Capítulo 47. Ajuda

1046 Palavras
Tahoe Valley, South Lake Tahoe, CA — Visita inusitada — disse o pai, me medindo de cima a baixo, olhando de soslaio. — Bom dia, meu filho! — Dia, meu pai. Sua benção! — Que Deus te abençoe. — Ele fechou o caderno que tinha no colo e se virou em minha direção. — Como meu filho está nesse início de semana? Quando acordei, Natasha já não estava na cama. Procurei e não a encontrei no apê, mas ela deixou um bilhete carinhoso, dizendo que nos veríamos depois. Meu irmão ainda descansava, então nem o incomodei. Antes de pensar em ir até o hospital, pensei primeiro em ir até o pai para pedir sua ajuda. — Bem... Um pouco... Quando cheguei, o pai estava no sofá com seu caderninho de anotações e o telefone ao lado. Ainda não tinha ligado o PC e o chá estava ao seu lado. — Um pouco? — Ele desconfiou. — Vou procurar um médico e queria sua ajuda. — Eu o falei, seguindo para sentar ao seu lado. — Não é nada demais... Só... Eu não tenho muita certeza. Seu semblante ficou imediatamente preocupado. — Quer me contar? — Ele suspirou. — Não, não conta. Vou falar com o doutor e vamos até o escritório dele. Lá, você conta para ele, tudo bem? — Obrigado, meu pai. Ele se levantou. Beijou minha testa ao passar por mim e subiu. Nem se demorou para descer arrumado. — Cadê a mãe e a pequena? — estranhei. — Saíram cedo! — Ele riu. — Ela é sempre a primeiro a se consultar em dias de médico, então as meninas madrugam para chegarem a tempo. — Entendo... As manias da Chloe? — ri. Ele só assentiu com a cabeça, rindo. — Estou de carro. O senhor nem precisa dirigir — falei enquanto ele trancava a porta. — Só precisa dizer onde vamos... nisso, estou bem perdido. — Ajudo e agradeço! O que houve? Ainda fiquei silenciado por algum tempo, tentando pôr em palavras o que havia realmente. Ajudei que ele entrasse e segui ao banco do motorista. — Hm, eu- — suspirei. — Só tenho tido dificuldade com o foco, em maioria, eu acho. Mas, exagerei... um pouco... senti um incômodo... dor no peito. O pai manteve o silêncio, me olhando. — Muito aflito... eu acho... Por isso, ir ao médico. — Quem foi? — Foi a pergunta dele, objetiva. — O quê!? — Estranhei, olhando-o. — Alguém começou isso... é responsável por tirar seu foco de alguma forma difícil de lidar. — Ele arfou. — Por isso, a pergunta: quem foi? — Ela, ‘né, pai!? — assumi com vergonha. — Não consigo não sentir falta dela... e ela... manda foto... vídeo... isso me dá vontade de correr até ela. O pai apenas respirou fundo. — Tive com Natasha... Ela me aconselhou muito, só que... sei lá... sabe? — Eu o olhei e ele apenas sorriu. — Tudo bem. Só não se machuca! — alertou. — Ela ficou preocupada e eu também estou, não vou mentir... isso tudo com a Lindsay está mexendo com a minha cabeça... estou muito estressado... tudo só piora, eu acho... então, estou seguindo os conselhos. — Gosto que busque ajuda. — Ele assentiu. — Seu pai demorou... se permitiu afundar... Não recomendo. — Nem quero, meu pai! Pode ficar tranquilo, não é meu intuito me deixar abater por nada. Sou soldado! Ele acabou sorrindo e se recostou. — É o nosso orgulho! — suspirou aliviado. Acabei me acanhando com a fala, mas dei partida para seguir enquanto o pai guiava o caminho. Não foi tão distante da cidade, mas já saindo rumo à costa. Chegamos num consultório relativamente simples de beira de estrada. Não tinha nenhum outro negócio próximo — o que me fez estranhar. O ambiente ainda era bonito. Em meio a área desértica, era o único lugar que tinha flores e tudo mais. Tudo era em cores claras e até branco. Entrando, havia uma recepcionista. Senhora de idade que sorriu com seu ar maternal e disse para aguardarmos que ela buscaria o doutor. O ambiente tinha o som de uma música clássica qualquer ao fundo. Nós nos sentamos e o pai se recostou, respirando fundo e olhando ao redor. Um senhor de idade, pardo e alto, saiu do local de atendimento. Pareceu surpreso ao ver o pai, mas abriu um largo sorriso e se aproximou: — Quem te viu, quem te vê! — falou. — Bom dia, doutor. — O pai lhe sorriu. — Não teve contato, mas esse é meu filho, Levi! — apresentou. O doutor me olhou com ainda mais surpresa. — Olá, senhor. — Eu lhe sorri. — A compleição não é sua, nem de Sofia! — O doutor riu. — Olá, rapaz. Levi... eu me chamo Wallace. — Quero que o analise, doutor. — O pai soou preocupado. — Novos problemas, mas não tão novos assim... Já enviei os exames da infância e adolescência. — Eu vi! — O doutor riu. — Vem comigo, Levi? Assenti e o pai deu o passo atrás. Acompanhei o doutor ao interior do consultório. — Bom, minha especialização é a saúde mental. Ao menos, foi o ramo em que iniciei. Acabei desviando o curso aos hormônios com o caso do seu pai. — Soube que as coisas com ele eram tensas — falei, indo até o divã para me sentar. — Não me aprofundei tanto com o que ocorreu com o pai... — Já fez terapia? — O doutor riu, indo ao seu lugar. — Tenho certeza que sei a resposta. — Nunca fiz! — Acabei rindo também. — Há uma coisa que deve saber sobre terapias: o sigilo. Nada do que falar numa sessão será aberto a qualquer outra pessoa, nem que me peça. Observei-lhe e ele transmitia confiança. — Isso é bom, doutor. É um dos meus receios — falei. — Não porque faço coisas erradas, nem nada, mas meu trabalho é perigoso e exige sigilo! — Pode contar comigo! — sorriu. — Bom, pude ver seus exames de outrora. Ainda solicitarei novos, mas podemos iniciar com o clássico: como se sente? — Estou muito estressado... doutor. Assim começou a primeira terapia da minha vida — para tentar lidar com a minha mente perturbada.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR