7. Lorena

2200 Palavras
— Onde? Léo apontou para cima. Olhei para a rua. Depois para Dona Neide. Depois para ele. — “Para cima” é muito específico. Léo soltou uma risada curta. — Vem. Não gostei daquele “vem”. Não gostei de nada naquela situação, para ser sincera. Mas fui. Talvez porque eu estivesse cansada de portas fechadas. Talvez porque Dona Neide parecesse confiar nele. Ou porque, naquele ponto, meu senso de normalidade já tinha pedido demissão. Saí da Associação com a bolsa grudada ao corpo. Léo caminhava na frente. Subimos uma rua estreita, viramos numa viela, depois outra. Eu conhecia aquela região por causa do trabalho, mas nunca tinha subido tanto. A Clínica atendia muita gente dali. Idosos que reclamavam da dificuldade de descer. Gestantes que perdiam consulta quando chovia. Crianças que chegavam atrasadas porque alguém tinha fechado uma passagem. Eu escutava aquelas histórias todos os dias. Mas ouvir era uma coisa. Estar ali era outra. A subida já começava a cobrar da minha lombar. — Falta muito? Léo olhou para trás. — Tá cansada? — Estou grávida, não inválida. Ele levantou as duas mãos. — Não falei nada. — Mas pensou. — Pensei que você ia reclamar da ladeira. — Reclamei. — Então. Revirei os olhos. Continuamos. Quando dobramos outra esquina, ouvi uma voz feminina antes de enxergar de onde vinha. — Não adianta falar que “sempre foi assim”, Caio! Esse é exatamente o problema! Parei. Léo também. — É aqui? — É. A voz continuou. — Toda vez alguém precisa me carregar! Você acha normal isso? Subimos os últimos metros. Foi quando vi. Uma mulher em cadeira de rodas estava parada diante de uma escada curta que levava a uma entrada lateral. Dois rapazes estavam ao lado dela. Um deles segurava a cadeira. O outro parecia não saber onde colocar as mãos. E, de costas para mim, estava um homem enorme. Não enorme de gordo. Enorme de ocupar espaço. Alto. Ombros largos. Camiseta preta colada no corpo. Braços tatuados. Cabelo curto. Postura de quem não precisava levantar a voz para ser ouvido. — Vitória, eu já falei que vou mandar resolver. — Você fala isso toda vez! — Porque toda vez aparece alguma merda nova nesse lugar. — Então resolve a merda velha primeiro! O homem virou um pouco o rosto. Vi o perfil. Maxilar marcado. Barba curta. E a expressão de quem estava a dois segundos de perder a paciência. Léo se aproximou. — Chefe. O homem olhou na nossa direção. E foi aí que eu entendi por que algumas pessoas baixavam a voz quando falavam dele. Caio Ribeiro. Arcanjo. Ele era ainda maior de frente. Devia ter quase dois metros. Talvez não tivesse. Mas parecia. O tipo de homem que fazia qualquer ambiente diminuir. E então ele me olhou. Foi rápido. Primeiro meu rosto. Depois minha barriga. Depois de volta para meus olhos. Nada de olhar demorado. Nada de sorriso. Só atenção. Estranhamente, isso me deixou mais nervosa do que se ele tivesse feito qualquer coisa. Vitória acompanhou o olhar dele. — Essa é a moça? Léo assentiu. — Lorena. Ela me olhou. — Prazer. Vitória. — Prazer. Apontou para Caio com o queixo. — Esse aí é meu irmão. Caio soltou o ar. — Vitória. — Ué. Estou apresentando. Olhei para ele. — Imagino que não precise. Vitória riu. — Gostei dela. Caio ignorou. — Você teve dificuldade pra subir? A pergunta me pegou desprevenida. — Eu? — É. — Estou viva. Ele me olhou por um segundo a mais. — Não foi o que eu perguntei. Senti vontade de responder atravessado. Mas Vitória entrou no meio. — Ela está grávida, Caio. Óbvio que teve. — Eu consigo falar — respondi. Vitória levantou as sobrancelhas. Depois sorriu. — Melhor ainda. Caio passou a mão pela nuca. — Fael! Um homem apareceu na porta. Moreno. Barba rala. Celular na mão. — Fala. Caio apontou para a escada. — Isso aqui. Fael olhou. — Já falei com o cara da obra. — E? — Disse que vem amanhã. Vitória bufou. — Amanhã eu já ouvi semana passada. Fael abriu a boca. — Eu… — Não é com você — ela cortou. — É com ele. Apontou para Caio. — Ele acha que mandar carregar resolve. Caio virou para ela. — Eu não acho isso. — Então para de deixar acontecer. Silêncio. Aquilo me chamou atenção. Não a discussão. A forma como ele ficou quieto. Podia ter encerrado. Mandado ela parar. Ignorado. Mas não fez. — Beleza — disse finalmente. — Hoje ainda. Fael assentiu. — Vou atrás. — E não improvisa rampa de madeira solta — Vitória completou. Fael olhou para ela. — Eu não ia… — Ia. Léo disfarçou uma risada. Caio lançou um olhar para ele. — Tá achando graça? — Nenhuma. — Ótimo. Fael saiu andando. Vitória apontou para a entrada. — Agora eu quero entrar sem dois homens me levantando. Caio fechou os olhos por um segundo. — Vitória… — Não. Hoje você vai ouvir. Fiquei sem saber se deveria estar ali. Aquilo parecia uma briga de família. E, ao mesmo tempo, não era só isso. Era uma barreira que afetava a vida dela. Aquilo eu conhecia. Da Clínica. Do território. Do quanto qualquer degrau podia virar impedimento. Caio virou para mim. — Entra. — Ela não entra. Vitória apontou para a escada. — Enquanto eu não entrar sozinha, ninguém entra. Caio olhou para a irmã. Depois para a escada. Depois para Léo. — Liga pro Fael. — Ele acabou de sair. — Então manda voltar. — Caio — Vitória interrompeu. — Não é pra fazer porque eu tô fazendo escândalo hoje. É pra fazer porque isso não pode continuar. Ele respirou fundo. — Eu sei. A resposta saiu diferente. Mais baixa. Vitória ficou séria. Por alguns segundos, ninguém falou. Então ela assentiu. — Ótimo. Agora pode ir conversar com ela. Apontou para mim. — E não assusta a moça. Olhei para Caio. — Está um pouco atrasada essa orientação. Léo riu. Dessa vez não conseguiu esconder. Caio olhou para ele. — Vai dar uma volta. — Tô indo. Vitória se aproximou de mim. — Não liga. Ele nasceu com essa cara. — Essa cara qual? — De problema. Olhei para Caio. Ela não estava errada. — Vitória. — O quê? — Vai com Léo. — Mandando embora? — Dando espaço. — É diferente. — Então vai ocupar outro. Ela riu. Antes de sair, olhou para mim. — Boa sorte. — Eu vou precisar? Vitória pensou. — Talvez. Ótimo. Muito tranquilizador. Léo acompanhou Vitória alguns metros. Caio esperou até que eles se afastassem. Então apontou para uma área mais aberta ao lado da casa. — Senta. — Prefiro ficar em pé. Ele me olhou. — Você subiu esse morro grávida. — Não vou desmaiar. — Ninguém falou em desmaiar. — Então para de olhar pra mim como se eu fosse quebrar. Os olhos dele mudaram. Quase imperceptível. Talvez surpresa. Talvez irritação. — Você fala assim com todo mundo? — Só com quem começa me dando ordem. Ele soltou uma respiração pelo nariz. Não chegou a ser risada. — Senta se quiser. — Melhor. Escolhi uma cadeira. Ele ficou em pé. — Você não vai sentar? — Não. — Então eu também posso levantar. — Pode. — Ótimo. Ficamos nos encarando por alguns segundos. Aquilo era ridículo. Talvez o estresse tivesse acabado com meu juízo. Caio foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Dona Neide falou por alto. — Imagino. — Quero ouvir de você. — Por quê? — Porque a história é sua. A resposta me desmontou um pouco. Pouco. — Você conhece algum advogado? — Conheço. — Da área? — Não sei ainda. — Então por que me mandou subir? Ele franziu a testa. — Não mandei você subir. Olhei para ele. — “Arcanjo mandou subir.” — Eu mandei Léo perguntar se você queria conversar. — Não foi exatamente assim que chegou. — Mas você veio. — Porque eu preciso de ajuda. Ele assentiu. — Então fala. Olhei para aquele homem. Para o tamanho dele. Para as tatuagens. Para a fama. Para tudo que eu já tinha ouvido. Não combinava com alguém para quem eu deveria contar uma coisa tão íntima. Mas eu já tinha contado minha vida para uma médica, uma atendente, Mirela, Dona Neide. Talvez a vergonha já tivesse gastado. Respirei. E contei. Outra vez. Mas foi diferente. Porque Caio quase não interrompeu. Eu falei de Priscila. Eduardo. Do embrião. Do ultrassom. Do diagnóstico. Da possibilidade de interrupção. Dos documentos. Das mensagens. Quando falei “anencefalia”, ele desviou o olhar por um segundo. Só um. Quando falei da pressão de Eduardo, o maxilar dele travou. — Mostra. Entreguei o celular. Ele leu as mensagens. Devagar. Voltou algumas. — Esse cara já te ameaçou diretamente? — Não. — Sabe onde você mora? Soltei o ar. — Dona Neide perguntou a mesma coisa. — Responde. — Sabe. — Você mora sozinha? Parei. — Com minha filha. Os olhos dele subiram para os meus. — Quantos anos? — Isso importa? — Pode importar. — Bia tem oito. Ele devolveu o telefone. — Não apaga nada. — Todo mundo está me dizendo isso. — Porque faz sentido. — Eu sei. Silêncio. — E você quer o quê? — perguntou. A pergunta me pegou. — Como assim? — Priscila quer interromper. Eduardo quer que você cumpra o que ele acha que foi combinado. Médico falou uma coisa. Atendimento jurídico te deu protocolo. Todo mundo quer alguma coisa. Ele inclinou a cabeça. — E você? Abri a boca. Nada saiu. Talvez porque ninguém tivesse perguntado daquele jeito. A médica perguntou se eu queria continuar. Mirela perguntou se eu estava bem. Priscila perguntou quanto tempo eu precisava. Mas aquilo era diferente. — Eu não sei. Caio não disse nada. — Eu só… Engoli em seco. — Eu só quero que parem de decidir por mim. As palavras saíram baixas. Mais cansadas do que firmes. Ele me olhou. E, pela primeira vez, a presença dele pareceu mudar. Não diminuir. Mas mudar. Os olhos dele não eram escuros como eu imaginei de longe. Eram caramelo. Quentes. Estranhos naquele rosto tão duro. Ficamos em silêncio. Eu tive a impressão absurda de que alguma coisa no que eu disse tinha tocado um lugar que não tinha nada a ver comigo. Caio desviou o olhar primeiro. Pegou o celular. — Vou ligar pra alguém. — Agora? — Agora. — Quem? — Um advogado. Meu coração acelerou. — Da área? — Vou descobrir. — E quanto custa? Ele me olhou. — Depois você pensa nisso. — Não. — Não o quê? — Não vem com “depois você pensa”. Eu não quero favor que eu não consiga pagar. — Você sempre complica tudo? — Só quando tentam simplificar minha vida sem me perguntar. O canto da boca dele mexeu. Quase nada. — Certo. Ele desbloqueou o celular. — Eu vou perguntar. Você decide se quer falar com ele. — Melhor. — Melhor. Ele procurou um contato. Antes de ligar, parou. — Lorena. — O quê? — Se esse Eduardo aparecer na sua casa sem você querer… Levantei a mão. — Não. Ele franziu a testa. — Não o quê? — Eu vim atrás de orientação jurídica. Não de proteção de dono de morro. A expressão dele fechou. — Eu não falei isso. — Ia falar. — Você lê mente? — Não. Só contexto. Por alguns segundos, achei que tinha ido longe demais. Mas Caio apenas assentiu. — Beleza. Guardou aquela resposta como se fosse uma informação importante. — Então eu não decido por você. — Ótimo. — Mas se você pedir ajuda, eu ajudo. Respirei. — Isso eu aceito. Ele fez a ligação. Afastou-se alguns passos. Eu permaneci sentada. Olhei para a rua. Para a escada. Para Vitória ao longe discutindo alguma coisa com Léo. Para o movimento do morro. Para aquele lugar onde tudo parecia acontecer ao mesmo tempo. Fael voltou correndo, falando no telefone e apontando para dois homens que traziam ferramentas. Caio interrompeu a ligação por um instante. — Fael! — Já tô resolvendo! Vitória gritou de longe: — Do jeito certo! Fael levantou a mão. — Do jeito certo! Sorri sem querer. Caio olhou para mim. — O quê? — Nada. — Tá rindo. — Da sua vida. Ele ergueu uma sobrancelha. — Engraçada? Olhei para ele. Dois metros de problema. No meio de uma irmã que cobrava acessibilidade. Um braço direito que ria escondido. Um gerente correndo atrás de obra. E uma grávida desconhecida que tinha acabado de dizer que não queria ninguém decidindo por ela. — Confusa — respondi. Caio me encarou. — A sua também. Meu sorriso sumiu. Justo. Ele voltou para a ligação. Eu apoiei a mão na barriga. O bebê mexeu. Dessa vez, não senti medo. Só cansaço. E uma estranha sensação de que eu tinha chegado ali procurando apenas um advogado. Mas talvez tivesse acabado de abrir uma porta muito maior do que pretendia. Uma porta guardada por um homem que assustava antes de falar. E que, pela primeira vez em dias, tinha me feito uma pergunta simples: O que você quer?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR