Respeito e coragem

1069 Palavras
Florela: Saí de lá vitoriosa não porque ganhei não teve “sim” não teve acordo assinado mas saí com a cabeça erguida, com a dignidade intacta, e isso já era mais do que muita gente consegue naquele lugar. Os crias me olhavam uns com respeito, outros com surpresa, e alguns, claro, com aquela pontinha de medo disfarçado. Porque não é todo dia que uma menina de dezesseis anos sobe sozinha no ninho do chefe e desce viva, de pé, sem se curvar. Passei pela barreira com postura e marra. Cada passo, um desafio vencido. Vi de longe o Breninho, branco que nem giz, os olhos arregalados, mãos tremendo. —Breninho: Cê tá louca, Fô?. ele quase gritou. —Breninho: Eu achei que tu tinha morrido lá dentro! Dei um sorriso torto, mais cansada do que vitoriosa. — Morri não, Breninho só dei um susto no sistema. Mas o pior ainda me esperava em casa. Meu pai quase infartando estava com o rosto suado, camisa manchada de graxa e uma raiva que misturava desespero e alívio. — Gomero: Você tá maluca, menina?! ele gritou quando me viu entrando. — Gomero: Subir aquele morro?! Sozinha?! Quer morrer é?! — Eu precisava, pai precisava mostrar que a gente não é qualquer um que a oficina é nossa que a gente não abaixa a cabeça pra qualquer ameaça no papel. Ele passou a mão no rosto, cansado, os olhos marejando sem querer sabia que eu não era mais criança mas também não tava pronto pra ver a filha enfrentar o morro como gente grande. —Gomero: Você é tudo que eu tenho não me faz enterrar você, não. Fui até ele, abracei forte a graxa da camisa sujou meu macacão mais ainda mas não liguei. — A oficina é nossa, pai. Mas a coragem… essa eu herdei de você... Ele ficou quieto. Só me abraçou de volta. E ali, no meio da bagunça, da tensão e da esperança, eu entendi nós não somos pequenos somos só invisíveis demais pros grandes perceberem. Até que a gente decide aparecer. Tomamos café às pressas pão dormido com manteiga raspada e o resto do café coado de ontem era o normal. O de sempre. Meu pai não falou muito. Ainda tava engolindo a ideia de que a filha subiu o morro, bateu de frente com o chefe e voltou viva mas ele sabia que tentar me segurar agora era como tentar parar motor sem freio. Só me olhou com aquele misto de orgulho e preocupação de pai que já viu demais. Abrimos a oficina cedo eu fazia meio período ali de manhã até o sol começar a arder de verdade — depois saía direto pra escola. E da escola, voltava pra oficina. Não tinha tempo r**m. Chuva, sol, estresse, dívidas, tudo se resolvia com graxa e força de vontade. Mas naquele dia… aquele dia foi diferente. Os amigos do meu pai começaram a chegar mais cedo. Primeiro o Zé da Suspensão, depois o Magrão que cuida dos freios, e por fim o Bira, que sempre arruma o rádio e nunca acredita em nada. — Zé: É verdade mesmo, Flo? pergunto aproximando com um pano no ombro. —Zé: Tu subiu lá em cima? Lá mesmo? Levantei o olhar, limpando a mão numa flanela suja. — Subi. —Bira: E... saiu viva? pergunto arregalando os olhos. Dei de ombros, tentando não parecer metida. — Saí. Inteira. Só com uns olhares atravessados na bagagem. Eles se entreolharam, como se estivessem vendo um fantasma ou uma santa. —Magrão: Oxente… essa menina vai longe. — Zé: Vai meter medo em muito bandido de meia tigela . Fingi que não era nada, mas por dentro... eu sentia. A oficina não era mais só um lugar de conserto tava virando ponto de respeito. Meu nome correndo pela boca dos crias e dos mais velhos. E não era fama vazia era firmeza. Enquanto eles riam e se admiravam, peguei minha mochila a hora da aula tava chegando. — Bira: Vai pra escola mesmo depois de virar lenda? gritou lá de dentro. — Claro respondi, girando a chave de f***a no dedo. — Lenda também precisa de diploma e de futuro. E fui. Com graxa nas mãos, ideias na cabeça e um futuro que, por mais difícil que fosse, agora tinha outro nome respeito. Na aula, o dia parecia igual de sempre a porta rangendo, o tilintar das mochilas, o professor entrando, ajustando os óculos. Mas tudo mudou quando ela, a garota que ria de mim, levantou a cabeça e me viu. —xx: Ei, Florela começou com aquele tom de deboche, cruzando os braços. —xx: Fui ouvir o boato. dizem que você subiu no morro hoje pra falar com o chefe… só pra sair com a cara no muro, né? Silêncio tenso vários olhares se voltaram pra mim. Sentei reta, respirando fundo, soltando a mochila devagar. — É respondi, firme — E voltei inteira. A plateia amedrontada deixou de lado o riso a garota me encarou, meio desconfiada, meio surpresa. —xx: Mas por que subir lá se não tinha nada? — Tinha sim eu tinha que mostrar que aqui também tem voz subi pra defender meu pai, nossa oficina, nossa dignidade e, sim, talvez você pense que é maluquice. Mas maluco é ignorar a vida achando que nada vai mudar. Ela ficou muda os meninos da turma trocaram olhares desconfortáveis. A professora, que estava atrás da carteira, levantou uma sobrancelha. Percebeu que algo estava acontecendo, mas deixou rolar. — xx: Então… você venceu? ela perguntou, sem saber muito o que dizia. — Não teve “vencer” ou “perder” eu cheguei lá, disse o que tinha que dizer, e voltei pra cá. Voltei pra aprender, pra continuar trabalhando, pra construir um futuro. Fiz uma pausa, e todos sentiram o peso. — Vocês sabem, né? Eu faço meio período de aula, meio da oficina. Mas minha “escola” de verdade é a vida. Ali, no morro, quem quer comandar a gente só precisa que a gente se curve eu preferi manter a cabeça erguida. A garota encarou o chão não falou mais nada eu sorri com leveza, guardando essa pequena vitória. O professor começou a aula, mas o clima mudou aquela história circulou pela sala inteira — não como boato, mas como lição. E eu ali, no centro, mostrando que respeito e coragem falam mais alto que piada.
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