IV

1128 Palavras
O medo não nasceu no campo de batalha. Nasceu depois. No grande salão do Castelo MacAllister, o fogo crepitava alto, lançando luz quente sobre paredes antigas. Ainda assim, o clima era frio. Os chefes de clã aliados estavam reunidos, copos de hidromel intocados, olhares desviando-se sempre que Ewan entrava na conversa. Ele percebia. Sempre percebia. — As perdas foram mínimas — dizia o capitão Duncan, tentando soar confiante. — Um feito raro. — Porque ele calculou cada passo — completou um dos chefes, um homem grande chamado Torquil Munro. — Frio demais para alguém tão jovem. O silêncio que se seguiu foi pesado. Ewan permanecia encostado na mesa de mapas, os braços cruzados, o rosto imóvel. Não se defendeu. Não se explicou. Isso piorou tudo. — Não vi hesitação alguma — murmurou outro. — Nem quando mandou fechar a passagem com homens ainda lá dentro. Duncan virou-se bruscamente. — Se não tivéssemos fechado, todos teriam morrido. — Ainda assim… — Torquil baixou a voz. — Ele não piscou. Ewan ergueu os olhos lentamente. — Hesitação mata mais homens do que decisões duras. A frase caiu como uma lâmina no salão. Alguns assentiram. Outros se encolheram. Mais tarde, nos corredores de pedra, os sussurros cresceram. — Ele vê homens como peças. — Um rei assim vence… mas a que custo? — Dizem que antecipa os movimentos do inimigo antes mesmo do ataque. — Dizem que gosta. Essa última mentira doeu mais do que qualquer golpe. Na muralha, sob o céu carregado, Ewan observava as Terras Altas. O vento puxava sua capa como se quisesse arrastá-lo para longe dali. O rei Alasdair aproximou-se em silêncio. — Eles têm medo de você. Ewan não se virou. — Eles deveriam ter medo do inimigo. — Nem todos conseguem separar as coisas — respondeu o rei. — Você não luta como os outros. Não sofre como eles esperam que um jovem sofra. Ewan fechou a mão. — Eu sofro. Só não deixo que vejam. Alasdair apoiou-se na muralha. — Um dia, você será rei. E quando esse dia chegar… não bastará vencer batalhas. Terá que ser compreendido. Ewan finalmente o encarou. — Se eu precisar escolher entre ser amado ou manter meu povo vivo… — Sei o que você escolherá — interrompeu o rei, com um suspiro pesado. Na noite seguinte, Ewan passou pelo acampamento. As conversas cessavam à sua passagem. Homens que antes o saudavam agora apenas inclinavam a cabeça. Respeito. E algo mais. Temor. Ele parou ao lado de um jovem soldado ferido, sentando-se ao seu lado. — Você vai andar novamente — disse Ewan. — O curandeiro já confirmou. O rapaz engoliu em seco. — Meu senhor… é verdade que o senhor sabe quando alguém vai morrer? Ewan ficou em silêncio por um momento longo demais. — Não. — respondeu por fim. — Mas sei quando alguém pode viver… se eu decidir rápido o suficiente. O soldado assentiu, assustado e aliviado ao mesmo tempo. Ewan se levantou e seguiu seu caminho. Sozinho. Naquela noite, enquanto o castelo dormia, um pensamento o acompanhou como uma sombra: Um lobo não anda com o rebanho. Ele o protege… de fora. E, pela primeira vez, Ewan MacAllister se perguntou se o trono que o aguardava exigiria mais do que sangue e estratégia. Talvez exigisse que ele aceitasse ser temido. A guerra contra os Clãs do Norte avançava como um inverno lento e c***l. Vilas queimadas, campos vazios, estradas marcadas por cadáveres. O inimigo não era forte era paciente. Ewan sabia disso. No acampamento montado às margens do rio Fearn, ele estudava o mapa sob a luz fraca de uma lamparina. Havia algo errado. Os ataques inimigos sempre surgiam onde os MacAllister estavam mais frágeis. — Alguém está falando — murmurou. Duncan entrou na tenda. — Os batedores juram que ninguém passou pelas linhas. Ewan não levantou o olhar. — Não precisa passar. Basta ouvir. Na manhã seguinte, durante o avanço pelo bosque de Craig Dhu, o erro aconteceu. Um flanco inteiro avançou cedo demais. — Recuem! — gritou Ewan. Tarde. Flechas caíram como chuva n***a. Homens tombaram gritando. O caos se espalhou. Ewan sentiu o estalo frio dentro do peito não medo, mas certeza. Isso foi provocado. Ele puxou o cavalo para trás, a mente correndo mais rápido que a batalha. — Trombeta! — ordenou. — Sinal três. Agora! O toque ecoou. A formação mudou em pleno ataque, algo quase impossível. O inimigo avançou confiante… direto para a armadilha que Ewan improvisara em segundos. Quando a poeira baixou, o campo estava coberto de corpos inimigos. Vitória. Mas Ewan não comemorou. Entre os feridos, encontrou o culpado. Enflór Munro estava ajoelhado, flecha cravada na perna, o rosto pálido. — Você adiantou o flanco — disse Ewan calmamente. — Contra minhas ordens. Enflór engoliu em seco. — Foi confusão… o som da trombeta— Ewan se agachou, os olhos no mesmo nível. — A trombeta não soou. — Sua voz era baixa. — Você sinalizou antes. Para eles. Silêncio. Duncan aproximou-se, alarmado. — Ewan… tem certeza? Ewan retirou da bolsa de Enflór um pequeno pedaço de couro marcado com símbolos do clã inimigo. — Pagaram-lhe com segurança para sua família — continuou Ewan. — Prometeram poupá-los quando nós caíssemos. Enflór começou a chorar. — Eu não queria morrer aqui… nem que eles morressem por sua causa! Ewan se levantou. — E morreram mesmo assim. — Ele fez um gesto para os guardas. — Levem-no. — O que fará com ele? — perguntou Duncan, hesitante. Ewan demorou a responder. — Nada que não fizesse com um inimigo. A execução foi silenciosa. Sem discurso. Sem raiva. Isso foi o que mais assustou. Naquela noite, Ewan permaneceu sozinho na tenda. O barulho distante do acampamento parecia vir de outro mundo. Duncan entrou, cauteloso. — Você salvou o exército hoje. Ewan limpava a espada. — Eu salvei a estratégia. Os homens… salvaram a si mesmos. — Eles estão com medo de você. Ewan ergueu o olhar, frio. — Então não me trairão. Duncan hesitou. — Você poderia ter fingido não ver. Deixado que outro lidasse com isso. Ewan guardou a lâmina com um clique seco. — A traição cresce no silêncio. — Ele fez uma pausa. — Eu aprendi isso hoje. Quando a guerra terminou, os MacAllister venceram. O nome de Ewan foi cantado em tavernas e campos… mas nunca com leveza. As canções falavam de um príncipe que vencia batalhas mesmo cercado por inimigos e aliados duvidosos. Um homem que ouvia a guerra antes que ela começasse. Mas algo nele havia mudado. Ewan passou a dormir menos. Falar menos. Confiar quase em ninguém. O lobo não mostrava mais os dentes sem necessidade. Apenas observava. E quem cruzava seu olhar entendia uma verdade incômoda: Ele vencerá. Com ou sem você.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR