A Libertação do Dhegammon

2392 Palavras
Se de fato existirem deuses que regem nossos destinos sombrios, que eles se apiedem de nossas almas miseráveis neste vale das sombras da morte que e a Terra! Estou velho, agora. acabado e numa cadeira de rodas, mas minha mente continua lúcida e minha memória perfeita. Minha insônia crônica só é diminuída quando tomo o Nembutal. o Gardenal e outros barbitúricos. Assim, sedado, consigo algumas poucas horas de sono, tendo ao meu lado o fiel pastor alemão Átila, um são que e o meu Único e melhor amigo. Passei uma boa parte de minha vida num presídio, pagando por crimes que dizem que cometi. Mas o que fiz foi apenas me defender. Agora, livre depois de pagar por tudo aquilo que dizem que eu cometi só me restam as lembranças sombrias e aterrorizantes de um passado metuendo e tenebroso. Vou contar minha historia, vou contar a verdade. Tudo será escrito nesta folha de papel e guardado na gaveta de minha escrivaninha como uma missiva reveladora a posteridade. Por favor, não me Chamem de louco! Não sejam Ievianos e preconceituosos! Existem mistérios diabólicos aqui mesmo neste planeta amaldiçoado, segredos arcaicos de um mundo sobrenatural, invisivel aos olhos das pessoas comuns. É todo um universo invisível que existe ao mesmo tempo que o nosso. Um mundo onde vagam estranhas e malditas criaturas, mortas ou não-humanas. Confesso com toda a sinceridade de minha alma que não fui eu quem matou meus amigos L., P., H., C. e W (as duas últimas iniciais pertencentes a lindas garotas). Eu juro senhores, não fui eu quem os matei! Que suas pobres almas repousem em paz nos mundos edênicos do Além! Mas, repito, não fui eu quem os matei naquelas férias de verão nas regiões sombrias da Mata Atlântica, em Santa Catarina. Tudo começou numa manha de Fevereiro. Tínhamos combinado pescar naquela floresta sombria na encosta da Colina dos Ventos Sussurrantes. Saímos cada qual com sua mochila as costas, pela trilha que iniciava na descida de uma grande duna nas terras sáfaras da restinga adjacente. Lembro que P. tinha nos alertado sobre o fato de que a névoa insólita e esbranquiçada como uma alma penada estava por demais densa e cintilante naquela manhã sombria. W. comentava com C. de que pareciamos estar atravessando os portais que levam a uma outra dimensão. Irônico, L., com os caniços com molinetes sobre o ombro, frisou que se estivéssemos deixando o mundo dos vivos através de algum mecanismo desconhecido da natureza por um caminho hiperespacial telúrico, seria um alívio, diante das desgraças que assolam o plano terrestre, com suas guerras, matanças e egoísmo desenfreado. W. achou que o ambiente estava enevoado demais para a época. Logo a noite chegou e uma luminosidade débil parecia vir da lua. P. era o unico que levava a lanterna, iluminando também precariamente o caminho a frente. Perguntei a H. onde ficava o lago do bosque onde, segundo ele nos havia dito, estariam os peixes suculentos a espera de nossos anzóis. Através de uma picada estreita em meio a um oceano de folhas e arbustos, caminhamos durante mais de uma hora, sempre com aquela névoa pegajosa a nos envolver com seus afagos gélidos. P. e a bela W. foram os primeiros a notarem a mudança no ambiente. Houve uma lufada quente de vento que turbilhonou as névoas, dispersando-as como revoadas de espectros na C. indagou a L. se estávamos perdidos naquele bosque com fama de assombrado. L. meneou a cabeça, sombrio, enquanto parava para beber a agua de seu cantil, enxugando os lábios com o dorso da mão. Foi ele também o primeiro a sentir que algo nos observava, algo terrível, invisível, grotesco, malévolo. Uma coisa inominável oriunda, não de nosso Cosmo, mas dos reinos demoníacos do caos de ultra-mundos! Indaguei a L. o motivo de sua apreensão. Disse-me que tinha a sensação de estarmos sendo espreitados. De repente P. confirmou o que L. suspeitava, chamando-nos a atenção para um cheiro nauseabundo pairando no ar como um perfume maldito da morte. W. achou que o ambiente estava enevoado demais para a época. Logo a noite chegou e uma luminosidade débil parecia vir da lua. P. era o unico que levava a lanterna, iluminando também precariamente o caminho a frente. Perguntei a H. onde ficava o lago do bosque onde, segundo ele nos havia dito, estariam os peixes suculentos a espera de nossos anzóis. Através de uma picada estreita em meio a um oceano de folhas e arbustos, caminhamos durante mais de uma hora, sempre com aquela névoa pegajosa a nos envolver com seus afagos gélidos. P. e a bela W. foram os primeiros a notarem a mudança no ambiente. Houve uma lufada quente de vento que turbilhonou as névoas, dispersando-as como revoadas de espectros na C. indagou a L. se estávamos perdidos naquele bosque com fama de assombrado. L. meneou a cabeça, sombrio, enquanto parava para beber a agua de seu cantil, enxugando os lábios com o dorso da mão. Foi ele também o primeiro a sentir que algo nos observava, algo terrível, invisível, grotesco, malévolo. Uma coisa inominável oriunda, não de nosso Cosmo, mas dos reinos demoníacos do caos de ultra-mundos! Indaguei a L. o motivo de sua apreensão. Disse-me que tinha a sensação de estarmos sendo espreitados. De repente P. confirmou o que L. suspeitava, chamando-nos a atenção para um cheiro nauseabundo pairando no ar como um perfume maldito da morte. “Enxofrelªª, gritei. “Parece enxofre!" L. disse que conhecia certos elementos químicos e substâncias. Não era enxofre, disso ele tinha certeza. Era um aroma bizarro, disse ele, um aroma animalesco, bestial, talvez não do mundo dos vivos, mas de um ser de lugares alem de onde os mortos peregrinam na tribulação cíclica do purgatório. C. entrou em pânico e começou a chorar quando ouvimos aquele rosnar medonho em algum ponte entre as sombras do bosque maldito. A bela W. ajudou C., amparando-a e dizendo que talvez fosse algum animal herbívoro da floresta. H. assentiu, retirando de sua mochila uma arma, um revólver calibre 38. Perguntei-Ihe, nervoso, por que diabos trouxera aquilo, no que ele me retrucou, dizendo que numa floresta como aquela poderia haver alguma tera, por exemplo, uma sussuarana faminta vagando por ali, então, antes de vir, achara melhor se prevenir, trazendo a arma consigo. Foi nesse momento que notei o olhar estranho de H. Há muito eu suspeitava de seus estudos estranhos, de seus gostos por livros medonhos e proibidos, particularmente grimórios e formulários de magia n***a. Certa vez eu o vira estudando as paginas metadas daquele tenebroso Necronomicon, o que me causara um arrepio na espinha, pois eu sabia os conhecimentos malignos que aquele livro maldito encerrava! P., perspicaz, netara algo também. Ele sabia do envolvimento de H. com rituais necromânticos e esotericos, evocações proibidas, no passado recente. H., com sua sede de conhecimento de coisas do Ocultimo tora levado a caminhos do fanatismo, fazendo com que fosse expulso de seitas místicas na selva amazônica, onde um templo piramidal estaria sendo construído para atrair forças energéticas de uma entidade interdimensional malévola que alguns chamavam de Deghammon, o devorador de almas. A ideia da pescaria naquela região distante tinha sido de H. Mas agora, de algum modo eu sabia que ele nos usara o tempo todo, ele tinha segundas intenções naquela pescaria, eu ja desconfiava ligeiramente. Um novo urro bestial fez-se ouvir no silêncio oriptioo do bosque das assombrações metuendas. C. abraçou-se a L., apavorada diante daquele som grotesco e demoníaco. A bela W. gritou para H., pediu-Ihe que atirasse para o alto ou para as moitas que se agitavam nas proximidades, para assustar a b***a, quem sabe. ““Atirel", ela gritou, “Atire para espantar esse bicho, fera ou demônio do Inferno! Atire, vamos! Atire, H.! Nesse momento foi que eu e P. vimos o ointilar da loucura nos olhos sombrios de H. Olhando-nos de um jeito perverso e zombeteiro, H. mirou em direção a W. com () revólver e soltou uma gargalhada diabólica, uma gargalhada insana, c***l, maquiavélioa. Vi quando o gatilho foi pressionado e a bala alojou-se na testa da bela W., que caiu sobre um pequeno arbusto, morta, os olhos esgazeados pelo terror ao contemplar a morte. C. soltou um grito de pavor em meio a Choros oonvulsos de desespero. L. tentava acalma-la, afagando-lhe os belos cabelos. EU e P. gritamos a H., dissemos que ele estava enlouquecido, olamamos para que abaixasse a arma. “Tarde demais. seus tolosl”, disse-nos com um brilho insano nos olhos sombrios. “Vocês foram a isca perfeita para atrair o todo-poderoso Dhegammon, aprisionado na quarta dimensão por magos da Magia Branca! Agora, através de meus rituais secretos, consegui atrair vocês todos, os sacrifícios humanos necessários para que Dhegammon retorne ao mundo dos mortais, e mais uma vez estabeleça seu reinado de terror e carnificina, num imperio apoteótico de violência e força! Não estamos mais numa simples floresta, meus amigos, pois ao atravessarmos os portões das névoas místicas, adentramos uma região sub-etérica do espaço tempo, estamos num limbo interdimensional, num mundo maldito onde a materia existe ao mesmo tempo que o espiritual! E agora, em louvor ao todo-poderoso Dhegammon, vocês todos serão mortos como animais que são, servindo de oferendas ao Comedor de Corpos e Almas, ele , () Dhegammon, aquele que foi e sempre será, aquele que atravessa os ciclos negros da vida telurica, os abismos gelidos do ifiásfer protoplasmatico onde as forças místicas são geradas! P. indagou-lhe, num grito: “E que você receberá em troca disso? Libertar uma força inumana em troca de que, H.? Acorde, não deixe a loucura dominar sua mente!” “TOIo!”, disse Henry, apontando a arma para P. "Eu terei a vida eterna aqui mesmo NO PLANO FÍSÍCO! A imortalidade do corpo, P., foi o que Dhegammon, senhor dos abismos tenebrosos dos espaços negros interdimensionais prometeu-me em sonhos se eu o Iibertasse dos grilhões magicos que o prendeml... Cinco vítimas são necessárias para que o ritual de libertação do Dhegammon seja concretizado. A bela W. foi a primeira, seja você, P., a segunda vítima! O tiro disparado tirou a vida de P. como um raio da morte. Estirado ao chão, seu cadaver era como um troféu conquistado pela loucura de H. Irado, L. avançou tentando tirar a arma de H., mas este se esquivou, dando-Ihe urna coronhada na cabeça de seu adversário, que caiu desfalecido. C. gritou de terror ao ver que H. executara L., caído ao chão, com um tiro na nuca. Ato contínuo. H. apertou novamente o gatilho e atirou nas costas de C., que fugia apavorada no matagal. “Agora resta você. Fl.! Há uma bala reservada para o seu coração sonhador, meu bom amigo!”. disse H. "Vou mata-Io. Ft.! E então o ritual místico de sacrifícios humanos ao Dhegammon estará concluido! Confesso que tremi quando ele puxou o gatilho da alma que apontava para mim. entre gargalhadas diabólicas. Percebi que L., nas vasoas da agonia, conseguira forças derradeiras para apanhar seu canivete. e próximo das pernas de H. como estava, enfiou a lâmina na panturrilha do enlouquecido, fazendo-o curvar-se de dor. Antes de morrer, L. gritou para mim: “Pegue ele R., mate-o e evite o ritual de sacrifícios ao Dhegammon!" Assim tentei fazer. Travamos uma luta corporal. Desferi-Ihe socos e murros violentos. Mas H. estava enlouquecido, e a loucura proporciona forças de ódio aquele que a aninha em sua alma. Ele me deu uma joelhada no ventre, projetando-me ao chão. Mesmo assim, peguei uma pequena pedra coberta de musgo que havia nas proximidades e lancei-o num dos olhos de H. “Maldito! Você me cegou de um olho!”, berrou Henry, curvado de tanta dor. Avancei e consegui derruba-Io. Deus tenha piedade de minha alma. Consegui arrancar sua arma e o atingi mortalmente. Desoarreguei o tambor em seu corpo. Antes de morrer ele curvou seus lábios num sorriso insano e murmurou: t**o R., mataste a vítima que faltava... Era pra ser tu, R., mas que seja eu,então...Agora ele, o Dhegammon está livre mais uma vez...Ah, ah,ah!...Adeus, FM... O deusa morte, abre os portais do teu palácio e acolhe minha alma! Aoode a alma do mistagogo da Ordem dos Adoradores do Dhegammon... Um urro aterrador se fez ouvir no bosque, após 0 Último suspiro de H.. Era ele, eu sabia. Era o Dhegammon se materializando por completo!... Olhei para o cadáver de H., os olhos revirados como que contemplando infinitos reinos do Além. Estava morto! Morto, vagando nas terras do purgatório ou nas sombras do inferno. Ouvi um novo urro bestial, era o Dhegammon se aproximando, se materializando pouco a pouco no mundo dos homens! Com todas as forças de meu ser, gritei enlouquecido de medo e corri, corri como um louco pela mata, atravessando o portão das névoas e voltando as dunas da restinga de onde iniciamos o passeio. Os primeiros clarões da aurora iluminavam meu caminho. Depois, na rodovia sinalizei para o primeiro carro que passava felizmente - ou infelizmente - um carro da polícia rodoviária. Eu estava encrencado. Trêmulo, pálido, com um revólver na mão, vomitando de tanto pavor, os policiais me algemaram. Outras viaturas vieram e os corpos de meus amigos foram identificados na mata. Estavam, de fato, mortos. Perguntei aos policiais se eles tinham visto o Dhegammon. Eles menearam a cabeça, silenciosos, um brilho de piedade nos olhos, como que me achando um louco assassino. Fiquei muito tempo preso. longos anos na verdade. Agora estou velho e liberto. Já cumpri minha pena. Quando anoitece, em minha casa fecho portas e janelas. Pego o rifle que comprei. Não estou paranoico. Apenas tento me proteger daquela coisa, daquela coisa blasfema chamada Dhegammon, que por certo tenta me encontrar. Estarei preparado, venha maldito Dhegammon, eu meterei uma bala em seus olhos cordas chamas do Inferno! Oh, mas o que acontece? Átila, meu cão, põe-se a Iatir estranhamente... Como se me avisasse de que uma coisa medonha ronda a casa, algo que me encontrou, finalmente, após longos anos...A porta da casa começa a ser arrombada, é ele, e ele! O terrível, o bestial, o demoníaco Dhegammonl... FIM NOTA DO AUTOR: O personagem “Dnegammon” é uma personagem titera'ria do escritor, professor e músico Henry Evaristo, de quem o autor deste conto foi feitor assiduo. O conto e' uma homenagem ao estilo e taiento deste britnante escritor, que infelizmente já nos deixou.
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