… salvaram a si mesmos.
— Eles estão com medo de você.
Ewan ergueu o olhar, frio.
— Então não me trairão.
Duncan hesitou.
— Você poderia ter fingido não ver. Deixado que outro lidasse com isso.
Ewan guardou a lâmina com um clique seco.
— A traição cresce no silêncio. — Ele fez uma pausa. — Eu aprendi isso hoje.
Quando a guerra terminou, os MacAllister venceram. O nome de Ewan foi cantado em tavernas e campos… mas nunca com leveza.
As canções falavam de um príncipe que vencia batalhas mesmo cercado por inimigos e aliados duvidosos.
Um homem que ouvia a guerra antes que ela começasse.
Mas algo nele havia mudado.
Ewan passou a dormir menos. Falar menos. Confiar quase em ninguém.
O lobo não mostrava mais os dentes sem necessidade.
Apenas observava.
E quem cruzava seu olhar entendia uma verdade incômoda:
Ele vencerá.
Com ou sem você.