— O quê? — Foi inevitável o meu choque.
— Amor, você não contou a ela? — Disse exibindo agora aquele sorriso que nunca enganou ninguém.
— Você chegou antes que eu contasse. — Daniel falou com ela mais continuou olhando para mim observando minha reação.
— Desculpa estragar a surpresa. Casamos quando Daniel voltou para o Brasil. — Ainda estamos em lua de mel, não é meu amor?
Ágatha virou o rosto de Daniel e o beijou suavemente nos lábios.
Sabe aquele momento em que tudo para ao seu redor? O tempo congelou. Eu não conseguia ver mais ninguém, ao não ser Daniel e Ágatha.
"Nós nos casamos"
"Casamos quando Daniel voltou para o Brasil".
Essas duas frases fizeram meu mundo desabar. Foi como se uma bomba tivesse explodido no meio do salão. Como assim haviam se casado? Como eles se casaram? Daniel nunca suportou Ágatha, e agora ela estava me falando que eles estavam casados?
Até aquele momento, minha noite estava perfeita. Bastou Ágatha aparecer para estragar tudo. Ela continuava me oferecendo aquele sorriso falso e eu estava louca para arrancar dela.
— Foi um casamento discreto, tudo por que Daniel queria evitar a mídia. Eu fui totalmente contra, mas o importante é que estamos juntos. Você não soube? Alguns amigos da nossa antiga turma compareceram...
Ela falava, no entanto eu não conseguia filtrar qualquer palavra sua. Eu só conseguia ouvir aquelas malditas duas frases martelando na minha cabeça. Daniel continuava a me olhar sem falar uma palavra.
— Eu... Eu... Vocês me dão licença por segundo? Preciso ir... — Eu não consegui terminar uma frase.
Eu queria sair dali antes que eu cometesse algo e******o.
— Você está passando m*l, querida? — Ela perguntou e me deixou com mais raiva ainda.
— Estou bem, só preciso... Eu tenho que... Com licença, fiquem à vontade... Eu já volto.
Eu precisava urgentemente sair da presença deles. Precisa respirar um pouco de ar. Estella veio em minha direção assim que desceu do pequeno palco onde conversava com o DJ.
— O que aconteceu Cristal, você está pálida?
— Como você pôde fazer isso comigo Estella?
— Fazer o quê? Do que você está falando?
— Ágatha. Ela está aqui, e casada com Daniel!
Eu quase gritei. Para minha sorte, a música tinha acabado de ser trocada e ninguém poderia ouvir nossa conversa.
— O quê, Ágatha aqui? Impossível! Ela não estava na minha lista de convidados. Eu fui bem cuidadosa em selecionar todos.
— É a convidada dele. Estella, eles se casaram, os dois. Agora é o perfeito casal feliz.
— Isso só pode ser uma mentira. Eu conheço a história de vocês. Você conhece a história de vocês. Ele nunca ficaria com ela.
— Então nós duas não conhecíamos muito bem o Daniel. Eu preciso sair daqui.
— Você não pode ir embora. E os seus convidados? E a sua festa?
— Eu não estou indo embora. Eu só preciso de um pouco de ar.
— Terraço. O terraço tem ar livre. Fica lá um pouco, assim que eu resolver uns pequenos imprevistos te encontro lá e....
— Tudo bem.
Sai do salão antes que minha amiga terminasse de falar. Eu estava ficando sufocada. Nem olhei para onde estava Daniel. Na verdade, eu gostaria que os dois não tivessem vindo. Evitaria que eu me encontrasse nesse estado agora.
Algumas pessoas me cumprimentavam enquanto eu seguia para o elevador. Eu retribuía com pequenos sorrisos forçados. Era o máximo que conseguia fazer.
Quando abri a porta do terraço, um vento frio me abraçou. Eu fechei os olhos por alguns segundos absorvendo, enquanto inalava um pouco do ar da noite. Andei até a borda do prédio e fiquei olhando para a paisagem noturna da cidade.
Abracei meu corpo quando um vento mais forte bateu. O céu estava estrelado, do que jeito que eu me lembrava da época que eu me deitava na grama com Daniel e ficávamos admirando as estrelas.
— Não sabia que você ainda tinha esse costume.
Sua voz me tirou do transe, mesmo assim não olhei para trás.
— Fazia tempo que não fazia isso. — Falei.
Daniel caminhou até o meu lado. Eu fiz um esforço enorme para não olhar para ele.
— Hoje o céu está perfeito, parece que adivinhou que você viria aqui para observá-lo. Por que saiu daquele jeito?
— Eu precisava respirar um pouco. Foram muitas surpresas acontecendo ao mesmo tempo.
Ele permaneceu calado. Eu tinha que falar alguma coisa, porém não sabia por onde começar.
— Por que nunca me procurou?
Eu olhei para ele, e quase pude ver o Daniel por quem me apaixonei.
— O quê?
— Você ouviu minha pergunta. Durante esses sete anos, eu não recebi um telefonema seu, uma mensagem...
— Você foi bem claro na última vez em que nos encontramos. — Consegui falar afinal.
— Eu estava de cabeça quente Cristal. Estava chateado por você ter esquecido mais uma vez que tínhamos um encontro. Falei em um momento de raiva.
— Eu não tinha esquecido. Estava fazendo algumas fotos que levaram um pouco mais de tempo, e o meu voo foi cancelado...
— Aquilo estava acontecendo com muita frequência nos últimos meses.
— Era meu trabalho Daniel. — Eu explodi. — Você nunca entendeu isso. Eu queria essa vida.
— E conseguiu. Está feliz agora?
— Muito. — Menti. — Consegui tudo o que queria.
— A que preço?
Eu fiquei calada. Aquilo foi um t**a na cara. Minha carreira custou o amor da minha vida. Mas eu não deixaria que ele soubesse disso.
— Você poderia ter me procurado também. — Fugi do assunto.
— Você sumiu no mundo quando deixou Esmeralda.
— Você conhecia Estella, ela sabia todos os lugares onde eu estava. Era só me procurar, eu também esperei por você.
— Não adianta chorar pelo passado agora. Como você mesma disse, já se passaram sete anos, e os sentimentos mudaram.
Eu tinha que perguntar. Se fosse para sofrer, que fosse tudo logo de uma vez.
— Por que ela Daniel? Entre todas as mulheres do mundo, você teve que escolher logo a que sempre fez de tudo para separar nós dois?
— Por que foi ela quem me ajudou a colher os cacos do meu coração quando você foi embora. Ela que esteve do meu lado enquanto eu me recuperava.
— E quem colheu os meus pedaços Daniel? Quem ficou comigo durante as longas noites chorando? Não fui eu que corri para a primeira v*******a para afogar minhas mágoas.
— Você não ficou chorando por muito tempo. Teve muitos caras para enxugar suas lágrimas. Eu vi todas as notícias suas que saíram nas revistas.
— Você disse que só tinha visto algumas notícias.
— Eu menti p***a!
Foi à vez de ele gritar.
— Eu vi cada maldita foto sua que saia nas revistas e jornais, sempre bem acompanhada e sempre sorrindo.
— Era meu trabalho Daniel, e todos os meus sorrisos eram falsos, por que por dentro eu estava destruída. Eu esperava que a qualquer momento você me procurasse.
— Você foi bem c***l com suas palavras.
— Você também não foi gentil. Pediu-me para escolher entre duas coisas que eu amava...
— E você escolheu aquela que iria lhe render dinheiro mais rápido.
— Nunca foi pelo dinheiro Daniel.
— Claro que não. Você adorava se exibir, adorava ter os holofotes em cima de você. — Ele jogou na minha cara.
— Se bem me lembro, você foi um deles. Sempre estava me olhando quando eu passava.
— Os caras viviam atrás de você.
— Contudo você foi o único que eu deixei se aproximar. O único a quem eu entreguei meu coração e você pisoteou em cima dele, e depois jogou fora como quem joga uma roupa no lixo.
— Falar do passado, não vai mudar nada agora, vai?
— Não. Não vai. Você está casado e feliz... Eu estou feliz... É isso que importa. — Falei voltando para a porta do terraço.
— Quem disse que sou feliz?
Eu parei quando coloquei a mão na maçaneta. Eu tinha ouvido direito, ou ele estava de brincadeira comigo?
— O que disse? — Eu perguntei virando-me para ele.
— Eu não sou feliz.
— Mas você está casado... Com Ágatha...
— Eu nunca consegui te esquecer...
Daniel caminhou em minha direção.
— Durante esse tempo todo eu lutei por esse sentimento que eu odiava ter. Amar uma pessoa que nem lembrava mais de mim, que não parou nem por um segundo para pensar em como eu estava.
— Eu pensei em você todos os dias nos últimos sete anos, então não venha questionar sobre meus sentimentos.
— Então por que não me ligou, nem me procurou?
— Por que eu estava com medo da sua rejeição. Com medo que você não quisesse me ver nem falar comigo. Eu cometi o maior erro da minha vida Daniel, e estou pagando por ele todos os dias.
Daniel estava tão próximo que eu podia sentir seu cheiro. Ele estava agora me olhando como se não acreditasse nas minhas palavras.
— Eu consegui tudo o que eu queria, dinheiro, fama.... Mas não consegui o mais importante...
— O que está faltando Cristal?
— Eu não conquistei o amor, um casamento, uma família... Aí você resolve aparecer para jogar tudo na minha cara. Para mostrar o que eu perdi por não ter te escolhido. Eu te odeio por isso. E eu me odeio por não ser eu a estar do seu lado agora, por não usar a aliança que Ágatha esfregou na minha cara...
Daniel me puxou ao seu encontro e me tomou em seus lábios. Sua boca tomou a minha e nesse momento eu me esqueci de tudo. Da raiva, das tristezas, das mágoas. Seu beijo foi o meu bote de salva-vidas. Tudo o que eu ansiava durante todo esse tempo.
Fomos tomados por um sentimento abrasador. Um sentimento de posse. Nos beijamos como se o nosso futuro despendesse disso. Daniel me empurrou contra a porta e aprofundou ainda mais o beijo. Nossos corpos estavam colados reagindo ao magnetismo que nos envolvia.
