Nen esperou a raiva esfriar entrou em casa como se o ar ao redor estivesse pesado demais para ser ignorado. A porta fechou atrás dele com força, mas não era barulho o que chamava atenção ali dentro. Era o jeito como ele caminhava direto para o centro da casa, sem hesitar, sem desviar de ninguém.
A mãe dele já sabia.
Estava na sala, sentada com uma postura impecável, como se estivesse esperando exatamente aquele momento. O pai, mais ao lado, observava em silêncio.
Pedro parou na frente deles.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
Foi a mãe dele quem quebrou o silêncio primeiro.
“Eu imaginei que você viria.”
Pedro soltou o ar pelo nariz, um riso curto e sem humor.
“Você mexeu na bolsa da Vic.”
Ela não negou.
“Eu resolvi um problema.”
A palavra fez o maxilar dele travar.
“Ela não é um problema”, ele respondeu, a voz baixa, mas carregada.
O pai dele finalmente se mexeu na cadeira.
“Você está emocional demais para enxergar isso com clareza.”
Pedro olhou para ele, direto, firme.
“Não. Eu estou enxergando tudo muito claro pela primeira vez.”
A mãe dele cruzou as pernas, ainda controlada, ainda fria.
“Pedro, você é jovem. Vai entender um dia que isso não é sobre sentimento, é sobre realidade. Aquela menina não pertence ao seu mundo. E você está se destruindo por uma ilusão.”
Ele deu um passo à frente.
“Não fala dela assim.”
A voz dele já não era só firme. Era perigosa.
O silêncio que veio depois foi mais pesado do que qualquer grito.
A mãe dele respirou fundo, como se estivesse lidando com algo irracional.
“Você acha que isso vai durar? Que você vai jogar sua vida fora por alguém que nem tem as mesmas condições que você? Que não tem o mesmo futuro?”
Pedro balançou a cabeça devagar, os olhos fixos nela.
“Você não entende nada sobre mim.”
Ela manteve a expressão intacta.
“Eu entendo mais do que você imagina.”
Ele soltou uma risada curta, agora sem controle nenhum.
“Não entende não.”
A sala ficou em silêncio de novo.
Pedro passou a mão no cabelo, tentando organizar os pensamentos, mas não havia organização possível naquele momento. Só verdade.
“Você tentou comprar ela hoje.”
A mãe dele não reagiu.
“Eu tentei resolver.”
“Você tentou apagar ela da minha vida.”
Agora a voz dele subiu um tom.
O pai dele se levantou, finalmente entrando na conversa.
“Pedro, chega.”
Mas ele não parou.
“Vocês mexeram com a escola dela. Tentaram tirar a bolsa. Vocês estão pressionando a família dela. Isso não é p******o, isso é controle.”
A mãe dele levantou o olhar, mais dura agora.
“Isso é consequência das suas escolhas.”
Pedro encarou os dois.
E por um segundo, parecia alguém completamente diferente ali.
“Não. Isso é vocês tentando decidir quem eu posso amar.”
O silêncio que veio depois foi absoluto.
A mãe dele levantou devagar, caminhando até ficar na frente dele.
“Então você precisa escolher, Pedro.”
Ele nem piscou.
“Eu já escolhi.”
Ela sustentou o olhar.
“Então você está disposto a perder tudo por isso?”
Pedro demorou só um segundo para responder.
“Se tudo significa viver sem ela, sim.”
A resposta caiu na sala como algo definitivo.
E pela primeira vez, a mãe dele não teve pressa em responder.