Florela:
Saí de lá vitoriosa não porque ganhei não teve “sim” não teve acordo assinado mas saí com a cabeça erguida, com a dignidade intacta, e isso já era mais do que muita gente consegue naquele lugar.
Os crias me olhavam uns com respeito, outros com surpresa, e alguns, claro, com aquela pontinha de medo disfarçado. Porque não é todo dia que uma menina de dezesseis anos sobe sozinha no ninho do chefe e desce viva, de pé, sem se curvar.
Passei pela barreira com postura e marra. Cada passo, um desafio vencido.
Vi de longe o Breninho, branco que nem giz, os olhos arregalados, mãos tremendo.
—Breninho: Cê tá louca, Fô?.
ele quase gritou.
—Breninho: Eu achei que tu tinha morrido lá dentro!
Dei um sorriso torto, mais cansada do que vitoriosa.
— Morri não, Breninho só dei um susto no sistema.
Mas o pior ainda me esperava em casa.
Meu pai quase infartando estava com o rosto suado, camisa manchada de graxa e uma raiva que misturava desespero e alívio.
— Gomero: Você tá maluca, menina?!
ele gritou quando me viu entrando.
— Gomero: Subir aquele morro?! Sozinha?! Quer morrer é?!
— Eu precisava, pai precisava mostrar que a gente não é qualquer um que a oficina é nossa que a gente não abaixa a cabeça pra qualquer ameaça no papel.
Ele passou a mão no rosto, cansado, os olhos marejando sem querer sabia que eu não era mais criança mas também não tava pronto pra ver a filha enfrentar o morro como gente grande.
—Gomero: Você é tudo que eu tenho não me faz enterrar você, não.
Fui até ele, abracei forte a graxa da camisa sujou meu macacão mais ainda mas não liguei.
— A oficina é nossa, pai. Mas a coragem… essa eu herdei de você...
Ele ficou quieto. Só me abraçou de volta. E ali, no meio da bagunça, da tensão e da esperança, eu entendi nós não somos pequenos somos só invisíveis demais pros grandes perceberem. Até que a gente decide aparecer.
Tomamos café às pressas pão dormido com manteiga raspada e o resto do café coado de ontem era o normal. O de sempre.
Meu pai não falou muito. Ainda tava engolindo a ideia de que a filha subiu o morro, bateu de frente com o chefe e voltou viva mas ele sabia que tentar me segurar agora era como tentar parar motor sem freio. Só me olhou com aquele misto de orgulho e preocupação de pai que já viu demais.
Abrimos a oficina cedo eu fazia meio período ali de manhã até o sol começar a arder de verdade — depois saía direto pra escola. E da escola, voltava pra oficina. Não tinha tempo r**m. Chuva, sol, estresse, dívidas, tudo se resolvia com graxa e força de vontade.
Mas naquele dia… aquele dia foi diferente.
Os amigos do meu pai começaram a chegar mais cedo. Primeiro o Zé da Suspensão, depois o Magrão que cuida dos freios, e por fim o Bira, que sempre arruma o rádio e nunca acredita em nada.
— Zé: É verdade mesmo, Flo?
pergunto aproximando com um pano no ombro.
—Zé: Tu subiu lá em cima? Lá mesmo?
Levantei o olhar, limpando a mão numa flanela suja.
— Subi.
—Bira: E... saiu viva?
pergunto arregalando os olhos.
Dei de ombros, tentando não parecer metida.
— Saí. Inteira. Só com uns olhares atravessados na bagagem.
Eles se entreolharam, como se estivessem vendo um fantasma ou uma santa.
—Magrão: Oxente… essa menina vai longe.
— Zé: Vai meter medo em muito bandido de meia tigela .
Fingi que não era nada, mas por dentro... eu sentia. A oficina não era mais só um lugar de conserto tava virando ponto de respeito. Meu nome correndo pela boca dos crias e dos mais velhos.
E não era fama vazia era firmeza.
Enquanto eles riam e se admiravam, peguei minha mochila a hora da aula tava chegando.
— Bira: Vai pra escola mesmo depois de virar lenda?
gritou lá de dentro.
— Claro
respondi, girando a chave de f***a no dedo.
— Lenda também precisa de diploma e de futuro.
E fui.
Com graxa nas mãos, ideias na cabeça e um futuro que, por mais difícil que fosse, agora tinha outro nome respeito.
Na aula, o dia parecia igual de sempre a porta rangendo, o tilintar das mochilas, o professor entrando, ajustando os óculos. Mas tudo mudou quando ela, a garota que ria de mim, levantou a cabeça e me viu.
—xx: Ei, Florela
começou com aquele tom de deboche, cruzando os braços.
—xx: Fui ouvir o boato. dizem que você subiu no morro hoje pra falar com o chefe… só pra sair com a cara no muro, né?
Silêncio tenso vários olhares se voltaram pra mim. Sentei reta, respirando fundo, soltando a mochila devagar.
— É
respondi, firme
— E voltei inteira.
A plateia amedrontada deixou de lado o riso a garota me encarou, meio desconfiada, meio surpresa.
—xx: Mas por que subir lá se não tinha nada?
— Tinha sim eu tinha que mostrar que aqui também tem voz subi pra defender meu pai, nossa oficina, nossa dignidade e, sim, talvez você pense que é maluquice. Mas maluco é ignorar a vida achando que nada vai mudar.
Ela ficou muda os meninos da turma trocaram olhares desconfortáveis. A professora, que estava atrás da carteira, levantou uma sobrancelha. Percebeu que algo estava acontecendo, mas deixou rolar.
— xx: Então… você venceu?
ela perguntou, sem saber muito o que dizia.
— Não teve “vencer” ou “perder” eu cheguei lá, disse o que tinha que dizer, e voltei pra cá. Voltei pra aprender, pra continuar trabalhando, pra construir um futuro.
Fiz uma pausa, e todos sentiram o peso.
— Vocês sabem, né? Eu faço meio período de aula, meio da oficina. Mas minha “escola” de verdade é a vida. Ali, no morro, quem quer comandar a gente só precisa que a gente se curve eu preferi manter a cabeça erguida.
A garota encarou o chão não falou mais nada eu sorri com leveza, guardando essa pequena vitória.
O professor começou a aula, mas o clima mudou aquela história circulou pela sala inteira — não como boato, mas como lição. E eu ali, no centro, mostrando que respeito e coragem falam mais alto que piada.