Capítulo 7. Cretinos

1057 Palavras
Bijou, South Lake Tahoe, CA — F-fico feliz que tenha vindo. — Lindsay nos serviu um vinho ao fim da refeição e nos sentamos no sofá de sua sala. — Vi que ainda tem minha aliança. — Vi que ainda gosta desse vinho... Desde que cheguei, fiz o possível para não ficar a encarando — porque eu exageraria facilmente. Quer dizer, eu tinha expectativas, mas, na prática, não tinha nada, além de um encontro de conhecidos, rolando e eu tinha que agir de acordo com a realidade. — E-ele é bom — riu acanhadamente. — Doce e cítrico, como gosta — repeti a fala que ela muito repetiu no decorrer dos anos. — Sei disso. — Como foi... na missão? — Infernal! — arfei. — Difícil dormir ou comer, aí te perdi. — Engoli seco. — Voltando, eu não sabia bem o que seria da minha vida... então larguei tudo, eu acho. Ela abaixou a cabeça, respirando fundo. — Nem sei o quanto foi difícil para você. — Tentei ser empático. — Acho justo que me desculpe por isso... — Você parou de entrar em contato. — Seu olhar lacrimejou e eu virei em sua direção. — Pensei que já tinha arrumado qualquer moça para me substituir. Tive um conflito interno, me perguntando se deveria falar do que me ocorreu, mas optei por mentir. — Eu só posso te pedir perdão. Foi difícil! Ela se aproximou para me abraçar e eu envolvi sua cintura, respirando fundo para sentir seu perfume. — Ainda não consegui te substituir — ri de mim. Lindsay apertou o abraço e arfou pesadamente. — Jamais trocaria alguns minutos por toda uma vida ao seu lado, Lindsay. — Acariciei seus cabelos. — Isso me ajudou a suportar tudo... absolutamente tudo. Deu para sentir seu peito tremular com os soluços e eu apenas mantive as carícias em seu cabelo. — Senti muito a sua falta! — sussurrei-lhe. O lacrimejado olhar castanho me fitou e a beijei. O ar chegou a faltar com tanta saudade que eu tinha de encontrar aqueles delicados lábios com os meus. Depois tanto ser esmagado por uma solidão quase indescritível, foi como sentir o peso aliviar. O corpo comburiu junto ao dela, mas o distante choro de uma criança chamou atenção. Lindsay não parecia ouvir e veio ao meu colo, intensificando o beijo. Parecendo despreocupada, eu ignorei — pensei ser uma criança no vizinho — e envolvi sua cintura para deitá-la no sofá com o corpo sobre o dela. Ela tirou minha blusa e eu acariciei seu corpo, beijei seu pescoço e desci os beijos aos seus seiös. As finas unhas me arranharam — eu sentia muita falta! Claro, o incômodo pela falta de camisinha chegou e, ao notar, ela riu apontando na direção da TV. — A primeira gaveta do armário ao lado — falou. Assenti para ir à gaveta e o choro foi mais nítido, era dentro da casa e isso me fez franzir o cenho. — O que é isso? Está ouvindo? — perguntei. — N-não. — Ela meneou a cabeça, falou rápido. — Parece choro... — Eu franzi o cenho e segui até a entrada do corredor para prestar mais atenção. — Levi... vem cá! — Lindsay chamou. Era um choro cansado e baixo. Não parecia saudável, então só corri na direção. A casa de Lindsay tinha dois quartos: o quarto de seus pais e o seu. Entrando no quarto dela, me deparei com um quarto de criança com tudo em tons azuis e um berço. O choro fraco se misturava a um chiado. O pálido bebê tinha a garganta inchada. Parecia engasgar ou algo similar. Ao me aproximar, notei que o chiado era causado pela dificuldade para respirar. Tive dúvidas, mas ignorei todas para socorrê-lo. — Lindsay, emergência! Pede ipeca na farmácia ou para os vizinhos — falei, assim que a vi chegar. — P-posso tentar ajudar... o inchaço é ataque alérgico, talvez. Peguei-lhe enquanto ela correu, o virei de barriga para baixo com a cabeça mais baixa que o corpo. Sabe-se lá o que fosse, costumava funcionar. Na primeira tentativa, com os golpes com o calcanhar da mão, nada foi expelido pelo menino. Virei-lhe, apoiando no braço com a mão servindo de travesseiro e tentei as cinco compressões no peito. Terceira tentativa, precisei virá-lo e insistir para ele finalmente expelir pedaços brancos mäl digeridos. O choro soou mais alto, apesar de muito desafinado. Nem tardou para ouvir a ambulância e os passos apressados de Lindsay. Ela estava com o remédio. — Não precisa da ipeca. Agora, só o doutor — falei e ela pegou o menino, me olhando com surpresa. — Precisa correr à ambulância. Eu te encontro lá. — O-obrigada! — respondeu, voltando à sala. De novo, não perguntei. Só fui ao carro, sabendo que poderia ajudar com o carro, se ela precisasse. A cabeça tentou aliviar, me fazendo crer que ela só era babá, mas eu decidi ser honesto comigo e não criar conclusão alguma tão facilmente. Chegamos e eu só pude ir à recepção. A matemática era c***l: ela podia ter omitido um filho meu ou teve com outro, ruïm de qualquer forma. Não tardou para ela chegar com um doutor jovem, que sorriu e me estendeu a mão ao chegar. — É quem fez a manobra, eu imagino. — Sim. — Não consegui desviar o olhar dela. — E-era o que dava. Tinha pedaços brancos pequenos... — Ele já ingere medicamentos sólidos!? — estranhou, olhando Lindsay. — Impossível! — Realmente parecia comprimido — falei. — N-não. — Ela meneou a cabeça. — Claro! — O doutor suspirou. — Bom, obrigado! Pode ter ajudado a salvar a criança — sorriu para mim. O médico saiu e eu só me aproximei de Lindsay. — Que criança eu ajudei a salvar, Lindsay? Perguntei baixo, mas ela começou a chorar. Corroeu minha paciência rápido, mas consegui apenas respirar fundo para conter minha rispidez. — Você estava longe! — falou de repente. — Você pode até conseguir viver assim, mas eu não! Van estava próximo, visitando... f-foi tudo muito rápido! — Quem!? — Acabei aumentando o tom de voz. Ela chorou mais e tentou se aproximar. Dei um passo atrás, cerrando os punhos e repetindo o nome do puto — ele foi um grande amigo de infância. Letárgico, eu só saí para não perder a cabeça.
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