Daniel segurou meu rosto com as duas mãos por alguns segundos.
— Eu esperei sete anos por isso Cristal. — Disse voltando a me beijar.
Uma mão desceu para minha cintura, enquanto a outra puxava levemente meus cabelos. Daniel começou a beijar meu pescoço do jeito que só ele sabia fazer. Do jeito que me deixava em chamas.
Soltei um leve gemido e isso só fez com que ele aprofundasse seus toques. Eu estava perdida. Não consegui pensar em nada que não fosse suas mãos acariciando o meu corpo nu. Sua mão desceu pela a******a do meu vestido e foi subindo em direção à minha calcinha, passando para a parte de trás apertando minha b***a.
— Quantas noites, eu deitei na minha cama imaginando como seria tocar você assim. Sentir seu cheiro e ouvir seus gemidos enquanto te amava lentamente. — Ele falava suavemente enquanto mordia minha orelha.
— Daniel... — Foi só o que eu consegui falar.
— Fazendo carinhos enquanto você sussurrava em meu ouvido para não parar. Quantas vezes dormi ouvindo sua voz em meu subconsciente.
Daniel voltou a me encarar.
— Senti a falta desses seus olhos cheios de desejos, do seu cheiro, da sua voz ao acordar, do seu corpo sempre exigindo mais...
— Eu também senti falta de tudo Daniel. Dos seus toques nos lugares mais sensíveis. Das suas habilidades em me dar prazer... Eu senti falta de tudo... — Falei meio sem fôlego.
Daniel se afastou o suficiente para me olhar por completo.
— Por que deixamos isso acontecer Cristal? Por que não lutamos por nosso amor?
— Éramos jovens e não pensamos nas consequências. Eu não pensei...
— Eu não fui forte o suficiente para aguentar todo o sucesso que veio atrás de você. Eu deveria ter te apoiado mais.
— E eu deveria ter te ligado no dia seguinte, mas não liguei. Deixei o tempo cuidar de tudo, e ele separou nossos caminhos...
— Mas estamos aqui agora, juntos. — Ele falou.
— Entretanto não estamos juntos Daniel. Você está casado. — Falei mostrando sua aliança no dedo.
— Uma aliança não me impedirá de ficar com você.
— Ágatha impedirá. Você poderia ter escolhido qualquer uma, mas não ela. Eu não serei a outra na sua vida. Não serei sua amante, por mais que eu te ame e queira ficar com você.
— Cristal...
— O nosso tempo passou Daniel, não podemos fazer nada quanto a isso.
— Você está perdendo outra vez a chance de ser feliz.
Eu olhei para ele.
— Eu perdi essa chance há sete anos. Quanto a isso não podemos fazer nada.
— Se você quiser, pode fazer a diferença.
— Volte para sua esposa Daniel, com certeza ela deve estar sentido sua falta.
Seu olhar voltou a ficar frio.
— Foi um erro ter vindo essa noite.
— Tenho que concordar com você. — Tive que de alguma maneira manter um pouco de dignidade.
Eu saí de perto da porta para que ele passasse.
— Adeus Cristal, seja feliz.
— Você também Daniel.
Quando a porta se fechou atrás dele, não consegui controlar minhas lágrimas. Derramei toda a tensão que senti desde o momento em que o vi entrando no salão. Chorei por tudo que deixei, pelo amor perdido e pela dor de saber que não era eu quem acordava todos os dias ao seu lado.
Caminhei de volta para a ponta do terraço e fiquei não sei por quanto tempo pensando em tudo o que eu tinha feito. Teria mesmo valido a pena?
Ouvi uma voz na porta, contudo não me virei para ver quem era.
— Noite difícil?
Quando olhei, vi um senhor vestindo uma calça social preta e uma camisa branca de botões e mangas dobradas até o cotovelo.
— Um pouco. Estava aqui pensando um pouco na vida.
— E então?
— Então o quê? — Perguntei confusa.
— O que pensou da vida?
— Pensei nas minhas decisões que tomei no passado e se valeram a pena.
— Você tem a resposta para essa pergunta?
— Acho que sim, sei lá. — Falei soltando um suspiro de frustração.
— Gostaria de fazer tudo de novo, quer dizer, voltar no tempo e fazer tudo certo?
— Seria um sonho, não é mesmo? — Eu ri para ele. — Passar uma borracha e começar tudo de novo.
— Você está triste com alguma coisa que fez lá. Não seria perfeito ter uma nova chance?
— Eu queria poder ter o dom de fazer isso.
— Largaria tudo o que conseguiu para consertar seu passado?
— Sim. Acho que sim. Por que você está me fazendo tantas perguntas?
— Sou apenas um velho curioso. Conheço você minha jovem, sei dos seus medos, anseios e desejos...
— Quem é você? De onde me conhece?
— Da vida toda minha querida. Preciso ir agora. Desejo boa sorte com sua vida.
Ele saiu da mesma maneira que chegou.
— Espere, você não me disse seu nome....