O vale já não era aberto.
Era um amontoado de corpos, escudos partidos e lama mistura a sangue. O choque inicial havia passado, e agora a batalha se transformara no que Ewan conhecia melhor: confusão controlada.
Ele estava no meio dela.
O cavalo Mòr avançava e recuava conforme Ewan ordenava com o peso do corpo e o toque dos joelhos. À esquerda, viu a infantaria de Caerwyn tentar fechar uma cunha. Antes que se consolidasse, Ewan ergueu a espada e gritou:
— Segunda linha, três passos à frente! Flanco esquerdo, abram!
As ordens foram executadas quase instantaneamente. Os homens não perguntavam mais por quê. Apenas quando.
A cunha se desfez. Homens de Caerwyn tropeçaram uns nos outros. Ewan desceu sobre eles.
Um golpe vertical, outro horizontal. O som do aço encontrando osso. Um inimigo tentou agarrá-lo pelo braço Ewan quebrou o nariz do homem com o pomo da espada e o empurrou para o chão, onde outro MacAllister finalizou o trabalho.
Uma flecha atingiu o pescoço de Mòr.
O cavalo relinchou alto, empinando. O mundo pareceu girar por um instante. Ewan rolou no chão, levantando-se num movimento fluido, a espada já erguida.
— Formação ao meu redor! — gritou.
Os homens fecharam o círculo.
Ewan não montou outro cavalo.
Ficou a pé.
Visível. Vulnerável. Irredutível.
Do outro lado, Edric viu a queda do cavalo.
— Agora! — gritou. — Cavalaria, esmaguem o centro!
O chão tremeu com o avanço dos cavaleiros pesados. Lanças baixas, velocidade brutal.
Duncan correu até Ewan.
— Precisamos recuar!
Ewan sacudiu a cabeça.
— Não. — Seus olhos estavam frios, focados. — Agora eles se comprometem.
Ele ergueu o braço.
Um segundo chifre soou curto, grave.
Do nada, o solo à frente da carga começou a ceder. Estacas ocultas rasgaram o ímpeto da cavalaria. Cavalos caíram. Homens foram lançados.
Arqueiros surgiram nas elevações laterais, disparando em ângulos impossíveis.
— Avancem pelos lados! — ordenou Ewan.
Caerwyn começou a sangrar de verdade.
No caos, Ewan avistou o estandarte do leão se movendo para trás.
— Edric está recuando — murmurou.
Não por medo.
Por raiva.
Ewan avançou, abrindo caminho, cada golpe preciso, econômico. Quando viu Edric à frente, cercado por guardas, sentiu algo raro: foco absoluto.
— Comigo! — gritou, e poucos o seguiram. Não por covardia, mas porque apenas poucos conseguiam acompanhar seu ritmo.
Edric percebeu tarde demais.
— Você devia ter aceitado o casamento! — gritou, erguendo a espada.
Ewan não respondeu.
O choque entre eles foi violento. Edric golpeava com força bruta, pesada. Ewan desviava, calculava, cortava onde doía.
Um golpe rasgou o ombro de Ewan. O sangue escorreu quente.
Ele não recuou.
Girou, desarmou um guarda, cravou a lâmina no flanco de outro. Voltou-se para Edric.
— Esta guerra não é sobre sua filha — disse, entre respirações controladas. — É sobre o seu medo de não ser obedecido.
Edric rugiu e avançou.
Ewan deixou-o vir.
No último instante, mudou o peso do corpo e fincou a espada na coxa do rei, derrubando-o do cavalo.
O leão caiu.
O estandarte de Caerwyn vacilou.
— O REI CAIU! — alguém gritou.
O pânico espalhou-se como fogo em palha seca.
Ewan colocou o pé sobre o peito de Edric, a lâmina encostada em sua garganta.
O campo parecia prender a respiração.
Ewan olhou ao redor. Seus homens. Os inimigos. O vale destruído.
Ele não matou Edric.
Recuou a lâmina.
— Viva — disse baixo. — E lembre-se do custo do orgulho.
Levantou-se e ergueu a espada ensanguentada.
— RECUEM! — gritou para Caerwyn.
Eles recuaram.
O leão fugiu.
Quando o silêncio finalmente caiu, Ewan estava de pé entre os mortos, o sangue escorrendo pelo braço ferido, o rosto impassível.
Duncan aproximou-se, atônito.
— Você venceu.
Ewan olhou para o vale devastado.
— Não. — Sua voz era fria. — Eu encerrei.
E, naquele dia, a fama de Ewan MacAllister deixou de ser apenas lenda.
Tornou-se aviso